Foto: Fernando Maia/Reuters

Como será o amanhã? O que esperar do carnaval de rua em 21


Ao ocuparem as ruas, os blocos ajudam a fazer com que o carnaval seja fortalecido enquanto expressão da cultura carioca, espaço de catarse e protesto diante da crise econômica, política e sanitária que estamos enfrentando

As escolas de samba já admitem adiar o carnaval em 2021, segundo o colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo. O que já está sendo discutido nos bastidores vem à tona com cada vez mais força. Vai ter carnaval?

A pergunta é o tema do podcast que está sendo produzido pela jornalista Renata Rodrigues. Participo do primeiro episódio. É consenso que, se a pandemia e suas consequências perdurarem por um tempo ainda muito longo, a resposta será não. Não teremos condições de ter um carnaval em 2021, pelo menos não no período oficial.

Sob o ponto de vista econômico, a decisão é difícil. Segundo a Riotur (Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro), o carnaval de 2020 atraiu 2,1 milhão de turistas. Gerou uma receita de R$ 4 bilhões. A taxa de ocupação hoteleira foi de 93%, 2,3 pontos percentuais a mais do que no ano anterior. De acordo com o SindRio (Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio), o crescimento do faturamento no período foi 5% maior do que em 2019. Nos estabelecimentos da orla, o incremento chegou a 15%. Para além do turismo, o carnaval representa uma fonte de renda para trabalhadores informais que se sustentam por meio da venda de cervejas, acessórios, fantasias. É importante para profissionais autônomos como músicos, produtores, fotógrafos e artistas performáticos. Cancelar a festa seria massacrar ainda mais setores que já estão sendo profundamente prejudicados pela pandemia.

Enquanto o setor de entretenimento já vem pensando novas formas de experiência, como as festas drive-in e outras medidas de controle, não observamos nenhuma movimentação por parte dos blocos e da Riotur, órgão responsável pela organização do carnaval de rua na cidade.

Muitos blocos, neste momento, já deveriam ter iniciado as suas atividades, como oficinas, shows e festas próprias. Poucos aderiram ao modelo das lives e aulas online. Na realidade, não vejo as inovações do entretenimento sendo aplicáveis ao carnaval de rua enquanto manifestação cultural, data festiva, espaço de encontros, abraços e beijos. O carnaval é aglomeração. Não existirá sem isso. A crise atinge em cheio um setor que já vem sofrendo ora com a inadequação das políticas públicas, ora com a completa ausência

Corremos o risco de, novamente, enfrentar um discurso polarizado e distorcido entre investir no carnaval e investir no financiamento de serviços essenciais

Consideremos, então, um cenário extremamente otimista em que estaríamos de volta às ruas no último trimestre deste ano. O que esperar do carnaval oficial dos blocos de rua em 2021? Os cachês e mensalidades das oficinas representam renda para organizadores, produtores e músicos. Formam caixa para custear o carnaval. O atraso das atividades, portanto, prejudica os profissionais envolvidos e a arrecadação de recursos para a realização dos desfiles. A captação de recursos, enorme desafio para esses grupos, se torna ainda mais desafiadora. Com a crise econômica, a tendência será ampliar o modelo desigual que já vem sendo praticado até hoje. Com isso, blocos com maior visibilidade para as marcas e maior potencial de captação serão privilegiados. Falamos daqueles com grande quantidade de público, blocos comerciais ou megablocos. O mesmo grupo continuará sendo a aposta das produtoras de eventos quando retomarem as festas pagas. Os menores não terão fôlego financeiro para arriscar na produção de festas próprias e ensaios.

O mais preocupante é que os blocos menores, sem caixa, terão que escolher entre redimensionar a sua estrutura ou não desfilar. Caso se mantenha o formato de carnaval oficial que existe hoje, os blocos com estrutura mais complexa de desfile serão obrigados a repensar as suas estratégias de sustentabilidade financeira. Senão correm o risco de perder músicos e demais profissionais para setores/blocos/projetos com maior retorno financeiro.

Por outro lado, ao ocuparem as ruas, esses blocos ajudam a fazer com que o carnaval seja fortalecido enquanto expressão da cultura carioca, espaço de catarse e protesto diante da crise econômica, política e sanitária que estamos enfrentando. Nosso desejo será o de ganhar as ruas e precisamos dos blocos para que o carnaval aconteça. A onda de solidariedade intensificada na pandemia poderá impulsionar a arrecadação por meio de financiamento coletivo, vaquinhas, rifas e a contribuição de batuqueiros e foliões.

Quanto ao poder público, até a presente data, a Riotur não se manifestou sobre um possível carnaval em 2021. O planejamento já deveria ter começado e o escopo do contrato de parceria público-privada com a empresa produtora terminou no carnaval deste ano. O reflexo desse atraso pode ser a amplificação do discurso do carnaval como evento, incentivando megablocos, criação do “blocódromo” e controle de público. Diante de uma crise grave de saúde e de um governo que demoniza o carnaval, corremos o risco de, novamente, enfrentar um discurso polarizado e distorcido entre investir no carnaval e investir no financiamento de serviços essenciais.

As eleições devem ser adiadas, o que aumenta o grau de incertezas. Caso tenhamos — e torcemos por isso — um próximo governo municipal a favor do carnaval, teremos um tempo curto para realizar os ajustes necessários para a promoção da festa. Talvez seja a oportunidade para pensar a flexibilização de algumas normas que oneram os blocos e para considerar uma operação de carnaval mais estratégica com o uso de dados e informações geográficas de forma mais clara, transparente, e mais democrática, abrindo o diálogo com os blocos para a resolução conjunta dos principais problemas.

Cabe torcer para que o cenário otimista se concretize. Que o próximo governo da cidade do Rio de Janeiro seja capaz de promover políticas de apoio ao setor cultural e ao carnaval de rua do Rio, reconhecendo a sua importância como manifestação cultural e para a geração de trabalho e renda para a cidade.

Cristina Couri é diretora-executiva do Coreto (Coletivo de Blocos Organizados do Rio de Janeiro), pesquisadora sobre a economia criativa do carnaval, e doutoranda em população, território e estatísticas públicas pela Ence/IBGE com projeto de tese sobre o sistema produtivo do carnaval dos blocos de rua do Rio de Janeiro.

A autora agradece a colaboração de Renata Rodrigues.

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