Foto: Jorge Silva/Reuters

Como crises econômicas afetam o cinema e suas histórias


A pandemia exigirá uma reinvenção inédita da indústria cinematográfica, setor historicamente considerado à prova de recessões

A tragédia econômica de 1929 não afastou os americanos das salas de cinema. Mesmo com a renda retraindo 10% e o desemprego dobrando nos EUA, foram mais de 75 milhões de espectadores somente naquele ano e quase 100 milhões em 1930, segundo levantamento de Michelle C. Pautz e dados reunidos no livro “Entertainment Industry Economics: A Guide for Financial Analysis”, de Harold Vogel. O cinema se tornou um reduto de escapismo e alento em meio ao caos, com narrativas que tocavam as aspirações mais profundas de uma geração que, impotente, via suas perspectivas estilhaçadas. Foi o ano de filmes como “Melodia na Broadway”, que abriu caminho para a Era de Ouro do cinema, um período de três décadas de crescimento.

A narrativa de resiliência dos cinemas ao crash se popularizou, criando com ela a ideia de que bilheterias são anticíclicas, ou seja, crescem em momentos de recessão econômica. É uma visão que precisa ser tomada com cuidado, uma vez que depende de condições específicas de cada mercado. Entre os diversos fatores que podem explicar a relativa resiliência pós-crise de 1929 nos EUA estavam o baixo preço dos ingressos, a ausência de substitutos próximos e o surgimento dos filmes falados (“talkies”), inovação que iniciou um ciclo virtuoso de crescimento e criatividade.

A crise financeira de 2008 reforçou essa percepção. Em 2009, enquanto o PIB americano retraía 2,5%, as bilheterias cresceram impressionantes 10%. De fato, avaliando-se empiricamente, as bilheterias americanas apresentaram comportamento anticíclico em 88% dos picos de crescimento econômico e 69% dos vales de recessão entre 1930 e 2010, ainda segundo Vogel. Existe, portanto, evidência de que as pessoas buscam por mais entretenimento em momentos de dificuldade econômica, e que o cinema oferece uma alternativa acessível nesses períodos, por ser mais barato do que outras formas de lazer.

No entanto, a tendência de a demanda por entretenimento nos Estados Unidos seguir na direção contrária do desempenho da economia se baseia, em grande parte, na disponibilidade de poupança das famílias norte americanas, para as quais o cinema funciona como um bem inferior, cuja demanda aumenta à medida que a renda diminui. Por outro lado, para um país como o Brasil, que tem apenas um quinto da renda per capita norte americana, o cinema é um bem de luxo, cuja participação nos orçamentos familiares aumenta quando as famílias enriquecem. Isso significa que por aqui a tendência é procíclica, com bilheterias crescendo em períodos de pujança, na contramão do que ocorre em países ricos.

Intuitivamente, isso significa que, para uma família de baixa renda, a parcela do orçamento reservada para entretenimento tende a ser muito reduzida. Quando a renda diminui, o entretenimento, considerado um bem de luxo, está entre os primeiros a ser cortado. Este fenômeno é conhecido na teoria econômica como curva de Engel.

O que esperar diante das perspectivas de uma nova e profunda recessão produzida pela pandemia do novo coronavírus? A natureza distinta dessa crise, que traz com ela o isolamento social como principal medida de controle da doença, associada ainda a um conjunto de transformações de mercado sem precedentes, tende a indicar um violento impacto na indústria. Nos permitiremos, portanto, um pouco de especulação.

Por quase um século, a indústria do cinema foi marcada pelo poder de mercado dos grandes estúdios, então os únicos capazes de arcar com os riscos formidáveis de produção e distribuição de conteúdo. Esse arranjo oligopolista assegurava a exclusividade sobre cada janela de exibição (cinema, home video, TV a cabo, TV aberta etc), garantindo que estúdios as explorassem por meio de estratégias de discriminação de preços.

Nos anos 2010, a pirataria e, principalmente, os serviços de streaming abalaram o setor de forma definitiva. O controle estrito da distribuição, antes baseado na escassez das telas, foi substituído pela oferta quase infinita nas plataformas digitais. Sem limitação de espaço, a estratégia foi produzir conteúdos de nicho para todos os perfis de consumidor, contando com algoritmos sofisticados para seu direcionamento. Em oposição, estúdios e cinemas dobraram a aposta em eventos de massa, reduzindo conteúdo segmentado em favor de lançamentos para toda a família.

E então veio a pandemia.

Com as pessoas presas em casa, as histórias se tornaram quase uma necessidade fisiológica diante do mal-estar cotidiano

O isolamento social aliado à ansiedade crescente impulsionou a demanda por entretenimento, assim como em 1929 e 2008. Com o fechamento dos cinemas, os serviços de streaming se tornaram a principal opção, vendo seus números dispararem a níveis inéditos. Em vez de 007 ou “Mulan”, filmes que tiveram lançamento adiado nos cinemas, os fenômenos de 2020 são a série documental da Netflix “A máfia dos tigres” e “Trolls World Tour”, animação da Universal lançada na quarentena que gerou a maior arrecadação da história do video on demand. É a conclusão dramática de um conjunto de transformações que estavam em curso, deslocando o eixo de poder dos estúdios de Hollywood, em Los Angeles, para as empresas de tecnologia do Vale do Silício, na Baía de São Francisco.

Todo rearranjo tem seus vencedores e perdedores. Fragilizadas financeiramente, redes exibidoras como Cinemark e UCI terão que se reinventar ou sair do jogo. Mesmo com um eventual retorno em massa do público aos cinemas, o impacto sobre o caixa dessas companhias pode ter sido forte demais para que continuem competindo.

Do lado dos vencedores, produtores independentes se beneficiarão com a alta na demanda, já que os serviços de streaming precisarão aumentar e diversificar sua oferta de conteúdo. O hiato na produção gerado pelo fechamento temporário dos sets de filmagem tende a deixar quem tem conteúdo pronto para lançamento em posição especialmente vantajosa.

No Brasil, a conclusão será provavelmente mais grave. Com o empobrecimento de famílias, é possível que o já restrito gasto com entretenimento, em vez de migrar para os serviços de streaming, apenas suma. O uso de contas compartilhadas e o aumento da pirataria (que vinha caindo) são opções para sustentar o consumo de conteúdo, ainda que signifiquem redução na receita total do mercado. Para piorar, a política de desmonte da cultura encabeçada pelo governo federal coloca as produtoras nacionais em situação preocupante, já que boa parte delas depende de fomentos e leis de incentivo.

Nesse cenário, os serviços de streaming podem se tornar as novas forças dominantes, já que parte de sua estratégia de crescimento é a internacionalização por meio da produção local. É bem possível vermos uma substituição, ainda que parcial, do financiamento público pelo privado nos próximos meses, dando horizonte para produtoras nacionais e gerando rearranjos potencialmente saudáveis do mercado brasileiro. Aqueles produtores que conseguirem se adaptar rapidamente e gerar bons lançamentos poderão se beneficiar de um período de ampliação na demanda por conteúdos nacionais, potencialmente reduzindo sua dependência do financiamento público.

Assim como em muitas indústrias, a incerteza paira sobre o futuro do cinema. Com as pessoas presas em casa, as histórias se tornaram quase uma necessidade fisiológica diante do mal-estar cotidiano, aquecendo a demanda como nas crises anteriores. Por outro lado, o esvaziamento das salas e dos sets de filmagem, junto com as severas restrições de renda, trarão impactos totalmente imprevisíveis ao setor. Com pouco mais de cem anos de existência, é certo que esta não será a primeira e nem a última vez que o cinema precisará se reinventar para continuar nos trazendo grandes histórias.

Daniel Guinezi é graduado em economia e comunicação, e mestre em comunicação pela USP (Universidade de São Paulo). Trabalha com investimentos em cinema e é consultor para empresas de entretenimento.

José Carlos de Souza Santos é professor no departamento de economia da USP desde 1981. Tem experiência no mercado financeiro nas áreas de derivativos, gestão de carteiras, precificação de ativos e análise de risco.

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