Foto: Rodrigo Garrido/Reuters

Avanço digital e transformação tecnológica agora e pós-covid-19


Enquanto alguns países usam a tecnologia a seu favor para organizar políticas de saúde, monitorar deslocamentos em tempos de quarentena e informar a população, aqui assistimos boquiabertos a pandemia análogica que nos atrasa

A pandemia do novo coronavírus criou um cenário de desafio constante para o Brasil. Como encarar a crise sanitária? Como lidar com a vida da população afetada? Qual o melhor caminho? Em um contexto de grandes dúvidas e incertezas, há um ponto consensual (e infelizmente negativo): vivemos o caos burocrático e a incapacidade de coordenar informações e nortear políticas públicas, porque estamos na lanterna da revolução tecnológica e digital no mundo.

O Brasil vinha trilhando um caminho auspicioso pré-covid-19. Até a reviravolta com a pandemia, os planos para 2020 eram promissores: lançamento da identidade biométrica, digitalizar mais de 1.000 novos serviços em um portal único e simplificar o registro de empresas, um dos maiores gargalos do empreendedorismo no país.

Tudo isso na sequência das conquistas de 2019, quando, mesmo em um país continental, conseguiu-se digitalizar 515 serviços públicos que antes eram disponíveis apenas presencialmente. Em 2018, foram 109, somando R$ 1,7 bilhão em economias, além de 146 milhões de horas poupadas por ano.

Infelizmente os trabalhos do avanço digital e da disseminação do big data na administração pública foram interrompidos para garantir que todos os esforços estejam no combate ao novo coronavírus — e no fortalecimento do distanciamento social para ganharmos tempo nesta crise.

A transformação é inevitável, a tecnologia que nos salva no isolamento é a mesma que irá iluminar os caminhos após a crise

Muitas experiências tecnológicas, no entanto, estão disponíveis no setor privado para se enfrentar um cenário de incerteza generalizada. A necessidade de se ter uma inteligência capaz de dar previsibilidade à disseminação do vírus tornou-se primordial. Data analytics, ou análise de dados, nunca foi tão essencial quando estamos imaginando que a disrupção da cadeia de suprimentos pode ser avassaladora pelos próximos anos, criando enormes dificuldades para uma recuperação econômica sólida. Nenhum país quer enfrentar obstáculos gerados por uma lenta retomada, porque isso significa empobrecimento da população, falta de empregos e atrasos em todas as áreas essenciais.

A relevância da tecnologia neste momento não deve ser usada para acabar com a privacidade do cidadão. Mas o big data analytics é capaz de encontrar padrões, correlações e insights para garantir que incertezas sejam minimizadas, ao possibilitar que tenhamos cenários mais claros de transmissão e disseminação da doença, para que serviços e as empresas se preparem melhor na hora de tomar decisões. Com isso é possível preservar empregos e manter a economia em cima de trilhos mais prognosticáveis.

Esse, claro, é um cenário ideal, mas não é o que vemos hoje no Brasil. O fato é que o país poderia estar muito mais capacitado e organizado nesta guerra contra o vírus agora que nos aproximamos do pior momento da doença.

Enquanto alguns países usam a tecnologia a seu favor para organizar políticas de saúde, monitorar deslocamentos em tempos de quarentena e informar a população, aqui assistimos boquiabertos a pandemia análogica que nos atrasa.

Para piorar, o descompasso entre o setor privado e o público está se acentuando. Enquanto a população brasileira — a quarta maior do mundo em usuários de internet —, adapta-se, como pode, ao trabalho remoto e às ferramentas digitais, o serviço público tem um desafio muito grande para vencer. Com recursos já escassos e uma emergência em curso, o momento é de exigirmos as reformas necessárias.

De um lado, o Congresso mais caro do mundo aliado à máquina estatal de R$ 320 bilhões por ano em salários e encargos com serviços ineficientes, online e offline. De outro, a necessidade de direcionar recursos para a saúde. Neste momento, esses dois elementos só reforçam os argumentos a favor de como a tecnologia pode, e deve, ser uma aliada para melhorar os serviços do Estado.

Em um país onde 11,5 milhões de pessoas vivem em casas superlotadas, 6 milhões não têm banheiro e 31 milhões não têm água, não podemos aceitar que os recursos sejam desperdiçados. Acredito em uma reforma administrativa que seja, além de austera, uma oportunidade de tornarmos o funcionamento do poder público mais claro e objetivo.

Com o direcionamento para proteger os mais vulneráveis e dar condições básicas de dignidade em moradia e saneamento, a digitalização otimiza os recursos pagos com dinheiro público. Não só precisamos de novos parâmetros para contratação e promoção de servidores, como também o funcionalismo público precisa de salários mais próximos do setor privado e de uma revisão da estabilidade. Aliados à maior transparência de dados e agilidade dos serviços, temos a possibilidade de transformar o Estado para melhor.

Com a reforma administrativa que estamos propondo, quantos córregos seriam canalizados, quantas moradias poderiam ser construídas e quantas famílias teriam mais dignidade? As respostas serão descobertas em conjunto e dependem mais do nosso engajamento como sociedade do que das decisões dos políticos.

Não acredito que as máquinas possam substituir os humanos, muito pelo contrário, mas nossa maior qualidade enquanto sociedade é evoluir na adversidade. A transformação é inevitável, a tecnologia que nos salva no isolamento é a mesma que irá iluminar os caminhos após a crise.

Em respeito aos brasileiros que ainda precisam alcançar o básico, precisamos diminuir os gastos onde é possível e expandir o acesso a serviços para quem é necessário. No meio da tempestade, não conseguimos enxergar nem comemorar as pequenas vitórias, mas tenho a convicção que nossos melhores dias ainda estão por vir.

Janaína Lima nasceu no Capão Redondo e é vereadora de São Paulo (Novo). Advogada, especialista em direito público, com extensão em Liderança Executiva em Primeira Infância em Harvard (EUA) e no Internacional Program for Public Leaders pela Johns Hopkins (EUA) . Membro do Global Shapers, rede do Fórum Econômico Mundial, líder Raps desde 2015 e membro da Rede Juntos, da Comunitas.

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