Foto: Ryan Melaugh/Creative Commons

As mortes ‘ocultas’ da pandemia e o Setembro Amarelo


Para além do número de mortos infectados, que já é subnotificado, é preciso contabilizar as mortes, por outras causas, de pacientes que não receberam a devida atenção. Dentre esses, estão todos os pacientes com transtornos mentais que, eventualmente, cometem suicídio

Até dia 24 de setembro, o Brasil já totaliza mais de 139 mil mortos nesta pandemia. Esse é o número mais sólido que, embora alto, ainda é composto por subnotificações e incertezas causadas, em grande parte, por uma gestão governamental ineficiente da pandemia e por desigualdades estruturais pré-existentes que, em meio ao caos, mostraram sua face mais dura.

As subnotificações das mortes que, de fato, foram causadas pela covid-19, não são, porém, o objeto central deste ensaio, mas podem insinuar quão acima de aproximadamente 140 mil o número de óbitos está.

Para além dessas, no entanto, há aquelas que não têm, necessariamente, ligação com a covid-19, mas que poderiam ter sido evitadas caso o SUS (Sistema Único de Saúde) não estivesse tão sobrecarregado em uma política de descuido e sucateamento. Acompanhamentos e tratamentos de doenças crônicas, por exemplo, que em teoria não poderiam ser interrompidos, têm sido afetados e já evocam problemas futuros que poderão emergir no pós-pandemia. Assim como casos que também exigem leitos, mas competem com a concentração de recursos para lidar com os contaminados pela covid-19.

Ao realizar o cálculo da responsabilidade do governo — principalmente federal — sobre tantas mortes, no entanto, o debate público se utiliza, não raro, do dado mais alarmante: o número de mortos contaminados pelo novo coronavírus. Contudo, somadas às vidas perdidas pela covid-19, também é preciso agregar as chamadas “mortes ocultas”. Para além do número de mortos infectados, que já é subnotificado, as mortes de pacientes por outras causas que não receberam a devida atenção ou recursos em função da sobrecarga do sistema público também devem ser consideradas — e, aqui, é importante ressaltar que estas não se aplicam somente aos casos que precisam de leitos, mas também àqueles que, sem tratamento adequado e com acesso desigual à saúde, resultam em óbitos. Dentre esses, estão os pacientes (diagnosticados ou não) com transtornos mentais que, eventualmente, cometem suicídio.

É Setembro Amarelo. Contudo, os dados municipais e federais de óbitos por causas externas (referentes a 2020), que incluem índices de suicídio, permanecem indisponíveis no sistema Datasus. E o dilema vai além dos suicídios: as sequelas causadas e/ou intensificadas por um isolamento social prolongado — que deveria ter sido defendido pelas autoridades governamentais desde o início para incentivar seu cumprimento e sua finalização em menor prazo — é um deles. Além disso, há consequências de um estado de profundo luto pela morte de familiares, incertezas quanto à contaminação, preocupação de profissionais da saúde e outros trabalhadores que temem chegar em suas casas e contaminar seus entes queridos são tão alarmantes quanto o suicídio. Até porque podem culminar nele: em outras situações pandêmicas, já houve uma constatação de aumento nos comportamentos suicidas.

Além disso, somente no município de São Paulo, 4.561 casos de autoagressão foram registrados em 2020. Dentre os demais tópicos de sofrimento mental que mais se fazem presentes no Brasil durante a quarentena, segundo o Projeto Elsa Brasil (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto), estão a depressão, a ansiedade, a insônia, o uso de substâncias tóxicas, os pensamentos intrusivos, a irritabilidade e outros. E os fenômenos dos sintomas diversos que concernem saúde psíquica abrangem, igualmente, indivíduos diversos: quase 80% dos profissionais de saúde, sobretudo agentes comunitários, já relataram abalo em sua saúde mental, com o medo sendo o principal sentimento mencionado. Adolescentes e crianças também se configuram enquanto grupos vulneráveis.

Para além do número de mortos infectados, que já é subnotificado, as mortes de pacientes por outras causas que não receberam a devida atenção ou recursos em função da sobrecarga do sistema público também devem ser consideradas

Um estudo publicado pelo The Lancet Psychiatry indica que, na literatura recente, o medo dos impactos econômicos negativos causados ou intensificados pela pandemia também é um fator importante para o aumento dos sintomas relacionados à depressão, ansiedade e estresse.

Nesse sentido, não se pode falar sobre Setembro Amarelo, prevenção ao suicídio e cuidados de saúde mental em um país tão desigual sem mencionar como as desigualdades estruturais pré-existentes intensificam a assimetria no acesso a serviços de saúde mental e o sofrimento, sobretudo, de pessoas pobres, negras e indígenas.

Também seria similarmente ingênuo dissertar sobre o tema sem referenciar o SUS e, ainda mais especificamente, os Caps (Centros de Assistência Psicossocial) que, entre 2014 e 2017, já atendiam majoritariamente pessoas negras (pretas e pardas) — as mesmas que, nitidamente, ainda sofrem com as consequências socioeconômicas de forma desproporcional quando comparadas às pessoas brancas. Atualmente, tais centros continuam exercendo papel fundamental, mesmo em meio ao sucateamento da rede pública, para garantir a democratização do acesso à saúde com equipes multidisciplinares — de assistentes sociais, enfermeiras e farmacêuticos a psicólogos e psiquiatras, além da oferta, em alguns casos, de refeições no local de atendimento.

Finalmente, é indispensável que a saúde mental seja um tema mais abordado e respeitado, com consciência, por toda a população, sobretudo considerando as opiniões técnicas e científicas de gestores e acadêmicos das mais diversas áreas — direito, políticas públicas, relações internacionais, saúde e outras —, principalmente em meio à complexidade da pandemia.

Não haverá uma resposta única para tais questões sem que haja uma profunda reflexão que aborde os direitos fundamentais que têm sido desrespeitados (como o acesso aos serviços de saúde mencionados), os cenários de outros países no enfrentamento às consequências psicológicas da pandemia e a formulação de políticas públicas que considerem e prezem por uma interseccionalidade de raça, gênero, classe e outros critérios associados às desigualdades mais alarmantes no Brasil.

Com certa frequência, presume-se a existência futura de uma quarta onda da pandemia que será, justamente, sobre os efeitos psicológicos deste contexto — o que provavelmente ainda acontecerá. Não se pode ignorar, no entanto, que parte desse dilema compreendido como “posterior” já ocorre agora, nas ondas iniciais.

A prevenção ao suicídio e a valorização da vida e da saúde como um todo devem ser prioridades para além do mês de setembro. Sem o contínuo respeito, investimento, ação e atenção por parte do governo às políticas públicas de saúde mental e saúde em geral, as consequências apenas aumentarão a conta da (ir)responsabilidade política. Nela estão incluídas todas as demais mortes por falta de leitos, de acompanhamento para doenças crônicas, de assistência psiquiátrica adequada e por tantas outras questões agravadas pelo sucateamento do setor à somatória daqueles que morreram por covid-19, negacionismo e negligência.

Thayla Bicalho Bertolozzi é mestranda em humanidades, direitos e outras legitimidades pela USP (Universidade de São Paulo), graduada em relações internacionais (USP) e assistente de pesquisa no Afro/Cebrap (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial).

Se você precisa de ajuda, é possível entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo telefone 188 ou no site www.cvv.org.br.

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.