Foto: Rahel Patrasso/Reuters

Agricultura urbana faz a diferença em tempos de pandemia


Na crise do novo coronavírus, os circuitos curtos de comercialização têm demonstrado sua importância na garantia da renda dos agricultores e no fornecimento de alimentos para as cidades

As mudanças no setor de alimentos em decorrência dos impactos das medidas de distanciamento social necessárias à contenção da pandemia do novo coronavírus têm sido assunto recorrente nos últimos dias. Se, no início da quarentena, os bairros centrais das cidades assistiram à corrida para os supermercados com filas e prateleiras esvaziadas, por outro lado, nas periferias o desafio tem sido garantir a manutenção das refeições diárias. De uma forma ou de outra, a quarentena nos convida a repensar o nosso consumo alimentar, de onde vem o que comemos, como é produzido e como o acessamos.

O Instituto Escolhas e Urbem desenvolvem um estudo sobre a agricultura na Região Metropolitana de São Paulo. Segundo análise da pesquisa ainda em desenvolvimento, 13% da população ocupada trabalha em atividades diretamente relacionadas à alimentação e, em média, 39% do gasto alimentar dos paulistanos é feito em refeições fora de casa. Diante do atual contexto, ainda que os sistemas de entrega estejam operando intensamente, os hábitos alimentares tiveram que ser modificados, forçando os paulistanos a comerem em casa.

Neste cenário complexo, um elo essencial da cadeia de alimentos, os agricultores, muitas vezes invisíveis ou desconhecidos para a maioria dos consumidores, também vivenciam mudanças causadas pela pandemia de coronavírus. O impacto para quem produz alimentos está associado a diversos fatores, mas as formas de escoamento da produção, isto é, as vias de acesso entre produtor e consumidor, têm especial peso para quem depende da produção no campo. Com o fechamento de restaurantes, a queda na procura por produtos frescos e perecíveis, a diminuição das compras públicas e a redução das feiras livres, muitos produtores que escoam sua produção para São Paulo têm enfrentado situações adversas como o desperdício de alimentos decorrente da queda nas vendas.

Por outro lado, para os agricultores urbanos, que acessam os chamados circuitos curtos de comercialização, o cenário é distinto: a demanda por seus produtos se intensificou. Caracterizados pela proximidade entre consumidor e produtor, reduzindo ao mínimo o número de intermediários no mercado de alimentos — como as feiras orgânicas e de produtores, os grupos de consumo responsável e algumas modalidades de compras públicas —, os circuitos curtos (re)valorizam a produção local e as relações de solidariedade.

Cabe à sociedade e ao poder público reconhecerem a agricultura existente na Grande São Paulo, seus elos com o consumo e seu papel na resiliência do sistema alimentar da maior metrópole da América Latina

Dona Terezinha Matos, moradora e agricultora do bairro de São Mateus, zona Leste da capital paulista, comenta que a demanda por seus produtos cresceu em 30% desde a notificação da pandemia no estado. Integrante da AAZL (Associação dos Agricultores da Zona Leste), Terezinha cultiva mais de 50 tipos de produtos orgânicos, entre verduras, legumes e algumas frutas debaixo dos linhões de energia na região leste da periferia paulista. E não está sozinha: quem percorre a cidade de São Paulo e seu vasto território poderá se surpreender com a produção de alimentos nos limites do município. Segundo dados do Censo Agropecuário de 2017 analisados pelo estudo, há 550 estabelecimentos agropecuários na cidade, sendo cerca de 250 deles localizados dentro da zona urbana do município.

Com o fechamento do sistema Sesc, onde Terezinha participava de eventos mensais, e a redução do público das feiras orgânicas, a alternativa foi oferecer cestas de alimentos para a clientela dos bairros vizinhos na mesma região, que a procura pessoalmente. A agricultora familiar acredita que o crescimento da demanda por produtos orgânicos também seja efeito de uma maior preocupação com a qualidade da alimentação devido à covid-19, e ainda comenta que a oferta de produtos de toda a associação não tem sido capaz de responder inteiramente à grande procura.

O Instituto Feira Livre, localizado no centro de São Paulo, também viu a demanda por seus produtos crescer substancialmente. A associação comercializa produtos orgânicos frescos diretamente de agricultores familiares próximos à capital e outros itens de mercearia de regiões mais distantes, tudo a preço do produtor. Para custear suas operações, sugere uma contribuição adicional dos consumidores. Operando em um circuito curto de comercialização, o Instituto teve um crescimento de 30% no último mês de março, comparado ao ano anterior, a despeito do funcionamento restrito pela pandemia. Os associados atribuem o aumento da demanda no Instituto ao fechamento dos restaurantes e alguns mercados, o que levou as pessoas a se alimentarem em casa e a procurarem os poucos locais abertos e que se mantiveram abastecidos.

Nesta pandemia, os circuitos curtos de comercialização têm demonstrado sua importância na garantia da renda dos agricultores e no fornecimento de alimentos para as cidades, em situações em que o abastecimento sofre impactos. Se, por um lado, o modelo centralizado usual proporciona ganhos logísticos de escala, por outro, ele se demonstra mais vulnerável a crises. Cabe à sociedade e ao poder público, hoje mais do que nunca, reconhecerem a agricultura existente na Grande São Paulo, seus elos com o consumo e seu papel na resiliência do sistema alimentar da maior metrópole da América Latina.

Vitória Leão é mestra em ecologia aplicada, pesquisadora no Grupo de Estudos em Agricultura Urbana do IEA-USP (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo) e no Instituto Escolhas.

Marcela Alonso Ferreira é urbanista e mestra em políticas públicas, pesquisadora no Urbem e no Instituto Escolhas.

Jaqueline Ferreira é doutora em ciências sociais e gerente de projetos do Instituto Escolhas.

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