Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Afinal, qual o tamanho do grupo de risco da covid-19?


A Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 coletou, juntamente com as informações de saúde, dados sociodemográficos de indivíduos e domicílios. Essas informações nos permitem estimar o número de pessoas que são mais vulneráveis ao novo coronavírus

Muito se fala do chamado grupo de “risco biológico” da covid-19, que englobaria os idosos e aqueles que têm doenças crônicas como diabetes e hipertensão arterial, entre outras. Tais características favorecem o desenvolvimento de formas graves da doença e, consequentemente, maior propensão ao óbito. Pouco se discute, no entanto, sobre o tamanho do grupo de risco e a magnitude do esforço que precisaria ser feito para sua proteção.

Diversos tipos de levantamentos foram feitos nos últimos anos para dimensionar a incidência de doenças crônicas no Brasil. A Pesquisa Nacional de Saúde, de 2013, tem a vantagem de ter coletado dados sociodemográficos juntamente com as informações de saúde, além de características do trabalho e rendimento dos indivíduos.

Segundo seus resultados, em 2013, 4,4% da população brasileira sofria simultaneamente de diabetes e hipertensão, enquanto 19,9% eram só hipertensos e 2,6% eram só diabéticos. Somadas, as duas enfermidades atingiam 27% dos brasileiros, num total de 34,7 milhões de indivíduos. Como a pesquisa foi realizada há sete anos, período no qual estima-se que a população brasileira aumentou em 5,8%, o grupo de risco hoje teria acréscimo de mais 2 milhões de indivíduos aos identificados na coleta da pesquisa, totalizando 36,7 milhões.

A ausência de políticas mitigadoras dos efeitos do confinamento dos indivíduos do grupo de risco que trabalham traz também impactos significativos para suas famílias

A incidência dessas doenças é altamente sensível à idade da pessoa. Somadas, diabetes e hipertensão atingiam apenas 4,3% dos que tinham entre 18 e 29 anos de idade, 25,3% daqueles com 30 a 59 anos de idade e 58,3% daqueles com 60 anos ou mais de idade. Como se pode notar, a inclusão dos idosos no grupo de risco da covid-19 deve-se, em grande parte, à probabilidade de possuírem tais comorbidades e não apenas à idade propriamente dita.

O ambiente doméstico é bastante favorável à contaminação pelo coronavírus, fato que indica a necessidade de proteção de todo o grupo familiar daqueles que pertencem ao grupo de risco da doença. Para garantir a segurança “apenas” dos idosos e dos hipertensos e diabéticos, estaríamos falando de mais de 46 milhões de indivíduos. Estendendo a proteção a seus familiares, acrescentaríamos mais 46,5 milhões de indivíduos no grupo vulnerável, alcançando um total de 92 milhões de pessoas ou 46% da população em 2013. Atualmente, esse número seria ainda maior.

Como ainda não existem vacinas ou medicamentos para controle da covid-19, as estratégias de proteção da população adotadas envolvem intervenções não-farmacológicas, como distanciamento social e testagem de contaminados. No caso brasileiro, os níveis de testagem têm sido muito baixos. Logo, resta como medida de proteção manter os indivíduos isolados do contato social.

Assim como ocorre para parte da população idosa, no caso dos diabéticos e hipertensos, essas medidas são dificultadas ainda mais pelo fato de que 42,6% deles trabalhavam, um total de 14,7 milhões de indivíduos. Seu isolamento, nesse sentido, precisaria ser acompanhado de medidas de proteção do emprego e da renda para que se garanta realmente uma proteção efetiva desses indivíduos.

A ausência de políticas mitigadoras dos efeitos do confinamento dos indiv��duos do grupo de risco que trabalham traz também impactos significativos para suas famílias. Isso ocorre por que a renda do trabalho desses indivíduos representa, em média, 47,3% da renda total de seus domicílios.

A Renda Básica Emergencial, por exemplo, é uma política emergencial que pode ter o auxílio estendido somente pelos próximos dois meses. Até o momento, o debate sobre sua prorrogação, ou mesmo sua transformação em um programa de renda básica permanente (ainda que com valor menor), tem se dado somente sob a ótica da redução da pobreza. Contudo, como podemos observar, seus impactos vão além, auxiliando na proteção dos grupos vulneráveis à doença.

O tamanho do grupo de risco no Brasil mostra a importância e urgência de se aprofundar esse debate.

Marden Campos é economista, professor do Departamento de Sociologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Rômulo Damasceno é estudante de ciências sociais da UFMG.

Este texto foi elaborado como parte dos estudos da Rede de Pesquisa Solidária, formada por mais de 50 pesquisadores, com o objetivo de elevar o padrão, calibrar o foco e aperfeiçoar a qualidade das políticas públicas relacionadas à crise da covid-19.

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