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A recuperação da economia será verde ou não será


O Brasil deve se engajar na avaliação dos riscos socioambientais de seus projetos e obras, sob pena de não ganhar acesso aos recursos que estarão disponíveis para a retomada após a pandemia

A pandemia de covid-19 paralisou a economia mundial. Cadeias de valor entraram em colapso pelas dificuldades impostas em todas as etapas: produção, escoamento, logística, vendas e consumo. Estimativas indicam o tamanho do impacto. O FMI (Fundo Monetário Internacional), em seu relatório de junho, projeta queda de 5% no PIB mundial em 2020, enquanto a OMC (Organização Mundial do Comércio) estimou a redução do comércio global neste ano em mais de 13%, no cenário mais otimista. No Brasil, a expectativa do mercado é de queda de 6,5% no PIB para 2020.

Governos do mundo inteiro, bancos centrais e agências multilaterais de fomento e crédito já preparam planos de salvamento e recuperação para a economia. Tamanho impacto na atividade econômica global exigirá respostas volumosas e ousadas. O FMI contabilizou, ainda em junho, US$ 11 trilhões em recursos destinados pelos países para a saída da crise. No Brasil, as medidas anunciadas pelo Ministério da Economia já mobilizaram R$ 1,1 trilhão, segundo Paulo Guedes, e se prevê também um programa de investimentos em infraestrutura.

A União Europeia se organiza para alocar € 750 bilhões na recuperação econômica, e o desenho das políticas e programas foca no que se convencionou chamar de “recuperação verde”, ou seja, os recursos serão orientados para setores que dialogam com as políticas de combate às mudanças climáticas e empreendimentos sustentáveis com baixo impacto socioambiental. O plano faz parte do chamado “European Green Deal”, e visa não somente irrigar com dinheiro os projetos em território europeu, mas também em países parceiros.

Mudanças climáticas têm o potencial de gerar tragédias humanitárias e o mesmo colapso em cadeias globais do próprio coronavírus

Em geral, as medidas governamentais em todo o mundo vão em três direções principais, não sendo diferente no Brasil: 1) tentativa de manutenção de emprego e renda, 2) salvamento do sistema financeiro e setores estratégicos e 3) investimentos públicos e privados em infraestrutura. As duas primeiras frentes de atuação já estão sendo implementadas, por se tratarem de ações emergenciais, enquanto a última tende a ser desenvolvida após a crise sanitária mais aguda ser estabilizada, como uma ponta de lança para a recuperação econômica global, já que são investimentos intensivos em mão de obra, que mobilizam cadeias produtivas complexas.

Dessa forma, um volume significativo de recursos financeiros será reservado para investimentos estruturais — nas áreas de logística, energia, saneamento, desenvolvimento urbano etc. — e haverá países, empresas e projetos prontos para disputar e capturar essa liquidez.

É nesse momento que a agenda ambiental e a busca por investimentos sustentáveis podem se fortalecer. O contexto anterior à eclosão da covid-19 já mobilizava de maneira profunda o setor bancário, os investidores e as agências multilaterais na canalização de recursos financeiros para a disseminação de iniciativas sustentáveis, assim como estimulava a inclusão de avaliação de efeitos sobre impactos ecológicos como fator decisivo na alocação do dinheiro — conforme amplo debate na última reunião do Fórum Econômico Mundial de Davos.

O mundo pós-pandemia deve fortalecer as decisões baseadas em estudos e proposições científicas. E as mudanças climáticas estarão ainda mais presentes nas previsões de risco, já que têm o potencial de gerar tragédias humanitárias e o mesmo colapso em cadeias globais do próprio coronavírus.

Além da iniciativa da União Europeia, agentes financeiros e organizações multilaterais já indicaram que vão fortalecer suas análises ambientais, favorecendo a alocação de recursos em projetos e países com planejamento ecológico robusto.

O setor bancário também discute regras mais rígidas e novos parâmetros para a avaliação socioambiental de empreendimentos. Além da revisão dos Princípios do Equador — que é um acordo voluntário entre bancos para a aplicação de indicadores ecológicos na análise de investimentos —, instituições bancárias ao redor mundo adotam metodologias para mensurar o impacto do clima em projetos individuais, investimentos, carteiras e portfólios.

O FSB (Financial Stability Board), órgão de assessoramento sobre finanças globais do G20, analisa metodologias e índices para mensurar a sustentabilidade das carteiras de crédito e de investimentos do setor financeiro. Os bancos centrais, organizados por meio de uma rede para a promoção e regulação de práticas sustentáveis no sistema financeiro (Network for Greening the Financial System), também já indicaram que continuarão revendo normas e aplicando medidas para mobilizar, ainda mais, a agenda de combate às mudanças climáticas como vetor de decisão de investimentos. O Banco Central do Brasil acaba de anunciar sua adesão a essa rede, mostrando o comprometimento da autoridade monetária do país com a agenda ambiental e instigando o órgão a ser mais incisivo em sua atuação nesse campo.

A necessidade de preservar capital e proteger os “donos do dinheiro” dos riscos reputacionais de investimentos que afetam o meio ambiente pode fazer a diferença a quem pretende acessar o seu quinhão dos recursos que estarão em disputa quando a pandemia permitir ao mundo voltar a funcionar.

A mobilização de parte do setor financeiro mundial, que endereçou uma carta ao Brasil com severas críticas à política ambiental nacional (citando inclusive a possibilidade de retirar investimentos no país), junto com o alerta feito por importantes empresários brasileiros ao vice-presidente da República indicam que o Brasil pode não receber esses recursos fundamentais para a recuperação econômica.

Assim, torna-se claro que os bancos brasileiros, empreendedores e investidores em infraestrutura, governos e agências públicas de fomento devem se engajar na adoção de critérios de avaliação de riscos socioambientais dos projetos e obras, sob pena de não terem acesso à liquidez financeira de recursos internacionais que estarão disponíveis no momento pós-pandemia.

Gabriel Kohlmann é gerente de projetos do Instituto Escolhas. Mestre em economia internacional e desenvolvimento pela Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim (HTW Berlin).

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