Foto: Juan Medina/Reuters

A importância de testar a população para enfrentar a covid-19


Os países que conseguiram controlar as fases iniciais da pandemia devem parte de seu sucesso à expansão maciça de testes para detectar os infectados

Mais de 270 membros da comunidade acadêmica que estuda e pesquisa sobre demografia e saúde da população fazem um alerta aos países da América Latina e do Caribe: é necessário aumentar a cobertura dos testes de covid-19 na região enquanto há tempo. Estudiosos afirmam que os países que conseguiram controlar as fases iniciais da pandemia devem parte de seu sucesso à expansão maciça de testes para detectar os infectados e às medidas drásticas de distanciamento social. A experiência desses países pode servir de guia aos países da América Latina e do Caribe, onde os primeiros surtos da pandemia se iniciaram dois meses após a China e um mês após a Europa. Ainda temos tempo, mas pouco. Se os governos da América Latina e do Caribe não agirem, outros países podem experimentar situações dramáticas, como a vivida pelo Equador nos últimos dias.

Nossa pesquisa, com base nos dados disponíveis para alguns países, revelou que, na América Latina e no Caribe, os números de testes por milhão de habitantes está muito abaixo do número médio de testes realizados na Europa. Enquanto a Singapura e a Coreia do Sul conduziram mais de 7.000 testes por 1 milhão de habitantes, esse número é em torno de 600 testes por 1 milhão na América Latina e no Caribe. No Brasil, há informações de que esse número seria de 297 por 1 milhão de habitantes.

Sem uma ampla cobertura dos testes, não é possível traçar a evolução epidemiológica e temporal da pandemia

Sem testes, o monitoramento das políticas é precário. Um levantamento realizado pela Open Knowledge Brasil endossa essa drástica situação no país. Ao avaliar os portais dos governos estaduais e federais segundo critérios de transparência e abertura das informações, constatou-se que 90% dos avaliados ainda não publicam dados suficientes para acompanhar a disseminação da pandemia de covid-19 pelo Brasil, inclusive o governo federal.

Em entrevista ao programa Fantástico no domingo 12 de abril, o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou que o Brasil não tem capacidade de fazer testes em 200 milhões de habitantes. Certamente o ex-ministro tem razão: nenhum país testou todos os seus habitantes. Ademais, nos países europeus e asiáticos, com menor extensão territorial, maior concentração populacional, mais recursos e maior coesão social, a testagem de uma maior parcela da população é mais factível.

Todavia, argumentamos que é necessário privilegiar os esforços para uma ampla testagem, coordenada com rápida divulgação dos resultados. Sem o acompanhamento de estratégias agressivas de detecção de casos de covid-19, as medidas de isolamento social, que são muito caras e restritivas, serão pouco eficazes.

Sem uma ampla cobertura dos testes, não é possível traçar a evolução epidemiológica e temporal da pandemia. Os testes permitem a identificação dos indivíduos contaminados, orientando-os e a suas famílias e pessoas de seu círculo de contato para medidas de isolamento e de testagem, evitando novas cadeias de contágio. Ademais, do ponto de vista dos formuladores de políticas de saúde e tomadores de decisão, o mapeamento da adequação da capacidade de carga do sistema nos estados e municípios depende do cálculo diário do número casos confirmados e dos óbitos atribuídos à covid-19. Sem uma testagem ampla, não podemos confiar nessas duas estatísticas, essenciais para o monitoramento da pandemia.

Além dos desafios enfrentados pelo Brasil e pela América Latina no controle da pandemia, a região possui outros fatores agravantes. Muitos países da região possuem sistemas de saúde precários e alta prevalência de doenças crônicas, como diabetes e pressão arterial alta, um perfil epidemiológico que pode contribuir para um aumento do número de mortes por covid-19. Além disso, nas últimas décadas a região vem combatendo doenças infectocontagiosas como a zika e a dengue, o que a torna ainda mais vulnerável.

Os altos níveis de informalidade na economia e a desigualdade econômica dificultam as medidas de isolamento por longos períodos na região. A situação é ainda mais complicada porque existe uma elevada coabitação dos netos e avós, o que aumenta o risco de contágio para a população idosa. Há, também, indícios de que os casos de violência doméstica contra as mulheres, comuns na região, aumentaram durante o período de isolamento.

Portanto, a recomendação é: teste, e teste de novo.

A estratégia de testes massivos na população, portanto, trará benefícios importantes, como taxas de mortalidade mais baixas, menor vulnerabilidade socioeconômica e menos consequências para a saúde física e mental da população a longo prazo. Argumentamos que esses benefícios compensam os custos associados à sua implementação.

Raquel Guimarães é pesquisadora de pós-doutorado no International Institute for Applied System Analysis, em Viena. É mestre e doutora em demografia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e mestre em educação internacional comparada pela Stanford University. É atualmente professora licenciada do Departamento de Economia da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Marília R. Nepomuceno é pesquisadora do Instituto Max Planck para pesquisas demográficas, em Rostock, Alemanha. É atuária, mestre e doutora em demografia pela UFMG.

Enrique Acosta é pesquisador do Instituto Max Planck para pesquisas demográficas, em Rostock, Alemanha. Sociólogo com PhD em demografia pela Université de Montréal, Canadá.

José Manuel Aburto é pesquisador do departamento de sociologia e do Leverhulme Centre for Demographic Science, University of Oxford. É doutor pelo Interdisciplinary Centre on Population Dynamics, University of Southern Denmark.

Diego Alburez-Gutierrez é pesquisador do Instituto Max Planck para pesquisas demográficas, em Rostock, Alemanha. É doutor pela London School of Economics and Political Science.

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