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Foto: Andrew Kelly/Reuters

A estratégia necessária contra a Covid-19: ação com foco


Parar para ganhar tempo é o que o Brasil tem feito. Mas essa estratégia tem prazo de validade limitado. E precisará ser reorientada brevemente

No mundo, a estratégia central de combate ao coronavírus tem sido a paralisia para ganhar tempo. Tempo para preservar a estrutura de saúde, para ganhar tempo e para que nossa natureza consiga neutralizar o vírus.

É isso o que o Brasil, em meio às disputas políticas, também tem feito. Mas essa estratégia, em nossa realidade, tem prazo de validade limitado. E precisará ser reorientada brevemente.

China, Coreia do Sul e Alemanha são modelos distintos da luta para “ganhar tempo”.

A China apostou na contenção absoluta. Após surto desenfreado, isolou regiões inteiras, em uma semana botou hospital novo e equipado de pé, trouxe médicos de outras partes do país…O saldo está aí: o contágio interno, por ora, foi praticamente zerado.

A Coreia do Sul seguiu caminho similar: lançou testes gratuitos e em larga escala, realizou busca ativa da população suspeita, utilizando rastreamento de celular e de gastos do cartão de crédito para identificar contatos de risco e isolar suspeitos. A mitigação surtiu efeito para “abaular” a curva. Sequer fecharam escolas públicas.

A Alemanha, integrada por todos os lados ao bloco europeu, não conseguiu conter o alastramento da epidemia, que já atinge dezenas de milhares de pessoas. Mas até o momento, com coordenação e um amplo sistema de saúde pública, o país tem conseguido reduzir drasticamente o número de mortos.

A estratégia da paralisia nos deixou lições cruciais: é importante testar amplamente a população, neutralizar rápido focos de contaminação, ajustar-se continuamente conforme o avanço da curva.

No Brasil, também tem sido importante para mudar a chave mental do país. Mas nossa realidade é muito distinta dos países europeus e asiáticos em que nos inspiramos. E a paralisia apenas não nos servirá por muito mais tempo.

O país titubeou na largada, foi lento e confuso na contenção, e o vírus se espalhou por todos os cantos. Não há um único estado brasileiro sem registro de contaminação. Possivelmente, a grande maioria das cidades já possua foco. E há pouco, veio a notícia temida: o vírus chegou às periferias. Não tardará em atingir famílias espremidas em pequenos cômodos nos rincões do país.

No interior, há muitas dezenas de cidades brasileiras sem um único médico. Na absoluta maioria, não há leitos de tratamento intensivo. Nas cidades em que há, as UTIs estão quase todas cheias (antes da chegada da covid-19). Veja o desabafo do governador do Rio: “hoje temos zero leitos”.

O povão não tem colchão algum para se manter por mais que alguns dias sem trabalhar. Empresas já suspenderam os pagamentos. Ainda que o governo proíba demissões, que começam a ocorrer em massa, faltará dinheiro na mesa do trabalhador depois de amanhã. Logo virão as invasões em supermercados e farmácias, como em São Paulo.

Por isso mesmo, é imperativo que o governo aja com mais rigor para atenuar os efeitos da crise, especialmente sobre pequenas empresas e trabalhadores. Mas a escala e a velocidade do problema revelarão rapidamente a insuficiência dos aportes do governo para manter indefinidamente a paralisia.

É triste e muito difícil reconhecer este fato: mas já não basta ganhar tempo no Brasil imitando China, Coreia e Alemanha.

O que fazer?

O Brasil deve se preparar para enfrentar de frente o vírus que se alastrou e que matará muitos de nós.

Pôr em marcha uma estratégia maciça de produção e de compra acelerada dos recursos de saúde que nos faltam, de treinamento de pessoal e de ampla mobilização nacional.

Em vez de nos fechar por inteiro e esperar um milagre, abrir setorialmente e nos coordenar lá na ponta.

Em cada cidade, não só nas grandes capitais, vamos construir hospitais de campanha e orientar voluntários. Não sei se conseguimos construir um hospital em dez dias. Mas tenho certeza de que somos capazes de preparar estrutura básica de atendimento, adaptar escolas e hospitais, ginásios ou sedes de prefeitura em cada bairro do país.

Luvas e máscaras hoje nos faltam, mas podemos produzi-las e distribuí-las muito rapidamente. Não é tecnologia complexa. É roupa e plástico. Onde estão nossos empresários e engenheiros de excelência? Mãos à massa. Na Segunda Guerra, inúmeras indústrias americanas se ajustaram quase instantaneamente. A Chrysler paralisou a produção de carros para produzir tanques. O primeiro tanque ficou pronto muito rápido. Não há risco; o governo garante a compra, sem licitação.

E os respiradores, remédios e mantimentos, agora que o entorno do presidente brigou com o principal fornecedor? A China é um país grandioso, pragmático e com visão de futuro. Sabe bem do coração dos brasileiros e de nossa importância para alimentação do seu povo. Tem consciência de que seu gesto magnânimo gerará entre nós gratidão eterna.

São poucos os técnicos preparados para operar respiradores. Mas podemos treinar nossos militares, nossos engenheiros e estudantes de medicina a operá-los em muito pouco tempo. E em 48 horas, a FAB (Força Aérea Brasileira) vai a qualquer ponto do mundo e volta com carga cheia.

Cabe ao Ministério da Saúde coordenar o SUS (Sistema Único de Saúde) de cima e financiar ações na base. O Ministério da Defesa deve coordenar as construções, especialmente na Amazônia e Nordeste.

Cada governador, apoiado por seus secretários, deve avançar regionalmente no atendimento de forma decidida. Prefeitos organizam postos de atendimento locais, treinam voluntários e orientam a população. O Congresso monitora e autoriza o que necessário.

Não se trata de escolher entre economia e saúde, nem de escolher entre vidas. Trata-se de pisar no chão da realidade dura de nosso povo — pobre, espremido, desamparado — e reconhecer nesse caos que a nossa maior força é a capacidade de agir.

Parar por completo, até agora, foi muito importante para o governo e a população se darem conta do drama que vivemos. Mas agora é guerra. A guerra de nossa geração.

É hora de agir com foco e coordenar a base: aumentar a capacidade instalada, preparar voluntários e equipar o país.

Daniel Barcelos Vargas é professor de políticas públicas da Escola de Economia da FGV (Fundação Getulio Vargas) em São Paulo e de direito da FGV no Rio. É doutor e mestre em direito pela Universidade de Harvard, mestre e bacharel em direito pela Universidade de Brasília.

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