Foto: Eric Gaillard/Reuters

A dor e a delícia de criar filhos num mundo cada vez mais digital


A educação de crianças e adolescentes, tarefa já tão complexa e grandiosa, ganhou novas dúvidas com as transformações tecnológicas e a imersão nas telas para a qual fomos todos empurrados após o início da pandemia

Durante as últimas duas décadas, em especial após a pandemia da covid-19, a internet e os dispositivos eletrônicos se tornaram um elemento fundamental na vida de muitas crianças brasileiras. Ainda que a desigualdade digital seja fortemente presente em nosso país, a cada dia mais meninos e meninas têm acesso ao mundo online, especialmente por meio de celulares, que passam a fazer parte de suas identidades.

Simultaneamente, as experiências digitais das crianças mudam com uma velocidade incrível, pelas alterações dinâmicas das plataformas que já estão consolidadas e com aquelas que surgem a cada dia. Assistir e produzir vídeos, ouvir música, conversar com amigos e familiares, postar e interagir em redes sociais e jogos online encabeçam a lista de atividades que as crianças realizam diariamente. Embora muitas aproveitem majoritariamente as opções ligadas ao entretenimento e socialização que a internet oferece, elas não sobem a “escada de participação online”, segundo pesquisa de 2019 do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), ou seja, o uso que fazem da internet não alcança atividades cívicas, informativas e criativas que muitas vezes são anunciadas como oportunidades cruciais da era digital.

Sabemos que uma série de fatores moldam essas experiências e podem refletir desigualdades em como se dá o acesso, as formas de uso e as oportunidades e ameaças que as crianças encontram ao longo do caminho.

Mais do que nunca, empresas e plataformas de tecnologia e o Estado devem empenhar meios para que toda criança e adolescente possa crescer de forma segura

Muitos pais e mães acreditam que eles são os maiores responsáveis pelas experiências digitais das crianças, mas uma análise mais aprofundada mostra que não é bem assim: as escolas têm um papel fundamental nesse cenário, ao incorporar as questões que permeiam o debate sobre a vida digital em seus projetos e propostas. Além disso, universidades, centros de pesquisa, governos, plataformas e empresas de tecnologia têm uma enorme responsabilidade em relação às vivências digitais positivas de todos nós. Importante destacar que uma relação saudável com o ambiente digital perpassa também pelo acesso a alternativas de qualidade que concretizem a esfera presencial do convívio social como ruas, praças, parques e outros equipamentos públicos seguros e cuidados.

A educação de crianças e adolescentes, tarefa já tão complexa e grandiosa, ganhou novas dúvidas com as transformações tecnológicas e a imersão nas telas para a qual fomos todos empurrados após o início da pandemia. O papel das famílias e as oportunidades e desafios que o ambiente digital proporciona são algumas das perguntas a serem respondidas. Pesquisas mostram que o entusiasmo dos pais e mães apenas com as possibilidades de conexão, aprendizado e entretenimento pode negligenciar ou adiar reflexões sobre as ameaças que acompanham as crianças quando mais expostas ao mundo digital. Por outro lado, indicam também que famílias que têm uma preocupação excessiva com proteção e segurança muitas vezes limitam as experiências das crianças no mundo digital. Ou seja, uma relação pautada pela confiança, diálogo e informação entre pais, mães, filhos e tecnologias digitais deve ser um objetivo para uma relação equilibrada com as telas.

O desafio das famílias é grande e ninguém sabe como sairemos do isolamento social e como será nossa relação com o mundo digital depois dele. A maioria das crianças e adolescentes está vivendo um enorme salto com acesso a muitas experiências novas na internet, desenvolvendo habilidades muito ricas, mas também expostos a uma gama maior de ameaças. É fundamental agir para que essas experiências se traduzam em ganhos reais e não impliquem em danos a sua saúde e bem-estar. Como em outros aspectos da vida de crianças e adolescentes, as famílias não podem ser vistas como as únicas responsáveis pela educação de pessoas saudáveis e éticas. Mais do que nunca, empresas e plataformas de tecnologia e o Estado devem se conscientizar e empenhar meios para que toda criança e adolescente possa crescer de forma segura, criativa e com seus direitos garantidos.

Para contribuir com esse debate, o Instituto Alana, com o apoio do Nic.Br, Safernet e do portal Lunetas, está realizando o evento “Ser Criança no Mundo Digital – série de conversas online”. Os diálogos serão transmitidos pelo Instituto Alana no link sercrianca.alana.org.br. A estreia da série de conversas foi no dia 26 de junho, e os encontros seguintes serão nos dias 3, 17 e 24 de julho e 7 e 14 de agosto. Fica o convite para essa reflexão conjunta.

Há muito se fala que é preciso de uma aldeia inteira para educar uma criança. Aldeia remete a partilha, a divisão de papéis, de responsabilidades, de dores e delícias. No mundo digital, os benefícios da responsabilidade compartilhada não serão apenas das crianças, mas de toda a família e sociedade.

Diana Silva é psicóloga formada pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e especialista em ecologia, arte e sustentabilidade pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). Integra a equipe de educação do Instituto Alana, onde desenvolve pesquisas no campo da infância, educação e tecnologia.

Maria Isabel Amando de Barros é engenheira florestal e mestre em conservação de ecossistemas pela Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo). É cofundadora da Outward Bound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

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