Foto: Amanda Perobelli/Reuters

A angústia da permanência em tempos de confinamento


Deslocados da nossa vida usual, daquele cotidiano afundado em burocracias que desencorajam a reflexão sobre seu próprio sentido, nos vemos face a face à presença quase insuportável de nós mesmos e da fragilidade que nos compõe

Em confinamento, uma lembrança: há um ano, a Catedral de Notre-Dame, em Paris, era atingida por um incêndio. Enquanto o fogo se espalhava por sua torre mais alta, o mundo se comovia, ao vivo, com a devastação do patrimônio e se mobilizava para reconstruir aquilo que as chamas ainda nem bem tinham cessado de consumir.

Na contramão da urgência, o filósofo Paul Preciado oferecia, no artigo “Notre-Dame das ruínas”, originalmente escrito em inglês, uma outra visão: “Ao amanhecer, a catedral, ainda em chamas, estava mais bela do que nunca. A nave aberta, coberta de cinzas, era um monumento iconoclástico à história cultural do Ocidente. [...] Por que aqueles que clamam pela reconstrução não esperaram nem um segundo para o luto?”

O ensaio, publicado no Artforum, entrelaça estética, ética e política, de maneira que apenas sua leitura integral pode lhe fazer jus. Ao defender a permanência das ruínas, o filósofo reflete não somente sobre aquele incêndio, mas sobre certas dinâmicas estruturais da modernidade que, se ali já eram reconhecíveis, hoje se fazem sentir com mais força no contexto da covid-19.

Transpor integralmente a premissa de Preciado à pandemia é impensável. Pois, naquele caso, o autor lidava com a destruição de um monumento; de importância colossal, mas um monumento. E extraía suas conclusões a partir do que Notre-Dame simboliza. Não estava, portanto, defendendo uma fetichização da morte, como se tivéssemos que nos deslumbrar passivamente com tragédias humanas. Qualquer analogia dessa ordem seria, obviamente, inapropriada.

Ainda assim, o artigo me serviu como ponto de partida para tentar pensar alguns aspectos que se manifestam no que estamos vivendo hoje. Em especial, naquilo que, tanto lá como cá, diz respeito à nossa relação com a dimensão existencial do tempo.

Quando se crê que uma catedral de quase 1.000 anos não pode incorporar, sequer por algumas horas, marcas de destruição — devendo se mostrar imutável, apesar dos séculos —, não parece implausível sugerir que, por trás dos clamores pela reconstrução instantânea, se escondia também um desconforto com a própria ação dos anos, dos séculos, dos acasos que nos dilaceram, na dose de realidade brutal que inevitavelmente implicam.

Os que propunham a reconstrução imediata, antes mesmo do fim das chamas, fantasiavam, à sua maneira, com a possibilidade de extrair do tempo o aspecto irreversível de alguns de seus efeitos e suas cicatrizes. E contornar, quem sabe, a nossa própria impotência diante dele.

Afinal, angústias desse tipo são intrínsecas à experiência humana. Contornar o fim, a morte, enterrando-a a sete palmos ou injetando significados redentores, é um dos esforços que cimentam a tradição ocidental. Não é difícil, porém, perceber como a modernidade faz da extinção da finitude uma obsessão insistente.

Formatados para consumir novidades instantâneas, somos constantemente incentivados a encontrar meios de esvaziar o tempo. Espelhando o funcionamento da natureza, das estações do ano, das órbitas dos planetas, compartimentamos a experiência moderna em ciclos cada vez mais curtos de reconstrução, pois vemos na circularidade a possibilidade de que nossas ruínas possam ser reerguidas (ou varridas) antes que tenhamos que encará-las.

Amadurecer significa também que, diante do imprevisível, temos a responsabilidade coletiva de pensar os próximos rumos

Seja nos videogames — quando nos é dada a chance de viver, morrer, reviver — ou no funcionamento das redes sociais, batalhamos para fazer com que o fim seja tão somente o momento que antecede um novo início. Os stories de Instagram implodem em 24 horas, à espera do próximo. E no mural, os posts jamais chegam ao fim; apenas se atualizam. Recomeçam, recomeçam. Na busca pelo imediato, tudo que remete à permanência — ou que nos lembre da impossibilidade de agir contra ela — é sentido como angústia.

Eis que um vírus — esse elemento externo, invisível e imprevisto — desafia não apenas nosso sistema de saúde, mas nosso funcionamento mental. Estamos, já há meses, obrigados a lidar com nossos escombros em caráter permanente, com nosso imobilismo em estado bruto: o confinamento forçado.

Deslocados da nossa vida usual, daquele cotidiano afundado em burocracias que desencorajam a reflexão sobre seu próprio sentido, nos vemos face a face à presença quase insuportável de nós mesmos e da fragilidade que nos compõe.

Os dias passam, mas, para os que podem levar o isolamento a sério, os cômodos das casas tornaram-se o espaço limite do ir e vir. Confinados, experimentamos o sentimento estranho de imobilidade e o sufocamento da possibilidade de reinício rápido. Quando sairemos de casa, afinal? Quando este ciclo angustiante termina? Onde estão as promessas de recomeço às quais nos acostumaram?

Quando o futuro é nebuloso como nunca, o horizonte da reconstrução ganha um obstáculo à altura. E numa inversão curiosa de peças, a desestabilização inédita e coletiva nos lança — também como nunca — à esfera que nos parece mais sólida: o passado. As TVs reprisam jogos de futebol, novelas e, no Facebook, amigos postam: “responda essa publicação com alguma memória que você tem de mim”.

Não à toa, também, as esperanças não raro se voltam para um mundo cuja novidade maior parece ser, paradoxalmente, um retorno a modos passados de convívio: será que teremos mais contato com a natureza? Será que conseguiremos frear a industrialização? O passado perdido, esvaziado de conteúdo, mas vivo como embalagem desesperada, nunca esteve tão na moda.

De um lado, o retorno a épocas anteriores. De outro, como segunda face de uma mesma moeda, o mergulho na virtualização. A falta de uma previsão de cura esgota o futuro e o confinamento insiste em eternizar um presente sufocante. E como saída, nos deslocamos para essa outra fachada de solidez e controle, esse segundo mundo que inventamos online e cujas regras escapam, sem disfarces, do regime do tempo. Avatares nunca morrem, apenas se refazem.

Nesse momento de desorientação, a especulação é resposta inevitável: seremos mais gentis, como juram nossas promessas sob a angústia de pandemia? Sairemos desconfiados, temerosos das ruas da cidade, seus acasos, seus imprevistos? Ou, mais uma vez, entrará em funcionamento nossa capacidade insistente de esquecimento e readaptação?

Entre pilhas de caixões a céu aberto, de velórios a distância, de lutos não-elaborados, amadurecer passa por reconhecer que nossa existência é, sim, pautada pelo acaso, pelo temor da destruição iminente, pela ação potencialmente cruel do tempo, pela fragilidade que nos faz humanos.

Mas amadurecer significa também que, diante do imprevisível, temos a responsabilidade coletiva de pensar os próximos rumos. E talvez reconhecer nos escombros a imagem dolorida de um espelho, que, se nos devolve fragilidade, também nos coloca em contato com as lições da história, com as consequências duradouras de nossas escolhas, de nossos acertos e, principalmente, de nossas barbáries.

Diante dos rastros de destruição de um vírus e de governos que se comportam criminosamente diante dele, enfrentamos agora, em vez de um incêndio, um terremoto. Só o tempo e nossos esforços dirão quais edifícios do mundo ainda seguirão de pé.

Felipe Poroger é cineasta, bacharel em filosofia e mestrando em arquitetura e urbanismo, ambos pela USP (Universidade de São Paulo). É diretor do Festival de Finos Filmes.

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