Foto: Willy Kurniawan/Reuters

Ação de empresas de tecnologia na pandemia é modelo para eleição


As medidas adotadas para conter a desinformação sobre o coronavírus mostram que as plataformas de redes sociais podem agir quando necessário, embora não o tenham feito de forma satisfatória durante o processo eleitoral

Eventos, comícios, debates, aquele famoso pastel na feira. Em períodos eleitorais, candidatos vão às ruas, pegam ônibus e fazem o impossível para mobilizar eleitores e ganhar votos. Ainda que campanhas digitais tenham um crescente papel na disputa eleitoral nos últimos anos, em sua maior parte, e para o maior número de candidatos, a campanha política acontece em outros meios — principalmente em pleitos municipais. Em tempos de pandemia, e com os candidatos impossibilitados de irem às ruas, as redes sociais serão o principal campo de batalha nas eleições de 2020.

A covid-19 é a primeira pandemia global da era digital. Ao contrário da Sars, H1N1 ou ebola, ela tem tido um impacto significativo em eleições ao redor do mundo. Pelo menos 50 países adiaram as eleições, sejam elas regionais ou nacionais, e é provável que muitos outros façam o mesmo nos próximos meses. Segundo o diretor geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, não é só com a epidemia do coronavírus que devemos nos preocupar: a infodemia — ou o compartilhamento em massa de notícias falsas sobre o vírus e como combatê-lo — é tão perigosa quanto o próprio vírus.

Plataformas como o Google, Facebook e Twitter terão um papel central em impedir a manipulação eleitoral em escala em um ambiente em que os eleitores consumirão informações e discutirão política principalmente por meio de redes sociais. Nos últimos anos, elas têm falhado em diversos aspectos. Plataformas como o Facebook tentam enfrentar o risco de interferência estrangeira desde a tentativa russa de influenciar as eleições americanas de 2016. O uso de bots no Twitter tem sido uma estratégia recorrente para manipular o discurso público ao redor do mundo. No Brasil, o envio massivo de mensagens de WhatsApp para espalhar notícias falsas e o uso do YouTube para aumentar a polarização política entre os eleitores tiveram um papel relevante nas eleições presidenciais de 2018.

As medidas tomadas pelas grandes empresas de tecnologia para reduzir a desinformação relacionada à covid-19 nos mostram que existe um caminho a seguir para prevenir a desinformação online durante as eleições

Esse é um problema global. Nas últimas eleições na Tunísia, nós, da Democracy Reporting International, identificamos páginas populares no Facebook que tinham um alto nível de engajamento. Essas páginas só começaram a se envolver com conteúdo político nos meses que antecederam as eleições. Apesar de se apresentarem como páginas de entretenimento ou satíricas, elas postaram e patrocinaram mensagens políticas com uma clara intenção de influenciar a decisão de voto dos eleitores. Essas páginas operavam em redes, compartilhando o conteúdo umas das outras e reforçando suas narrativas baseadas em notícias falsas, podendo operar sem qualquer limitação da plataforma.

Encontramos estratégias similares no Sri Lanka, onde páginas com conteúdo relacionado a fofocas e celebridades compartilharam conteúdo político enganoso, ou na Líbia, onde notícias sobre a possível candidatura de Saif al-Islam Gaddafi (filho de Muammar al-Gaddafi) nas eleições foram veiculadas por páginas sem afiliação política clara. Uma dessas páginas, administrada no Egito, ganhou mais de 100 mil seguidores em um mês, e seu conteúdo foi captado por vários veículos de notícias nacionais e internacionais, fazendo com que a manipulação no entorno digital chegasse a mais pessoas por meio da mídia tradicional. Essa estratégia é comum, e no Brasil não é diferente — vale lembrar como a notícia do “kit gay” durante as eleições de 2018 ganhou espaço nos maiores telejornais do país, levando muitos a acreditar que a narrativa era verdadeira.

Em vários dos países em que trabalhamos, as empresas de tecnologia não conseguiram satisfatoriamente resolver o problema da infodemia de notícias falsas. Com eleitores se engajando politicamente por meio de computadores e smartphones, o volume de dados e informações relacionadas às eleições e discussões políticas aumentará massivamente em 2020, assim como os danos causados pelas notícias falsas.

Nas últimas semanas, porém, a pandemia mostrou que as empresas de tecnologia têm a capacidade de intensificar seus esforços quando necessário. Recentemente, Facebook, Twitter e YouTube tiraram do ar postagens que poderiam causar danos à saúde da população, incluindo posts do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e do venezuelano Nicolás Maduro que incentivavam o fim do distanciamento social e apresentavam possíveis curas ainda sem comprovação científica. O WhatsApp limitou o encaminhamento de conteúdo para um grupo de cada vez, na tentativa de reduzir a viralidade de conteúdo falso sobre o vírus. Durante as eleições brasileiras de 2018, a empresa já havia reduzido esse limite de 250 para 20, e mais recentemente para cinco. O Twitter começou a rotular postagens que apresentem fotos ou vídeos manipulados, e o Google tem direcionado buscas para conteúdo confiável, além de tirar do ar vídeos conspiratórios sobre a doença no YouTube ou aplicativos no Google Play.

Todas essas ações mostram que as plataformas de redes sociais podem agir quando necessário, embora não o tenham feito de forma satisfatória durante as eleições. Os danos causados pela desinformação são claros e concretos durante uma crise de saúde pública — quanto mais se espalham notícias falsas, mais pessoas são sujeitas a informações que podem colocar suas vidas em risco. Mas não podemos ignorar os danos que elas causam à democracia. Informações falsas destinadas a minar a confiança nas eleições, ou usando mentiras para influenciar o voto, são igualmente nocivas à saúde das instituições democráticas.

As medidas tomadas pelas grandes empresas de tecnologia para reduzir a desinformação relacionada à covid-19 nos mostram que existe um caminho a seguir para prevenir a desinformação online durante as eleições de 2020. Se elas não agirem a tempo, é provável que o processo eleitoral seja a grande vítima da pandemia de desinformação.

Rafael Goldzweig é mestre em políticas públicas pela Hertie School of Governance, em Berlim, com bolsa do programa Helmut-Schmidt de políticas públicas e boa governança. É graduado em relações internacionais pela Universidade de São Paulo. Foi Policy Fellow do Google, e atualmente trabalha como coordenador de pesquisa na área de redes sociais, democracia e eleições na Democracy Reporting International.

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