Foto: Adriano Machado/Reuters

É hora de agir na educação, mesmo que de maneira remota


Os setores que creem que vamos recuperar as aulas depois e se agarram ao princípio da igualdade de acesso para defender que nada seja ofertado e registrado agora estão cometendo uma injustiça com os mais pobres

O necessário distanciamento social, em função da pandemia de coronavírus, fez com que se cancelassem as atividades escolares presenciais em praticamente todo o mundo. Nas salas de aula, o contato de estudantes e docentes é próximo, por isso a escola deve ser das últimas instituições a voltar a funcionar e das primeiras a suspender atividades no caso de nova onda da doença. A depender da duração do fechamento, a angústia de pais, estudantes e professores sobre a concretização do ano letivo aumenta no Brasil.

A educação vive um momento de incertezas e muito tem se debatido sobre o que fazer neste momento de emergência. Praticamente todos os estados, por meio dos Conselhos Estaduais de Educação, normatizaram a possibilidade de considerar atividades remotas no cumprimento do calendário escolar, mediante condicionantes como comprovação da realização das atividades, formulação, divulgação e acompanhamento de planejamento específico e registros da participação dos estudantes por meio de relatórios.

O ideal seria repor todas as atividades de maneira presencial, mas o tempo será inimigo. Concentrar tudo para depois pode significar sobrecarga de trabalho pedagógico para docentes e estudantes. Diante da possibilidade de considerar as atividades remotas, é importante elencarmos princípios e critérios para fazê-lo. Os princípios que entendo fundamentais são: 1) flexibilidade, 2) garantia do direito à educação, 3) foco em habilidades mais do que em conteúdos e 4) bom senso no que tange ao volume de atividades propostas. Ao detalhar os princípios na sequência, trato dos critérios.

1) Flexibilidade para redes, escolas e docentes avaliarem com autonomia o real alcance das medidas propostas em relação aos alunos. Isso deve ser orientador para o registro formal.

2) Garantia do direito à educação será avaliada pelo atingimento dos objetivos do planejamento, resguardada a possibilidade de realização das atividades no retorno para alunos que não conseguiram fazê-las. A demanda por reforço pedagógico será significativa, a avaliação diagnóstica será fundamental para ofertá-lo.

3) Focar em habilidades, ou seja, optar por atividades concernentes à experiência remota, que explorem criatividade e protagonismo discente, que tenham registro e feitura mais simples. Esse critério será fundamental para pensar a avaliação do processo.

4) O bom senso para que não confundamos as atividades remotas com as presenciais em termos de volume, densidade e complexidade. Distanciamento social é tempo atípico, crianças e jovens contam com contextos de apoio familiar distintos, as atividades escolares não podem representar estresse adicional.

Feitos esses apontamentos, gostaria de questionar a resistência de setores mais à esquerda do espectro político em relação a realização e registro de atividades remotas no período de afastamento social. Em nome da defesa dos que “não têm acesso”, adotam uma postura reativa que, a meu ver, é de quem não compreendeu a natureza do que estamos vivendo. O Estado, por meio das instituições, tem de tentar acessar os que não têm acesso, mesmo sabendo que não irá conseguir plenamente.

Os efeitos da crise da pandemia já existem e irão aumentar. Nosso desafio é minimizá-los o máximo possível. As desigualdades sociais e educacionais já existiam antes da pandemia e não iremos solucioná-las agora e nem no retorno às aulas. Nesse sentido, devemos ser propositivos e ofertar atividades nos mais diversos meios possíveis, respeitadas as especificidades das etapas e modalidades de ensino.

Os setores que creem que vamos recuperar as aulas depois (ou no ano que vem) e se agarram ao princípio (fundamental, mas ora abstrato) da igualdade de acesso para defender que nada seja ofertado e registrado agora estão cometendo uma injustiça com os mais pobres. Há pesquisas que demonstram que um período longo de inatividade escolar produz atrasos na aprendizagem, em especial para os mais vulneráveis.

Não podemos correr o risco de passar um recado negativo para a sociedade, qual seja: de que no momento de emergência, redes ou instituições não apontaram caminhos para minimizar os efeitos da crise

O principal erro que podemos cometer agora é nos iludirmos com a ideia de que vamos conseguir tratar todos de maneira igual. Há um equívoco conceitual conjugado a outro operacional aqui, quais sejam: mobilizar apenas o valor da igualdade e advogar pela inação das instituições. Temos de operar com o conceito da equidade também, propor atividades remotas tendo claro que iremos tratar diferentemente os diferentes (ferramentas e estratégias distintas, conforme os contextos). Discursos que evocam a justiça social, mas tergiversam para elaborar atividades, critérios para registro e justificam a inércia pedagógica, não me comovem.

É hora de não medir esforços, por isso elenco algumas propostas concretas. O adequado seria garantir acesso a computadores e internet nas escolas que os possuem, mesmo durante o afastamento social, mediante agendamento controlado e observando todos os cuidados sanitários. O poder público deveria levar materiais nas casas dos estudantes se for o caso; instituições que têm viaturas e recursos para uso do correio tinham de entregar ou enviar materiais impressos para os estudantes com dificuldades de acesso, na educação básica e na superior.

As instituições que têm condições para tal poderiam planejar atividades em que o docente daria sua aula na escola e ela seria transmitida e gravada. Todos estudantes que podem acompanhar (simultaneamente ou depois) de casa assim o fariam. Aqueles que não podem acessar de modo algum (quando forem minoria) viriam assistir às aulas ou os vídeos na escola, com vagas limitadas (três, cinco, oito alunos, a depender do espaço), com equipamentos de proteção, distanciados e atendendo aos protocolos de prevenção.

Evidentemente, o espírito sempre é tentar atender a todos, cientes de que não se conseguirá. Esses exemplos podem fazer mais sentido para determinadas realidades, as aulas abarcariam uma porcentagem pequena da carga-horária regular e não ocorreriam todos os dias. Algo nessa linha também pode ser pensado para um período de transição para o retorno das atividades presenciais.

É fundamental que a escola chegue de alguma forma no estudante em tempos de emergência. Obviamente, cada rede e estabelecimento de ensino deve analisar as ações viáveis para as distintas etapas e níveis, assim como as diferentes modalidades educacionais devem ter consideradas suas idiossincrasias.

Não proponho, em nenhuma hipótese, a substituição total das aulas presenciais por EAD. Apenas chamo a atenção para o fato de que, se não pensarmos em alternativas para ofertar e registrar um percentual de carga-horária, conforme se expanda o tempo do afastamento social (possivelmente intermitente), serão prejudicados justamente os docentes com mais aulas e mais alunos. Além de terem que cumprir presencialmente o calendário no retorno, estarão envoltos em atividades de recuperação, inclusive de forma remota em alguns casos.

Deixar para que cada professor faça informalmente contato e combinados com estudantes de forma isolada também não é a melhor opção; as soluções na educação são coletivas. Não podemos correr o risco de passar um recado negativo para a sociedade, qual seja: de que no momento de emergência, redes ou instituições não apontaram caminhos para minimizar os efeitos da crise no que tange ao aprendizado.

Ciente de que vivemos um momento excepcional, o Conselho Nacional de Educação, felizmente, publicou o Parecer 05/2020 na linha da flexibilidade, do incentivo à criatividade e à propositividade. O fato de não termos respostas para o que fazer na educação neste momento não nos autoriza a nada fazer. Não iremos realizar tudo que desejamos e planejamos, mas é tempo de agir.

Gregório Durlo Grisa é professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, mestre e doutor em educação pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

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