Foto: Reprodução/REUTERS - 31/01/2022

Ucrânia e Rússia: uma guerra também por recursos energéticos


As razões que levaram Moscou a reivindicar militarmente posições em seu ‘estrangeiro próximo’ obedeceram alguns motivos, entre eles a questão da energia

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Nosso intuito neste artigo é apenas dar subsídio ao debate sobre a atual guerra europeia entre Rússia e Ucrânia. De modo algum faz parte de nosso objetivo apontar conclusões para essa questão tão premente que perturba o sistema internacional como poucas vezes houve no passado recente. Podemos dizer que desde a Segunda Guerra Mundial não havia dramatização tão larga nos relacionamentos internacionais por conta de enfrentamentos bélicos. As razões que levaram Moscou a reivindicar militarmente posições em seu “estrangeiro próximo” devem obedecer a alguns motivos. Vamos nos prender somente a um deles.

Em livro que traz coloração clássica, “O petróleo”, Daniel Yergin escreve que o mundo dessa matéria-prima é composto por 90% de política e apenas 10% de economia. Além disso, digamos também que o setor de energia guarda grande interesse geopolítico na medida em que não há economia internacional, regular e estável, sem recursos energéticos. A literatura sobre o tema é bem sortida na indicação de textos em que se estuda a forma como os Estados territoriais (assim usamos em geopolítica) se transformam em grandes potências em virtude, entre outras coisas, do acesso garantido ou reforçado a suprimentos energéticos, domésticos ou adquiridos no exterior por meio de cooperação ou intervenções militares.

É fato que a ascensão de uma potência no sistema internacional não depende unicamente de uma razão. A energia é elemento que, ao ser bem utilizada, contribui para a transformação político-econômica, angariando aquilo que denominamos segurança energética, cuja realização é integrada aos instrumentos de consecução dos governos: liberais ou intervencionistas, de livre-mercado ou protecionistas. São meios não obrigatoriamente contrários, pois o que conta é o emprego do planejamento estratégico para não deixar que a falta de energia promova a instabilidade político-econômica do próprio Estado.

A atual guerra também guarda interesses energéticos porque a preeminência energética russa acende sinal de alerta, pois indica dependência, assimétrica, entre quem compra e quem vende

Em linhas gerais, a transformação da Grã-Bretanha em potência mundial no século 19 se deu por seu acesso às reservas domésticas de carvão mineral, insumo pouco volumoso naquela época para os concorrentes da Europa continental. Na mesma seara de argumento é o que podemos dizer dos Estados Unidos no século 20, com o advento do petróleo em grande quantidade em sua costa leste e no Texas, insumo que não fora encontrado massivamente na Europa, com exceção do Império Russo que possuía jazidas, entre outros, no Azerbaijão.

Essas reflexões ainda guardam validade, apesar dos progressos técnicos para poupança de combustíveis, bem como para criação de produtos mais eficientes no balanço energético. Esforços para “descarbonizar” a economia internacional não podem ser atribuídos às iniciativas atuais da União Europeia. Por motivos mais ligados ao realismo político ou à prudência aplicada nos negócios internacionais, os países industrializados mais ricos já haviam percebido a importância de se diminuir a dependência do petróleo importado de áreas politicamente instáveis e de abalada confiabilidade, em função de disputas de todo tipo, caso do Oriente Médio ampliado, chegando ao Irã ou ao norte da África. Tal iniciativa dos países do hemisfério setentrional se avolumou devido às crises de energia de 1973 e 1979.

Em todo caso, não há dúvida de que a regularidade econômica que promoveu a União Europeia contou com energias da Rússia desde os anos 1994 e 2000, no processo de ampliação que fez com que a integração regional passasse de 15 para 27 países-membros. Naquela época, como calcula Phillipe Sébille-Lopez, no livro “Geopolíticas do petróleo”, Moscou exportava algo na casa de 18% do gás natural europeu; antes de março de 2022 a quantidade chegou a mais de 30%. Em compradores como a Áustria, o importado se aproximava a 40%.

Digamos que a atual guerra europeia também guarda interesses energéticos pelo motivo de que, para algumas elites político-econômicas, a preeminência energética russa acende sinal de alerta, pois indica dependência assimétrica entre quem compra e quem vende – dando certa vantagem à Rússia. Embora Moscou necessite muito dos recursos financeiros ocidentais, os russos podem diversificar, de curto a médio prazo, o envio de gás natural para outros grandes consumidores como China, Paquistão e Índia, cujas infraestruturas já se encontram prontas ou avançadas.

A mesma situação não é encontrada na Europa Ocidental que, para diminuir, com efeito, a dependência dos hidrocarbonetos russos, teria que construir gasodutos praticamente do zero para manter a conveniência do consumo ou importar energia dos Estados Unidos, do norte da África (com destaque para Argélia) ou trazê-la da Ásia Central (Azerbaijão). Há dois problemas nisso: sob o aspecto geopolítico, o Kremlin pode pressionar seus antigos domínios da Guerra Fria para que não exportem gás para o Ocidente, via Turquia; ou demonstrar força contra esta para não dar escoamento rumo ao Mediterrâneo. Em condições políticas normais, a Turquia é passagem relevante de gasodutos e navios petroleiros.

O segundo problema reside no ponto em que, mesmo que essas fontes produtoras aceitem a missão, terá de haver fortes adaptações e trabalhos extras para produzir mais energia em curto tempo. Eis uma tarefa bastante árdua, visto que isso demanda tempo próprio que não se prende obrigatoriamente às necessidades e carências energéticas da Europa Ocidental, mas sim às condições técnicas do exportador. O Velho Continente estava habituado a utilizar gás natural russo em grandes quantidades e valores convenientes. Facilidades que podem acabar.

Outro impasse é que, atualmente, os Estados Unidos são superavitários em hidrocarbonetos a ponto de serem exportadores desses bens. A autossuficiência energética americana impulsiona Washington a buscar novos mercados onde ele pode ser mais bem aplicado, com gás natural. Por isso, à primeira vista, o mercado europeu ocidental é estimado para isso. A grande questão desse intuito americano é a logística que não dá conta de tal intenção. Caso a União Europeia aprove o “Plano B” haverá necessidade de construir mais navios especializados em transporte de gás; disso advém o emprego de usinas de transformação dessa energia em portos europeus, para que seja levada pelos dutos até os mercados consumidores. É bom frisar que essa estrutura não existe em bom número.

Resultado: haverá reajuste de tarifas em alto grau para que se dê conta dos custos adicionais por conta da importação de gás natural dos Estados Unidos, em virtude de poucos equipamentos à vista. Dentre pesados efeitos colaterais haverá encarecimento do custo de vida dos alimentos transportados e manufaturados por energia importada; a queda do nível de vida pode ser esperada, sobretudo para setores de menor renda dos países mais pobres da Europa.

A caminho da conclusão deste texto, em hipótese, podemos verificar que a guerra entre Rússia e Ucrânia pode ser interpretada como disputa energética por dois motivos: 1 – a dependência dos europeus aos russos acende sinal de alerta, pois contraria o ideário estratégicos dos Estados, ainda mais se nos aproximarmos da prudência realista do mundo diplomático; 2 – a iniciativa americana de buscar novos mercados consumidores para seu gás natural, excedente para os Estados Unidos. Nesse aspecto, embora seja controverso dizê-lo (e por que não, cruel), a guerra europeia traz certa conveniência, caso seus objetivos sejam realizados. Não nos limitamos a apontar tais realizações por parte da Rússia, que seria a de tomar partes da Ucrânia, fazer a “desnazificação” daquele país e blindá-lo perante a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Sublinhamos de igual modo as intenções ocidentais para dar cabo de suas angústias geopolíticas e estratégicas para dobrar a vontade russa de ser potência regional emergente. Por nossa conta e risco, talvez a energia seja a cartada para bancar esse grande jogo.

José Alexandre Altahyde Hage é professor do Departamento de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.