Foto: Amanda Perobelli/Reuters - 08.OUT.2020

Por que o jovem aprendiz beneficia empresas e sociedade


O primeiro emprego proporciona inclusão a jovens em situação de vulnerabilidade, além da oportunidade de desenvolvimento de competências sociais e emocionais

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Imagine receber um benefício do governo federal para criar uma próxima geração de colaboradores, trazendo energia e curiosidade genuínas para dentro da empresa.

Sem qualquer vício ou influência de cultura de outra experiência, este novo colaborador vem inserido em um programa de capacitação continuada, desenvolvendo as habilidades e competências necessárias para as funções requeridas em seu negócio.

Além disso, sem custo adicional, é suportado por uma rede de analistas de acompanhamento, assistentes sociais e psicólogas sociais, que interagem com o superior imediato do colaborador na empresa e com seus familiares, ajudando em seu crescimento pessoal, com suporte em sua formação como profissional e cidadão.

Pois todos esses benefícios estão contidos em políticas públicas de inclusão social refletidas no Programa de Aprendizagem Profissional, instituído pela Lei de Aprendizagem (Lei no 10.097/2.000, também conhecida como Lei do Jovem Aprendiz), e tem ajudado um número crescente de brasileiros de 14 a 24 anos de idade a ingressar no mundo do trabalho.

Em linhas gerais, essa política pública estabelece que empresas nacionais, de médio e grande porte, devem contratar jovens aprendizes em cotas que variam entre 5% e 15% do total do seu quadro de funcionários. O contrato de trabalho pode durar até dois anos, período no qual o jovem é capacitado por uma instituição formadora e pela empresa, combinando formação teórica e prática. O primeiro emprego proporciona inclusão a jovens em situação de vulnerabilidade, além da oportunidade de desenvolvimento de competências sociais e emocionais. Trata-se de uma ferramenta incrível, porém ainda não utilizada como poderia pelo setor privado.

Há um grande preconceito e muita desinformação sobre o assunto, resultando em números bem abaixo do contemplado pela lei. Infelizmente, muitas empresas ainda encaram o programa como uma obrigação, o que mostra a miopia dos empresários. Da mesma forma, diversas iniciativas surgem no Congresso buscando alterar os pilares da Lei da Aprendizagem, enfraquecendo o impacto dessa política de inclusão social já consolidada. Neste exato momento, está em discussão a criação do Estatuto da Aprendizagem, que já recebeu mais de 100 propostas de emendas parlamentares.

A socioaprendizagem é uma bela política de ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), integrada aos recursos humanos. De saída, impacta direta ou indiretamente cinco dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU: trabalho decente e crescimento econômico, redução das desigualdades, educação de qualidade, saúde e bem-estar e erradicação da pobreza.

Em 2021, foram contratados aproximadamente 470 mil jovens aprendizes no Brasil. Parece muito, mas estamos bem distantes do cumprimento pleno da cota. Levantamento realizado no mesmo ano pelo Ministério do Trabalho e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimou que, se o piso da cota da lei fosse cumprido, teríamos mais de 916 mil aprendizes trabalhando. Caso o teto – de 15% – da lei fosse cumprido, teríamos aproximadamente 3 milhões. São números bem distantes da nossa realidade atual.

O Espro (Ensino Social Profissionalizante), associação filantrópica que há mais de quarenta anos atua como entidade certificadora da aprendizagem, acaba de alcançar a marca histórica de 1 milhão de atendimentos sociais realizados como suporte ao desenvolvimento dos nossos aprendizes. Apenas para ilustrar, há 500 mil jovens no banco de talentos da instituição aguardando por uma oportunidade.

Durante a crise econômica, social e sanitária gerada pela pandemia, 50% das famílias dos jovens atendidos pelo Espro no último ano tiveram diminuição em sua renda. Muitos deles passaram a contribuir de forma parcial ou integral nas despesas de casa, tornando-se arrimos de família. O programa de aprendizagem foi determinante para o sustento de seus grupos familiares.

Em 20 anos, a Lei de Aprendizagem já ajudou mais de quatro milhões de jovens a conseguirem seu primeiro emprego, impactando positivamente não somente a eles, mas também suas famílias e comunidades. Entretanto, ainda precisamos de muito mais.

Alessandro Saade é superintendente do Espro (Ensino Social Profissionalizante)

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