Foto: Adriano Machado/Reuters - 16.fev.2022

A responsabilidade de quem compartilha fake news


A informação mentirosa pode acabar com reputações, democracias e vidas. Elas vão continuar chegando até nós, mas a decisão de fazer elas circularem é nossa

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As fake news já são velhas conhecidas do povo brasileiro, que mesmo assim insiste em propagá-las. Nas eleições de 2018, esse fenômeno negativo estava em alta e com um potencial de destruição nuclear. Na mira, o processo eleitoral e, claro, a urna eletrônica.

Acompanhei de perto a ação organizada e criminosa de grupos que dominaram os aplicativos de mensagens e as redes sociais com a intenção de acabar com a reputação de uma eleição informatizada (reconhecida internacionalmente), confundir a cabeça do brasileiro, e provocar o caos. Começou então uma verdadeira guerra entre a mentira e a verdade. No meio de tudo isso, a democracia. Ferida pelo excesso de inverdades infundadas, mas com suas bases firmadas em instituições sólidas que não desistiram e combateram as fake news com informação e muita conscientização.

As fake news não pararam e nem vão parar de existir. Mas hoje detemos conhecimento e sabemos que temos o poder de limitar a influência delas. Quem compartilha hoje uma fake news tem que ser responsabilizado triplamente, pois já se sabe de onde elas vêm e para que elas servem. Não se pode fechar os olhos e, por questões apenas ideológicas, passar para frente uma informação que não condiz com a verdade.

Quem foi alvo de uma fake news consegue entender o estrago que ela causa. Eu fui atacado por uma série de mentiras já desmentidas por agências de checagens e pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral. Mas não poderia ser diferente, afinal, sou um dos coautores da urna eletrônica brasileira e estive à frente de sua gestão por muitos anos, portanto me tornei alvo dessa estratégia criminosa de desestabilizar a credibilidade do processo eleitoral digital.

No meio da guerra entre a mentira e a verdade está a democracia. Ferida pelo excesso de inverdades infundadas, mas com suas bases firmadas em instituições sólidas que não desistiram

A urna sempre foi perseguida, injustamente, por grupos pontuais. Com a internet, e a possibilidade do anonimato, a oposição virou uma guerra desleal, covarde e cheia de mentiras apartadas da viabilidade e qualquer embasamento científico. Esse desserviço à sociedade, teve seus primeiros passos em 2018, quando uma avalanche de fake news tentou descredibilizar a urna. São 25 anos de história. Um longo caminho e sem nenhuma comprovação ou qualquer indício de fraude.

Mas ainda tem quem insista em acreditar em teorias da conspiração. Qual a dificuldade de reconhecer a história nesses últimos 30 anos, que evidenciou que a urna foi a melhor coisa para o processo eleitoral e tem um papel fundamental para a consolidação da democracia?

Infelizmente foi dada a largada para as fake news 2022. Ao invés do debate, da arena de ideias entre os políticos para que o eleitor forme sua convicção, temos novamente as fakes como verdadeiras influenciadoras (para o mal).

Compartilhar sem checar é um verdadeiro impropério, ou até mesmo crime. A informação, seja ela qual for, está posta na internet, não cabendo escusas por não ter como pesquisar direto da fonte. A informação mentirosa pode acabar com reputações, democracias e vidas. O poder de deixar as fake news prosperarem está nas nossas mãos. Elas vão continuar chegando até nós, mas a decisão de fazer elas circularem é nossa.

Podemos, e devemos, agir juntos na luta contra essa verdadeira pandemia de notícias falsas. A guerra que lá atrás parecia perdida só depende da decisão de cada um de não disseminar a notícia falsa e de conscientizar a todos que estão ao nosso redor. Pare de compartilhar fake news. Nós ganhamos e a democracia também.

Giuseppe Janino é matemático, analista de sistema, gestor em Tecnologia da Informação, secretário de TI do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por 15 anos, coautor do Projeto da Urna Eletrônica Brasileira, consultor em Eleições Digitais e Identificação Biométrica, autor do livro “O quinto ninja”.

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