Foto: Amanda Perobelli/Reuters - 21.dez.2021

A escalada da insegurança alimentar no mundo


Não existe uma única resposta ou solução, mas deve haver um compromisso humano e ético para exterminar a fome

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O Brasil atingiu um patamar recorde em insegurança alimentar em 2021, superando, pela primeira vez, a média global. A fome tem um alvo prioritário no país: ela afeta mais mulheres, famílias pobres e pessoas com idade entre 30 e 49 anos, um grupo etário que possui mais filhos. Estamos falando de uma geração de crianças com real risco de desnutrição, que têm o presente e o futuro comprometidos pela falta de alimentação adequada. De acordo com os dados da pesquisa Gallup, realizada em 160 países, a taxa de insegurança alimentar brasileira – que era de 17%, em 2014 – atingiu 36% no ano passado, sendo que a média mundial é 35%. As taxas elevadas de fome em solo nacional nos levaram ao nível dos países africanos. No mundo, o aumento abissal da desigualdade envergonha a humanidade e demanda soluções enérgicas, urgentes e sistêmicas.

Em um mundo que enfrenta constantes desafios alimentares, uma proposta consistente emerge da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) – órgão que tem alertado para a importância de fomentar uma visão de um mundo sustentável no qual todas as pessoas tenham segurança alimentar. Para tal, criou o Marco Estratégico da FAO 2022-2031, que potencializa a Agenda 2030, atrelada aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), da ONU. A proposta é apoiar a transformação para sistemas agroalimentares mais eficientes, inclusivos, resilientes e sustentáveis; a meta é alcançar uma melhor produção, melhor nutrição, melhor ambiente e uma vida melhor sem deixar ninguém para trás.

Na minha percepção, o Marco Estratégico da FAO potencializa a Agenda 2030 por alinhar ação e estratégia aos contextos e às mudanças de cenário que temos enfrentado nos últimos anos. Na prática, auxilia as sociedades a ter uma adaptação rápida e de forma sustentável às crises e ameaças climáticas, por exemplo. Ele também é inovador ao abarcar as novas tecnologias, incorporando-as à parte estratégica e orientando a tomada de decisões na busca pelas melhores soluções para atingirmos os ODS.

As quatro melhorias propostas no Marco Estratégico da FAO refletem as interconexões entre as dimensões econômica, social e ambiental dos sistemas agroalimentares e promovem uma abordagem bastante pragmática.

Em linhas gerais, a proposta abrange as dimensões: Melhor produção (garantia de padrões sustentáveis de consumo e produção por meio de cadeias de abastecimento alimentar e agrícola eficientes e inclusivas nos âmbitos local, regional e global, garantindo a resiliência e sustentabilidade dos sistemas agroalimentares sob condições climáticas e ambientais de mudança); Melhor nutrição (acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhorar a nutrição); Melhor ambiente (proteger, restaurar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres e marinhos, além de lutar contra as alterações climáticas); e Uma vida melhor (promover o crescimento econômico inclusivo, reduzindo as desigualdades entre áreas urbanas e rurais, países ricos e pobres, homens e mulheres).

O Brasil atingiu em 2021 um patamar recorde em insegurança alimentar, superando a média global pela primeira vez. A fome tem um alvo prioritário no país

Quando analiso essa articulação da FAO, enxergo muito do trabalho que a Gastromotiva e outras organizações da sociedade civil têm desenvolvido dentro do conceito de gastronomia social.

Na dimensão “melhor nutrição”, a Gastromotiva desenvolve programas de segurança alimentar, de acompanhamento nutricional e da promoção da educação nutricional e do consumo consciente. Em “uma vida melhor”, promove a inclusão social e produtiva de grupos vulneráveis que, além de receber uma alimentação digna, também passam a ter acesso a uma educação profissional de qualidade e oportunidade de ingressar no mercado de trabalho ou de empreender, gerando renda para si próprios e para suas comunidades.

No que tange à promoção de uma “produção melhor”, podemos citar o desenvolvimento local integrado das comunidades onde estão inseridas as Cozinhas Solidárias – que articulam com diversos atores desses territórios, entre eles lideranças comunitárias, em prol de ações que beneficiam a comunidade, tanto do ponto de vista social quanto econômico, e influenciam processos com a inserção de práticas mais sustentáveis.

Voltando ao início desta reflexão, a escalada da insegurança alimentar é um problema global, multifatorial e sistêmico. Não existe uma única resposta ou solução, mas deve haver um compromisso humano e ético para exterminá-la. E iniciativas como o novo Marco Estratégico da FAO vêm ao encontro desse compromisso. Parafraseando Caetano Veloso: “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

David Hertz é chef, cofundador da Gastromotiva, do Refettorio Gastromotiva e do Movimento de Gastronomia Social. Empreendedor social Ashoka, TED Senior Fellow, Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial e UN Food Systems Champion pela ONU.

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