Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Uma vacina contra argumentos e teorias antivacina


Técnica pode estabelecer um diálogo com a desinformação, aumentando a atenção e o interesse de pessoas céticas em saber mais sobre o assunto

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O desafio imediato do Brasil diante da covid-19 é lidar com a falta de planejamento e a desorganização do governo federal e conseguir, o quanto antes, mais vacinas para os brasileiros que querem se imunizar. Mas, assim que tivermos mais vacinas, a tarefa seguinte será convencer pessoas receosas ou resistentes a também se imunizarem contra a doença.

Há muitas razões pelas quais alguém resiste em se vacinar, deixando de proteger a si mesmo e às pessoas mais próximas, como familiares, amigos e colegas de trabalho. Entre elas, estão as fake news e as teorias da conspiração. Essas desinformações, em geral, usam dois enquadramentos: ou estimulam a desconfiança na ciência, causada por potenciais discordâncias metodológicas e incertezas sobre relações causais, ou criam narrativas conspiracionistas, sugerindo acordos entre governos e laboratórios e outros interesses de grupos poderosos.

O desafio que virá, portanto, será o de enfrentar a desinformação sobre a vacina com o uso de correções eficazes. Diversos estudos têm sido publicados em anos recentes sobre o efeito de algumas estratégias de correção. Trabalho recente traz uma sugestão muito precisa aos profissionais de comunicação, em geral, e de saúde, em particular, que terão de lidar com a correção de desinformações sobre vacina contra a covid-19: usem refutações balanceadas, também conhecidas pelo termo em inglês “two-sided refutational messages”. Esse tipo de refutação procura estabelecer um diálogo com a desinformação, aumentando a atenção e o interesse de pessoas céticas em saber mais sobre o assunto e, assim, expondo-as à informação correta.

As refutações balanceadas conseguem desconstruir teses fracas porque as substituem por argumentos melhores, cuja existência as pessoas poderiam até então desconhecer

Segundo o estudo, publicado em novembro de 2020 no prestigiado Journal of Health Communication, o uso dessa técnica produziu atitudes positivas em relação à vacina tríplice viral, quando se comparam os dados de participantes que leram as refutações com os de quem foi exposto à desinformação sem acesso ao contraditório. Cerca de 600 pessoas participaram da pesquisa, realizada nos Estados Unidos por Jieyu Ding Featherstone e Jingwen Zhang, do Departamento de Comunicação da Universidade da Califórnia em Davis.

Refutações balanceadas dizem algo assim: “Os ativistas antivacina nos encorajam a ser céticos. Eles perguntam coisas como: 'Devemos acreditar no que cientistas e profissionais de saúde falam sobre os benefícios das vacinas? Eles têm certeza sobre os dados acerca dos benefícios das vacinas?’ Aqui estão algumas evidências de que os cientistas e profissionais de saúde sabem o que estão dizendo [...] Pesquisas como [...] mostram que as vacinas são seguras e eficazes. Por exemplo [...]”. Os detalhes das refutações costumam variar, mas a estrutura é basicamente essa.

No contexto da covid-19, os achados de Featherstone e Zhang são promissores e ajudam a orientar o trabalho do jornalismo profissional, em especial das agências de checagem, que podem desconstruir didaticamente os argumentos enganadores — em vez de ignorá-los. Pesquisas anteriores sobre o tema não tinham, até aqui, encontrado evidências significativas do potencial dessa técnica de redação, o que dá ao artigo um caráter de novidade.

Um risco potencial no uso dessa técnica é que a menção ao conteúdo falso, ainda que desmentido, poderia levar algumas pessoas a convencer-se pelos argumentos que desinformam, no lugar de acreditarem na verdade. Mas esse efeito indesejado não foi observado no trabalho de Featherstone e Zhang. Muito pelo contrário. As refutações balanceadas conseguem desconstruir teses fracas porque as substituem por argumentos melhores, cuja existência as pessoas poderiam até então desconhecer. Quanto às teorias da conspiração, contestá-las explicitamente possui o condão de retirar-lhes o caráter secreto, uma vez que a omissão de determinados fatos e assuntos pela imprensa é estrategicamente usada por conspiracionistas como evidência de que “se não falam sobre isso, é porque querem esconder de nós”.

O contexto brasileiro de polarização exacerbada da opinião pública no que tange à covid-19, entretanto, impõe um desafio maior à desconstrução de desinformações, em comparação com esse estudo feito sobre a vacina tríplice viral nos Estados Unidos — um tema, então, não partidarizado. Em outubro de 2020, estudo realizado pelo Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública da Universidade de Brasília, com dados coletados pelo Ibpad (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados), revelou que a resistência a uma vacina da China é significativamente maior entre apoiadores do governo federal.

A mesma pesquisa, porém, mostrou que leitores de portais de notícia e de outros veículos do jornalismo profissional são mais bem informados sobre a pandemia. Além disso, leitores mais frequentes dessa mídia manifestam o dobro de chances de se vacinar e praticamente o triplo do nível de preocupação com a doença. Logo, é bastante plausível que o acesso a informações de qualidade esteja positivamente relacionado a atitudes pró-vacina também diante do novo coronavírus.

Para ampliarmos a imunidade da sociedade brasileira como um todo, no entanto, precisaremos ir além da audiência mais frequente do jornalismo profissional — como os leitores do Nexo — e estabelecer uma comunicação eficaz com grupos antivacina. Nesse diálogo com outras redes e bolhas, em vez de estigmatizar ou desrespeitar pessoas receosas ou reticentes com a vacina, utilizar as refutações balanceadas parece ser um convite mais pacífico e, ao mesmo tempo, persuasivo em tempos de polarização política e social. Tanto quanto muitos imunizantes, essa técnica se vale da inoculação do vírus atenuado. Numa alegoria quase perfeita, trata-se de uma vacina contra argumentos antivacina.

Wladimir Gramacho é professor adjunto da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e coordenador do Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública da instituição.

Max Stabile é doutorando em ciência política na Universidade de Brasília e diretor do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados.