Foto: Shannon Stapleton/Reuters - 20.mar.2021

#StopAsianHate: ser asiático no Brasil é como nos EUA?


No Brasil, o censo permite selecionar somente uma raça/cor e possui apenas uma categoria para referir-se a asiáticos, especificamente nativos e descendentes de leste-asiáticos: ‘amarelos’

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Após as falas controversas de Nise Yamaguchi ao longo da CPI da covid-19, comentários racistas emergiram, retomando a hashtag #StopAsianHate aqui no Brasil.

Inicialmente impulsionada depois de crimes de ódio cometidos nos Estados Unidos em março de 2021 e que resultaram na morte de oito pessoas (dentre elas, ao menos seis asiáticas), a hashtag também teve repercussão por aqui à época.

A partir dela, reiteramos: asiáticos não são “todos iguais”, nem nos EUA, nem no Brasil. “Piadas” e estereótipos assim reforçam uma suposta homogeneidade, invalidando sua identidade e individualidade. Ser chamado de “japa” ou de “china”, tendo seu nome ignorado, também é uma forma de violência – e não é a única.

No Brasil, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apenas reconhece a categoria "amarelos" para referir-se a asiáticos, especificamente nativos e descendentes de leste-asiáticos. Aqui, a maioria da população amarela tem origens, sobretudo (mas não somente), japonesa, chinesa, taiwanesa e coreana, em ordem decrescente de frequência, segundo a análise de De Oliveira e Masiero.

Contudo, movimentos asiáticos no Brasil, inspirados em debates da diáspora nos EUA, vêm abordando a necessidade de se considerar como também asiáticas as populações indianas, persas e de alguns países árabes. Em geral, estes poderiam ser da raça/cor asiática “marrom”, conceito que, atualmente, inexiste tanto no IBGE, quanto no censo estadunidense, e diferiria da categoria “pardo”. Mas é preciso considerar as semelhanças e diferenças entre as comunidades dos dois países.

Há, também, asiáticos brasileiros que se declaram ou são declarados pardos – e, às vezes, brancos , especialmente vindos de famílias inter-raciais ou multirraciais. Muitos também têm origens paraguaia e guarani (indígena), e ouvem comentários como “asiático do Paraguai”, em tom pejorativo.

Para saber como é ser asiático no Brasil agora, na pandemia, podemos ouvir as próprias pessoas asiáticas amarelas. Já para a pergunta generalizante do título, ser asiático no Brasil é como nos EUA?, a resposta é não.

Em primeiro lugar, nos EUA, há mais filipinos, tailandeses, indonésios e pessoas asiáticas de outras nacionalidades do que no Brasil. Tais comunidades existem aqui, mas são menores.

Essa “diversidade”, porém, nem sempre é representada positivamente pela mídia, uma vez que asiáticos de países ditos periféricos, em geral do sudeste da Ásia, costumam ter condições desumanas de migração trabalho e vida nos EUA, efeitos do colonialismo, imperialismo e capitalismo. Essas populações, frequentemente marginalizadas, acabam tendo estatísticas ainda piores de qualidade de vida no país se comparadas às comunidades japonesas, dadas as desigualdades estruturais às quais essas populações foram submetidas, para além de fenômenos históricos passados e atuais de exploração. Chineses também enfrentaram dificuldades distintas no país. Asiáticos de todas as origens e nacionalidades sofrem preconceito, porém algumas comunidades acabam tendo pior qualidade de vida.

Também sendo asiáticas, tais populações são somadas às demais coletividades asiáticas no país, fazendo com que as estatísticas do grupo, em geral, possam ser melhores ou piores para todos. Quando desagregados, porém, os dados revelam as particularidades de cada comunidade, além de demonstrarem que há gerações de asiáticos de certas origens e nacionalidades com condições socieconômicas melhores, em média. Assim, o "mito da minoria modelo", conceito usado por asiáticos dos EUA, é um mito absoluto, sobretudo se aplicado a todo o grupo no país.

Desde 1990, os censos estadunidenses utilizaram o conceito de "API" – agora "AAPI" (Asian Americans and Pacific Islanders), unindo asiáticos e pessoas das Ilhas do Pacífico em uma mesma categoria em estudos de densidade étnico-racial, educação, acesso a saneamento básico etc. Isto porque há pessoas asiáticas e não-asiáticas nas Ilhas, mas ambas vivenciam experiências socioeconômicas, culturais e leituras sociais semelhantes quando migram para os EUA. Ambas também são “People of Color”, conceito que vai além de características fenotípicas e de raça/cor e abarca pessoas não-brancas segundo o padrão estadunidense. Atualmente, o termo mais utilizado é BIPOC (Black, Indigenous and People of Color).

No Brasil, os asiáticos geralmente estão nas classes mais abastadas, segundo o IBGE, e não há a mesma intensidade de mão de obra asiática barata, migração quase ou completamente forçada e condições subumanas, como nos EUA. A “minoria modelo” segue sendo um mito também no Brasil, mas corresponde mais à realidade média do que nos EUA.

Nos EUA, após os ataques de março, foram divulgadas instituições que apoiam os asiáticos e lutam contra sua exploração. Já no Brasil ganharam espaço perfis que falam sobre estereótipos e fetichização

Todavia, imigrantes latino-americanos de países vizinhos, assim como africanos e outros assumem, aqui, funções semelhantes à experiência de asiáticos de certas comunidades nos EUA. Basta lembrar quando a esposa de um professor de Relações Internacionais, de origem filipina, foi "confundida" com uma "babá". Quando não são “confundidas” com babás, filipinas são “confundidas” com mulheres em situação de prostituição, revelando questões de gênero, raça, nacionalidade, classe e tráfico nos EUA.

Alguns têm se indagado, também, se Olivia Rodrigo, cantora estadunidense de origem filipina, seria branca. Uma resposta estadunidense certamente seria não. Uma resposta brasileira, sem saber de suas origens? Talvez. Mas o fato é que não é: Olivia Rodrigo reafirma sua ascendência filipina, não é branca, nem latina, e se seu nome e sobrenome fazem com que ela “pareça latina”, é somente porque as Filipinas foram exploradas e colonizadas pela Espanha.

Amarelos, no Brasil, sofrem não “apenas” com estereótipos e apelidos, mas também já foram, no passado, concentrados em campos e perseguidos, no caso de japoneses. Hoje, enfrentam estigmas associados à covid-19, tendo tido acesso restrito a elevadores e afins.

Mesmo assim, não é possível dizer que atualmente sofrem racismo de forma igual à população negra, em um nível que o racismo é o que ele mais sabe ser: estrutural, atingindo todas as esferas. Isso, contudo, não desmerece a dor e o sofrimento da população amarela no Brasil, nem descaracteriza certos crimes enquanto raciais. Também vale ressaltar que tal cenário é diferente para imigrantes asiáticos atuais.

Alegar que “asiático não se mistura”, seja com brancos, negros, indígenas e outros, além de racista e ofensivo, também não é verdade. Nos EUA, inclusive, a multirracialidade e a birracialidade são abarcadas até mesmo pelo censo: diferentemente do Brasil, onde a declaração via IBGE só permite uma opção ou outra, é possível declarar-se como pertencente a mais de uma raça/cor. Isso reflete uma diferença em como raça/cor, etnia e leitura social são vistas no país, mas não significa que “blasians” (afroasiáticos), como Kamala Harris, ou “wasians” (brancos asiáticos) inexistam aqui – inclusive com olhos claros, cabelos loiros, cabelos crespos, pele preta, mas que preservam outros traços fenotípicos asiáticos e conexão étnico-cultural. Vale lembrar que, no Japão e na diáspora, mesmo os uchinanchus de Okinawa e indígenas ainu costumam ter pele mais escura.

Em locais socialmente mais embranquecidos, argumenta-se que o colorismo, nos EUA, até pode beneficiar asiáticos com menos traços fenotípicos – mesmo no k-pop (pop sul-coreano), por vezes repleto de "whitewashing" (“branqueamento”), asiáticos e não-asiáticos, fãs e ídolos, podem ser racistas ou reproduzir racismo contra pessoas negras e asiáticas de pele mais escura, e/ou do sudeste asiático. Foi o caso de Lisa, integrante tailandesa do grupo Blackpink, vítima de ataques. Parece haver, no entretenimento, uma “preferência” (racista) a asiáticos mais claros e de países menos periféricos. Entretanto, no dia a dia, asiáticos de pele clara também sofrem e compõem as estatísticas estadunidenses.

O efeito da migração, de ser “o estrangeiro” (mesmo que seja nativo!) na diáspora e até no país da sua família, pode fazer com que milhares de diferenças étnicas e políticas entre asiáticos ou os una, ou os divida ainda mais. Pode haver profundos ressentimentos (como de chineses e coreanos com japoneses por crimes de guerra e estupros, a situação de etnias minoritárias na China, ou a luta de Okinawa frente ao imperialismo) que os afastem ou aproximem de um pertencimento a uma mesma raça/cor, na diáspora e além.

Finalmente, o “#StopAsianHate” também tem sido alvo de críticas. Alguns asiáticos têm se indagado o que, de fato, a hashtag oferece para mudar estruturas que afetam o grupo nos EUA, e principalmente, o que ela propõe, na prática, considerando a diferença socioeconômica dessa população no Brasil, principalmente quando não são imigrantes contemporâneos ou de primeira geração.

Se, nos EUA, depois dos ataques de março, diversos portais passaram a divulgar nomes de instituições que apoiam “AAPI” e lutam contra o racismo, machismo e sua exploração de mão de obra – associada à sua raça/cor, etnia, gênero, imigração etc , no Brasil, notou-se uma divulgação de perfis de amarelos em redes sociais que falam sobre suas dores e experiências com estereótipos, assim como a fetichização de mulheres, mas sem mencionar organizações do mesmo tipo (com recorte racial associado à classe e condição atual de imigração) e para o mesmo grupo por aqui. Isso porque elas não existem – o que, por si só, já revela que são experiências diferentes, e que pouco se fala sobre as gerações atuais de imigrantes asiáticos precarizados.

O que fazer, então, para não invalidar esse sofrimento, mas entendendo que são realidades socioeconômicas distintas, principalmente para algumas gerações e comunidades? Acredito que asiáticos e não-asiáticos possam atuar, juntos, em uma solidariedade antirracista contra as opressões que certos grupos vivenciam aqui – compartilhando conteúdo, observando privilégios, prejuízos, e evitando estereótipos -, principalmente considerando as desigualdades vitais (acesso à água, saúde, alimentação, educação) de populações ainda mais atingidas: ajudando organizações negras, indígenas, de acolhimento a mulheres em situação de vulnerablidade e instituições de apoio a refugiados e imigrantes contemporâneos, asiáticos como chineses, bengalis e mulheres filipinas - ou não, mas que terão assimetrias graves e determinantes trabalhando em situações análogas à escravidão, em exploração sexual e demais precarizações.

Thayla Bicalho Bertolozzi é mestranda em humanidades, direitos e outras legitimidades pela USP (Universidade de São Paulo), graduada em relações internacionais pela mesma instituição e pesquisadora assistente no Afro-Cebrap (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial).

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