Foto: Nacho Doce/Reuters - 27.fev.2011

Por que devemos fazer apologia ao ‘natureba’


Ao longo da história, ampliamos de forma extraordinária nossa capacidade de produzir alimentos, mas aumentamos, na mesma proporção, a quantidade de problemas associados aos sistemas agroalimentares

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Um ano após a publicação do artigo “Por que devemos parar de fazer apologia ao ‘natureba’”, a médica e bioquímica Alicia Kowaltowski volta ao mesmo assunto em sua coluna no Nexo com a crítica ao que chama de “natureba”, agora intitulada “O que são, e o que não são, os alimentos orgânicos”.

Os artigos se complementam e se fundamentam no argumento de que “não há nenhuma correlação entre a origem natural ou sintética de uma molécula e sua capacidade de ser perigosa ou benéfica para nós, humanos”. Entre os exemplos aparece a referência aos “produtos etiquetados como orgânicos”, percebidos pelo consumidor, erroneamente segundo Alicia, como sendo melhores – uma vez que “não há nenhum benefício à saúde na ingestão de alimentos orgânicos, fora o efeito psicológico de se associar com a causa natureba”. Após uma série de argumentos que questionam a agricultura orgânica, o primeiro artigo fecha com: “Chega de modismo natureba!”. No segundo artigo, comenta, especificamente, percepções errôneas sobre os alimentos orgânicos, afirmando que “ao desenvolver a agricultura e nutrição, deveríamos nos atentar a dados científicos sobre segurança alimentar, toxicidade, impacto ambiental e produtividade, e não ao foco central da agricultura orgânica, de quão naturais os produtos são”. Defende ainda que há “uma crença instintiva muito forte e quase religiosa na bondade das moléculas naturais e maldade de moléculas sintéticas”, fechando com “scientia vinces”, que pode ser traduzido como “com a ciência vencerás.”

Alicia Kowaltowski é médica e professora titular no Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo, na área de metabolismo energético. Os argumentos que levaram à condenação da agricultura orgânica, extensível à produção agrícola de base ecológica e da agroecologia, que ela chama de maneira pejorativa de “natureba”, foram construídos a partir da sua área específica de conhecimento: a realidade bioquímica do metabolismo celular, na qual os argumentos utilizados, com ressalvas, poderiam ser discutidos e parcialmente validados pelas ciências que se ocupam da análise de sistemas agrícolas.

Mas as ciências que se ocupam dos sistemas que se iniciam na produção agrícola e terminam com a transformação desta produção em alimentos, chamados de sistemas agroalimentares, não é a ciência do metabolismo energético. Simplesmente, não é possível descrever os sistemas agroalimentares de maneira completa, analítica e precisa a partir dos fundamentos da ciência do metabolismo celular.

Apesar da intenção em circunscrever sua análise aos efeitos das substâncias no metabolismo celular, a autora deriva conclusões sobre os sistemas agroalimentares que envolvem inúmeros processos que escapam à dimensão celular. A comparação feita entre um herbicida sintético, o glifosato, largamente utilizado na agricultura convencional, com uma molécula orgânica que pode ser extraída de uma planta, a nicotina, usada na produção agroecológica, é um bom exemplo. A análise apresentada é fundamentada na baixa toxicidade do glifosato quando comparada às moléculas da nicotina, mas deixa de observar aspectos importantes que se evidenciam apenas numa análise mais ampla, que vai além das moléculas em si.

A aplicação de agrotóxicos no Brasil opera em um ambiente de profunda desregulação e falta de monitoramento. O glifosato é utilizado regularmente em dezenas de milhares de hectares de lavouras todos os anos, ameaçando fragmentos de vegetação natural pela deriva (aplicação do produto em local não desejado) decorrente da pulverização aérea e terrestre, assim como as lavouras e comunidades vizinhas dos grandes imóveis rurais. Extratos de nicotina extraídos do fumo são utilizados em algumas centenas de hectares de cultivos orgânicos e agroecológicos, onde são aplicados manualmente. Escapam também à sua análise a utilização de substâncias não indicadas para determinadas culturas ou a influência dos lobbies da indústria química no afrouxamento da regulação dos agrotóxicos.

O ‘natureba’ perdurou e sustentou a humanidade durante 99,9% da história da agricultura. Nesses 99,9% do tempo, a produção de alimentos se sofisticou integrada à natureza

Não se trata de comparar a toxicidade de uma molécula natural (nicotina) a uma molécula sintética (glifosato), é preciso colocar estas duas moléculas dentro da perspectiva e contexto corretos, seu papel e relevância nos sistemas agroalimentares.

A produção agrícola baseada em insumos industriais, ganho de escala em monocultivos, erosão genética e na assimilação do conceito da linha de produção industrial na sua organização acarreta sérios problemas ligados à saúde humana, ao bem-estar animal e à degradação ambiental. Estas manifestações não irão aparecer na sua análise a partir do metabolismo celular.

Fazendo um deslocamento temporal, a agricultura surgiu há aproximadamente 12 mil anos. Ao longo de toda sua história, até a década de 1930, sua base foi ecológica. Em 1910, foi erguido o último pilar da agricultura que praticamos hoje, denominada Revolução Verde: a síntese de amônia pela reação de Haber-Bosch possibilitou a fabricação em larga escala de nitrogênio, permitindo a substituição do esterco animal como fonte principal desse nutriente essencial às plantas. Mas, ao contrário do que a sua denominação pode sugerir, a Revolução Verde não trouxe notícias boas para a relação entre a agricultura e o meio ambiente.

Aquilo que a autora envelopa como sendo “natureba” perdurou e sustentou a humanidade durante 99,9% da história da agricultura. Nesses 99,9% do tempo, a produção de alimentos se sofisticou integrada à natureza, aprimorada para tirar o máximo possível dos ciclos naturais dos nutrientes e da integração de diversas plantas cultivadas e criações animais. A preservação da natureza era essencial para prover os alimentos. Os sistemas de produção tradicionais, de base ecológica, supriam em torno de 70% dos alimentos consumidos pelos humanos, os 30% restantes eram extraídos da natureza. Ambos, a agricultura e o ambiente natural preservado e funcional, eram igualmente importantes. Os impactos desta agricultura nunca ameaçaram o equilíbrio climático global, a extinção em massa da biodiversidade, a disponibilidade de recursos hídricos, a contaminação do ambiente, ou, de forma direta, a saúde humana.

Nesta trajetória histórica, a quantidade de alimentos produzidos nem sempre foi suficiente, levando, em muitos eventos, à fome e à desnutrição. Este é o aspecto mais crítico que foi equacionado pela forma de produzir adotada a partir da década de 1930. O persistente problema da fome, contemporaneamente, está menos ligado à capacidade de produção e mais às desigualdades no acesso a alimentos.

A Revolução Verde mudou a lógica da relação com a natureza e simplificou o processo produtivo. Os ciclos naturais e os recursos que a natureza proporciona perderam importância. Ao invés de saber como produzir de forma integrada à natureza, o agricultor passou a se perguntar com o que produzir. A apropriação privada dos meios de produção é o centro propulsor dessa revolução, manifestado pela substituição dos saberes e das tradições pelas patentes.

Temos medo daquilo que comemos estar contaminado, de ter causado desmatamento, de ser resultado da crueldade com os animais e dos efeitos ambientais das tecnologias empregadas

A Revolução Verde, na sua lógica simples, traz o sistema de monocultivo de produção para um estado inicial sempre igual, a partir do qual ele vai se desenrolar, sempre da mesma forma, até um estado final. Para isto dar certo, é necessário um arsenal de interferências para suprir tudo o que a planta precisa: fertilizantes sintéticos de alta solubilidade, água via irrigação, agrotóxicos para combater pragas, herbicidas para controlar a competição com outras plantas, além dos genes inseridos nas plantas para modificar seu comportamento, conferindo-lhes resistência a herbicidas, doenças, pragas ou adaptação a restrições ambientais como secas ou acidez do solo. O arsenal precisa se tornar cada vez mais potente e diversificado. A natureza, excluída do sistema de produção, se adapta ao arsenal existente. Alguns irão sobreviver aos ataques, desenvolver resistência ou adaptação, exigindo uma interferência ainda mais poderosa e gerando, assim, um ciclo perverso.

Em apenas 100 anos, a Revolução Verde colocou os sistemas de produção agrícola no centro das principais ameaças globais para a humanidade. Mudanças Climáticas, perda de biodiversidade, escassez de recursos hídricos, desmatamento, poluição ambiental, doenças crônicas – a forma como produzimos alimentos ocupa papel central em todas estas discussões. Nunca tivemos tanto medo da agricultura. Temos medo daquilo que comemos estar contaminado, de ter causado desmatamento, de ser resultado da crueldade com os animais e dos efeitos ambientais das tecnologias empregadas. A Revolução Verde aumentou de forma extraordinária a capacidade de produzir alimentos, mas aumentou na mesma proporção a quantidade de problemas associados diretamente aos sistemas agroalimentares.

À ciência cabem as perguntas: qual foi o custo desta solução para o problema da quantidade de alimentos? Há alternativas para a ampliação da produção sem os impactos embutidos na Revolução Verde? O que poderíamos e deveríamos fazer de diferente para evitar que o aumento da produção resulte em tantos problemas? Como podemos produzir mais e melhor em vez de otimizar principalmente o "produzir mais"?

Mais do que uma vitória da ciência, a Revolução Verde representou uma vitória da visão predominante do mercado.

Quando os cientistas que se ocupam dos problemas causados por esta “vitória” alertam para os riscos da forma como produzimos alimentos, procurando achar meios para que os sistemas agroalimentares se reaproximem da natureza ao invés de destruí-la, eles estão sendo coerentes, lógicos e analíticos. Não são movidos por “crenças instintivas muito fortes e quase religiosas.”

Quando o mercado busca alternativas criando certificação, como a orgânica, boas práticas agroecológicas ou outras, também não há uma “crença” atuando ou uma tentativa de enganar o consumidor. Nestas manifestações há uma busca por alternativas ao sistema predominante associado a tantos impactos negativos.

Quando uma análise fundamentada em uma área específica do conhecimento é transposta a um outro campo, de maneira apressada e debochada, corre o risco de se transformar em opinião e alimentar controvérsias desnecessárias. Estas falsas controvérsias têm se constituído como enorme obstáculo, científico e político, a pesquisadores que vêm buscando soluções para alguns dos principais problemas que ameaçam o equilíbrio natural do planeta e a saúde e bem-estar dos humanos. Alicia tem razão: “scientia vinces”. Com ajuda da ciência venceremos, não só nossos problemas mais urgentes, mas também as falsas controvérsias.

Gerd Sparovek é professor e pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ligada à Universidade de São Paulo. É especialista em análise de políticas públicas e suporte à decisão em desenvolvimento rural e meio ambiente. Neste ensaio, é responsável pela argumentação técnica e científica, redação inicial e revisão final.

Andre Degenszajn é diretor-presidente do Instituto Ibirapitanga. Neste ensaio, é responsável pela motivação do texto, revisão de narrativa e conteúdo e revisão final.

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