Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Para salvar vidas é preciso aceitar o impeachment


É um autoengano imaginar que o foco no combate à pandemia e a instauração de um processo de afastamento do presidente são opções excludentes

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte de nossos conteúdos são exclusivos para assinantes, mas esta seção é de acesso livre sempre. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

“Esse tema [impeachment de Bolsonaro] de forma inevitável será discutido pela Casa [Congresso] no futuro. Temos de focar no principal, que agora é salvar o maior número de vidas”. Essa declaração de Rodrigo Maia, de 15 de janeiro, reflete o senso comum que vemos repetido dentro e fora dos jornais.

A ideia é que já há bagunça demais e que, portanto, devemos manter o foco na luta contra a pandemia e não arrumar outra encrenca instaurando um processo de impeachment.

Não há quem discorde que esse é o momento de o governo federal dirigir toda sua energia para a vacinação da população, o que inclui a compra e distribuição das vacinas para os estados, o acompanhamento e coordenação do processo e uma campanha ampla para estimular a adesão dos cidadãos.

Entretanto, seja por ação, seja por omissão, este governo, assim como trabalhou contra a adesão da população ao isolamento social e ao uso de máscaras, tem não apenas falhado sistematicamente em coordenar o suprimento hospitalar para atender os brasileiros internados por covid-19 (a falta de oxigênio em Manaus é o exemplo mais cruel, mas não o único), como também tem sido incapaz de organizar a compra de vacinas (com o Itamaraty imobilizado por um chanceler ineficiente, para dizer o mínimo) e coordenar o processo de vacinação com os estados e municípios.

O processo de controle da pandemia continuará a ser tumultuado e ineficiente enquanto o maior gerador de tumulto estiver no cargo de presidente da República

Uma vez que vacinas eficazes contra o novo coronavírus foram desenvolvidas, o escritor e biólogo Fernando Reinach afirma em artigo recente que, daqui para frente, “a quantidade de sofrimento vai depender de três fatores”.

O primeiro é a produção da quantidade suficiente de vacinas. No Brasil isso significa acompanhar a montagem das fábricas da Fundação Oswaldo Cruz e do Instituto Butantan e, até lá, conseguir comprar vacinas no exterior. O segundo fator é “a capacidade dos sistemas de saúde de distribuir rapidamente as vacinas pelo país e garantir que a adesão da população seja alta”. O terceiro, monitoramento e substituição das vacinas que deixarem de ser eficazes às novas cepas, o que deverá ser feito pelos laboratórios que desenvolveram as vacinas atuais.

O fator cuja responsabilidade recai sobre o governo federal é o segundo. Do meu ponto de vista, quem acredita que Bolsonaro agora entendeu a importância da vacinação e, portanto, terá capacidade de distribuir rapidamente imunizantes pelo país e garantir que a adesão da população seja alta, está interpretando a realidade brasileira baseado em fatos estranhos aos ocorridos no ano passado.

O processo de controle da pandemia continuará a ser tumultuado, errático e, portanto, ineficiente enquanto o maior gerador de tumulto estiver no cargo de presidente da República. É um autoengano, fatal para muitos brasileiros, imaginar que o foco no salvamento de vidas e a instauração de um processo impeachment são opções excludentes. Acreditar que algum dia Bolsonaro irá se transformar em um líder capaz de, ao menos, não desorganizar a trama complexa que é necessária para conduzir o processo de vacinação e o Brasil pós-pandemia é um desatino perigoso para mulheres e homens responsáveis pelo futuro do Brasil.

O combate ao novo coronavírus não terminará em três ou seis meses, lutaremos contra ele ainda por muito mais tempo. Quanto antes o processo de impeachment for aceito pela Câmara dos Deputados, mais rapidamente conseguiremos tirar da frente a fonte de barulho e dispersão que nos impede de trabalhar com foco no que interessa: salvar vidas.

Existe na legislação brasileira a figura do “estado de necessidade”, segundo a qual, à semelhança da legítima defesa, é aceitável o dano a algum bem ou direito para proteger outro cujo sacrifício não seja razoável exigir. Diante da necessidade de salvar vidas (o maior bem de todos), os direitos políticos de um indivíduo seriam bens menores.

Analistas políticos dizem que não há condições para o impeachment nesse momento. Penso que essas condições dependem, também, de atitudes que cada um de nós toma para que tal aconteça. Somos todos responsáveis.

Precisamos iniciar o processo de impeachment para salvar vidas.

Beatriz Bracher é escritora, autora de “Antonio” e “Anatomia do paraíso”.

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.