Foto: Pilar Olivares/Reuters - 1.out.2020

Os desafios que a geração coronavírus precisará enfrentar


Vários estudos internacionais mostram que nascer e crescer em situação de estresse prolongado na família pode trazer vários problemas no longo prazo

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Já faz mais de um ano que a pandemia chegou no Brasil. Desde então, todos os brasileiros ficaram mais estressados, com medo de serem contaminados e sem saber como e quando tudo isso vai acabar. Muitos perderam parentes e amigos. Os que têm filhos tentam garantir seu aprendizado, mesmo com escolas fechadas e professores distantes.

Várias perguntas surgem naturalmente nesse período. Como as crianças estão sendo afetadas pela pandemia? Quais serão as consequências de longo prazo da pandemia para a geração coronavírus? Quão desigual será essa geração? Que políticas públicas poderão atenuar os efeitos da pandemia?

As crianças que nasceram e estão se desenvolvendo durante a pandemia são as que mais sentirão seus efeitos ao longo da vida, se nada for feito. Isso ocorre porque o cérebro ainda está em formação nos primeiros anos de vida e o desenvolvimento cerebral depende da interação saudável das crianças com as pessoas que as cercam, especialmente seus familiares e cuidadores. Se a situação no ambiente em que as crianças vivem não está boa, muitas não terão um desenvolvimento satisfatório. E a situação na maior parte das famílias brasileiras não está nada boa.

Vários estudos internacionais mostram que nascer e crescer em situação de estresse prolongado na família pode trazer vários problemas no longo prazo. Mães que passam por situação de estresse durante a gestação têm maior probabilidade de parir crianças com peso menor e que tendem a desenvolver problemas de saúde mental na adolescência.

Estresse e pobreza durante a primeira infância podem fazer com que as crianças tenham desempenho escolar pior no futuro. Isso não significa que todas as crianças que nascerem durante a pandemia terão problemas, mas que a ocorrência de problemas tende a ser maior para elas.

A situação é bem mais grave para as famílias mais vulneráveis. Mesmo antes da pandemia, cerca de 2/3 das crianças negras moravam em famílias que tinham pelo menos um problema estrutural: eram pobres e não tinham acesso a programas de transferência de renda; não tinham saneamento básico; ou viviam em condições precárias, com muitos moradores na mesma casa ou em casas com construção precária.

A situação atual é praticamente a definição de estresse prolongado, que a ciência tem mostrado que tem efeitos negativos importantes para o desenvolvimento infantil e para o aprendizado no futuro

Agora, muitos dos pais menos qualificados perderam o emprego por conta da pandemia. E os que ainda estão empregados têm que ir trabalhar usando transporte coletivo, pois não podem trabalhar de casa, arriscando-se diariamente a contrair o vírus.

Se no ano passado a falta de emprego foi atenuada pelo auxílio emergencial, este ano começou muito pior com a suspensão do auxílio. Estimativas mostram que cerca de 16 milhões de pessoas estão na pobreza extrema, ou seja, não têm condições de comprar o suficiente para alimentarem sua família adequadamente.

Assim, a situação atual é praticamente a definição de estresse prolongado, que a ciência tem mostrado que tem efeitos negativos importantes para o desenvolvimento infantil e para o aprendizado no futuro.

Além disso, os efeitos sobre o aprendizado decorrente das escolas estarem fechadas por longos períodos serão grandes, especialmente para as crianças que estão na pré-escola ou no 1º ano do ensino fundamental, aprendendo a ler e a escrever. E essas perdas serão ainda maiores para as crianças mais pobres.

A tabela abaixo, por exemplo, usa dados da Pnad Covid (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios feita durante a pandemia pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para mostrar as diferenças na realização de atividades escolares para crianças de 6 anos de idade entre mães com diferentes níveis de escolaridade, baseadas em estudo recente que realizamos (“Efeitos da Pandemia na Primeira Infância”, de Vitor Cavalcante, Naercio Menezes Filho e Bruno Kawaoka Komatsu).

Tabela mostra dados referentes às atividades escolares feitas à distância, a partir do nível de escolaridade da mãe

A tabela mostra que 20% das filhas (ou filhos) de mães analfabetas não realizaram nenhuma atividade escolar à distância, ao passo que isso ocorreu com 9% das filhas de mães com ensino superior. Mais ainda, enquanto apenas 29% das filhas de mães analfabetas passaram mais de duas horas por dia nessas atividades, quase metade das filhas de mães com faculdade estudaram mais de 2 horas todos os dias.

A principal razão para essa diferença é a falta de acesso à internet. Os dados mostram que apenas 62% das crianças pobres têm acesso à internet, ao passo que entre os mais ricos quase todas as crianças têm internet de qualidade. Assim, uma parte significativa das crianças mais pobres não aprendeu a ler e a escrever na idade certa.

Quando a pandemia acabar, teremos que redesenhar políticas públicas para atenuar seus efeitos desastrosos nas crianças. No campo da educação, teremos que fazer com que as crianças pequenas fiquem na escola em tempo integral, para aprender o conteúdo de duas séries no mesmo ano.

Proponho que elas assistam aulas da 2ª série pela manhã e da 1ª série no período da tarde, junto com as crianças que estão entrando na escola. Isso fará com que o tamanho das turmas aumente, demandando um esforço maior por parte dos nossos professores para salvar a geração coronavírus enquanto elas não recuperam o aprendizado.

Além disso, os agentes comunitários de saúde terão que aumentar o número de visitas realizadas todos os meses para averiguar as condições e cuidados com a saúde de todos os membros do domicílio. E será necessário um cuidado especial com as crianças, para encaminhar aquelas com problemas de nutrição, desenvolvimento e até sofrendo violência doméstica para as unidades básicas de saúde.

No campo da assistência social será necessário aumentar o valor das transferências do Programa Bolsa Família para as famílias mais pobres com crianças, com valor diferenciado dependendo do custo de vida de cada estado.

Atualmente, muitas famílias que ficaram pobres não estão cadastradas para receber as transferências e o valor médio (R$ 200) é claramente insuficiente para promover o desenvolvimento adequado na primeira infância.

Teremos que usar o aplicativo desenvolvido para o pagamento do auxílio emergencial como o novo Cadastro Único, incorporando também as famílias que ficaram pobres durante a pandemia e que não terão condições de encontrar emprego tão cedo.

Em suma, quando a pandemia acabar teremos que reconstruir o Brasil.

Naercio Menezes Filho é professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, professor associado da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo e membro da Academia Brasileira de Ciências (email: naercioamf@insper.edu.br).

Sariana Fernandez colaborou com a tabela.

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