Foto: Yuka Obayashi/Reuters - 7.mar.2021

O que o Japão tem a nos ensinar sobre a crise elétrica


O setsuden, movimento iniciado após o desastre nuclear de Fukushima, incentivou a economia de energia por famílias e empresas. Seus efeitos são sentidos até hoje

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O consumo de energia do Japão diminuiu 8% entre 2011 e 2018, mesmo período em que a economia japonesa registrou a mesma taxa de crescimento. Por trás do fenômeno está o setsuden, que começou como um movimento civil para encorajar a população a conservar energia durante o verão imediatamente após o terrível acidente de Fukushima em 2011. A ideia era evitar blecautes e, combinado a medidas governamentais voltadas às empresas, o setsuden acabou se tornando uma referência global de enorme sucesso em eficiência energética.

Não foi por pouco: o desligamento da usina após o terremoto e o subsequente acidente nuclear exigiu esforços imediatos para o país lidar com a queda súbita de 5 gigawatts de capacidade. Mal comparando, foi algo como se um terço de Itaipu saísse do ar de um dia para o outro. Nesse processo, o setsuden mobilizou famílias e empresas a fazer esforços significativos para economizar eletricidade, mudando horários e datas de funcionamento, desligando luzes e limitando o uso de condicionadores de ar ou aquecimento elétrico em horários de pico. Até as famosas privadas elétricas japonesas foram tiradas da tomada.

É inegável que esse processo tenha sido facilitado pela tradição do país na área. A história de políticas de eficiência no Japão é relativamente antiga, tendo se iniciado ainda na década de 1980. Na época, o Energy Efficiency Act definiu padrões de desempenho energético e requisitos de gerenciamento para todos os setores. A implantação de boas práticas, como padrões de desempenho para a indústria e produtos finais (como veículos), e o estabelecimento de metas ambiciosas para o desempenho de novos edifícios garantiram as bases para o atual cenário.

Enquanto isso, no Brasil, estamos assistindo, nos últimos dias, notícias que pensávamos estarem distantes na memória. A crise hídrica está afetando a capacidade de armazenamento dos reservatórios de nossas usinas hidrelétricas e a produção de energia no país, a tal ponto que, vinte anos depois, o risco de racionamento voltou às manchetes. A situação só não é dramática por conta da atividade econômica ainda retraída devido à pandemia de covid-19.

O Brasil tem totais condições de enfrentar a atual crise com semelhante competência, garantindo inclusive os mesmos ganhos estruturais na área de eficiência energética

Nesse sentido, vale lembrar que a hidroeletricidade tem importante papel na geração de energia elétrica, representando mais de 60% da nossa capacidade instalada. Além da vantagem de ser renovável, boa parte desse parque gerador se destaca pela estocagem de água. Isso significa que nas épocas chuvosas guardamos água para garantir o abastecimento da estação seca seguinte.

O problema é que, já há algum tempo, esse regime não está mais funcionando como planejado, inclusive porque boa parte desse sistema de geração se encontra instalado nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, justamente onde se concentra a falta de chuvas.Períodos secos ou úmidos se sucedem ao longo das décadas, mas diversas pesquisas têm evidenciado que os efeitos dessa alternância têm sido ampliados pelas mudanças climáticas globais. Recente trabalho sobre o efeito dessas mudanças nas redes de distribuição de energia do Sul do Brasil, contratado pelo Banco Internacional de Desenvolvimento e em fase de publicação, constatou que a situação está exigindo novas formas de atuação por parte de empresas concessionárias, consumidores e dos órgãos de controle, planejamento e regulação. Para se ter uma ideia, em média, o vento derrubava uma ou duas torres de transmissão por ano nas últimas duas décadas; a partir de 2019, a média anual passou a ser de 18.

A atual crise combinada a esse tipo de evidência não dá muita margem de manobra: precisamos reduzir as emissões de gases de estufa para interromper ou pelo menos desacelerar as mudanças climáticas e seus efeitos críticos. Em termos de setor elétrico, não tem muito segredo: além da receita japonesa de um esforço estrutural em favor da eficiência energética, precisamos aproveitar nossas outras fontes renováveis, como a eólica e solar, para descarbonizar nossa matriz.

Não é isso que vemos, no entanto. Muito pelo contrário, temos uma verdadeira corrida para a contratação emergencial de geração de energia elétrica, praticamente só de origem fóssil. Resultados? Em curto prazo, aumentos dos custos dos consumidores, prejudicando ainda mais as famílias. E, em médio e longo, o aumento de emissões de gases de efeito estufa e seus inexoráveis efeitos, incluindo os observados nas reservas de água.

É urgente que invertamos essa lógica do absurdo. Além das fontes limpas, precisamos refletir sobre a importância e o papel de medidas de longo prazo de eficiência e conservação de energia, inclusive para além da situação conjuntural. Com uma estratégia integrada envolvendo órgãos responsáveis pela política energética e planejamento, indústria e sociedade como um todo, poderíamos migrar para um ambiente que combinasse esforços em favor da energia limpa e renovável e da racionalização do consumo de energia.

No Japão, o setsuden fez tanto sucesso que, mesmo após seu término, em 2015, os consumidores mantiveram os esforços para reduzir a demanda em geral e gerenciar o consumo de pico do sistema. O Brasil tem totais condições de enfrentar a atual crise com semelhante competência, garantindo inclusive os mesmos ganhos estruturais na área de eficiência energética. Mas é preciso empenho que vai muito além da mera contratação de capacidade de geração.

Anton Schwyter é consultor da Energia 9 Consultoria.

Clauber Leite é coordenador do Programa de Energia e Sustentabilidade do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).

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