Foto: Cathal McNaughton/Reuters - 8.jun.2014

O homem cordial e a ‘cultura do cancelamento’


O ato de cancelar alguém nos recoloca a velha roupa colorida da cordialidade e nos relembra que toda diferença é uma relação tensa, uma discussão esperando ser retomada

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Não faz tempo, a prática conhecida por “cancelamento” instaurou-se em nosso cotidiano sob a face dupla de um sintoma referente à extrema politização das mídias sociais e de um prazer secreto, um guilty pleasure, privado e autoindulgente. Mal ela apareceu, tanto o aspecto preocupante quanto o recompensador desta prática – que, talvez por falta de uma palavra melhor, resolvemos chamar de “cultura” – foram destacados por especialistas (ou não) do comportamento humano. Ao colecionarmos casos diários de “cancelados” e “canceladas”, com toda a carga dramática que costuma acompanhá-los, fomos compreendendo o fenômeno como a expressão combinada de inúmeras dificuldades enfrentadas no presente.

Uma delas tem a ver com a capacidade cada vez mais rarefeita de diálogo, em que a incomunicabilidade dos contrários reforça menos as verdades parciais de cada lado que a total inverdade do lado oposto. Outra dificuldade pode estar relacionada ao advento de um tempo “líquido” de interações mais fugazes, certezas menos consistentes e a necessidade urgente de satisfazer desejos via consumo, seja dos outros ou de si mesmo/a. São ponderações razoáveis, sem dúvida. Mas o exercício da imaginação histórica e sociológica por vezes tende a criar ressalvas quanto ao presentismo de tudo o que acontece à nossa volta. Com a “cultura do cancelamento” não é diferente, e embora ela seja alardeada e praticada como uma novidade, um rápido exame de seu funcionamento pode nos levar a reconhecer certos traços de personalidade que andam conosco há muito tempo.

\u0009Em 1936, o historiador Sérgio Buarque de Holanda escreveu sobre o homem cordial em Raízes do Brasil, um dos ensaios mais famosos sobre nossa formação social. Entendida como a nossa “contribuição” ao conjunto das civilizações humanas, a cordialidade seria aquela marca de nascença da brasilidade manifestada na fala repleta de “inhos” e “inhas”, no sorriso dado de bom grado (e muitas vezes cobrado) ao término da prestação de qualquer serviço e até no gestual afetuoso do rapaz que acha estranho cumprimentar mulheres com um aperto de mão. É o que nos deu a pecha internacional de povo amável e gentil “pela própria natureza”. No entanto, se isso nos parece simplesmente o cultivo de boas maneiras, Sérgio Buarque o vê com olhos bem menos inocentes. Para ele, essa forma de convívio seria “justamente o contrário da polidez”, atestando uma repulsa generalizada pela formalidade e pela impessoalidade que, conforme diz o jargão, regem uma vida social justa e transparente.

\u0009Para existir em sociedade, o homem cordial precisa fazer do público uma extensão do privado e estender a quem não conhece nem faz questão de conhecer uma “ética de fundo emotivo”. Ele precisa, em uma palavra, tornar tudo pessoal, caso contrário não conseguirá assegurar um falso controle sobre si mesmo e os outros. A cordialidade, tal como a concebe Sérgio Buarque, não vem do nada. Ela é fruto de nossa história de colônia, em que a família patriarcal atuava como unidade política e econômica, além de moral, e os interesses do senhor de engenho passavam a “interesse geral” sem maiores constrangimentos. Neste cenário onde o Estado nada mais é que a ampliação da família, tudo se resolve em casa e à revelia de instâncias mediadoras impessoais. As relações de trabalho se assentam na propriedade privada, no caso das pessoas escravizadas, ou no favor, no caso das livres; o estupro de mulheres negras é deturpado em nossa tendência “natural” à mistura, e o de mulheres brancas é salvaguardado pela santidade do casamento; e o racismo, a ferida narcísica de quem ainda se gaba de democracia racial, foi recalcado a ponto de ter virado uma neurose, como afirma Lélia Gonzalez, outra grande intérprete do Brasil.

O homem cordial teria sido o primeiro ‘cancelador’, e é bem provável que ele deva seu modo peculiar de agir à dinâmica da casa-grande e da senzala mais do que a qualquer outra dimensão

O mais importante a se destacar aqui é que, no regime da cordialidade, os conflitos nunca transparecem tampouco desaparecem: eles são domesticados. Vivendo sob o mesmo teto, as diferenças se amasiam, aprendendo a falar a mesma língua sem que seja necessário, ou mesmo permitido, conversar. Até porque assumir o conflito seria abrir caminho para dissidências e, consequentemente, pôr em risco o controle patriarcal. Submetendo as diferenças ao silêncio, o homem cordial teria sido o primeiro “cancelador”, e é bem provável que ele deva seu modo peculiar de agir à dinâmica habitacional da casa-grande e da senzala mais do que a qualquer outra dimensão da vida social brasileira.

Mas o que isso nos diz sobre a “cultura do cancelamento”? Se é possível afirmar que boa parte dessa sociedade não existe mais, o pavor em relação ao conflito e à diferença se mantém vivo a despeito dos elogios à “diversidade” vistos por aí. É por isso que o ato de cancelar alguém tem um sabor ambíguo, ao mesmo tempo abominável e familiar: ele nos recoloca a velha roupa colorida da cordialidade, da qual não conseguimos nos despir completamente, e nos relembra que toda diferença é uma relação tensa, uma discussão esperando ser retomada. Quem rompe o silêncio e perturba em nós o sentimento de controle sobre a diferença e de soberania face o social, essa entidade cuja força pode nos dobrar à triste condição de ser “mais um/a”, não merece sentar-se à mesa conosco. A unidade familiar não admite fissuras.

O “cancelamento” é um problema doméstico. Não por acaso os mais célebres deles envolvem as controvérsias da cantora Karol Conká na “casa mais vigiada do Brasil” ou a antropóloga Lilia Schwarcz se referindo à sala de jantar de Beyoncé. O espaço da intimidade, incongruente com a cidadania formal e com a igualdade, é projetado sob a forma de um desejo impertinente de manter as coisas como estão, mesmo que o ponto em questão seja a sua transformação. Isso fica ainda mais evidente quando assistimos, dia após dia, a um presidente sem partido falar, desde a intimidade do lar e ao lado dos filhos, a uma nação de cancelados/as pela pandemia da covid-19. De maneira insólita, a imagem do Estado como aparelhamento da família nuclear conecta 2021 à terra invadida pelas caravelas. Enquanto não pensarmos em formas de lidar com a diferença (racial, sexual, de gênero etc.) para além da lógica doméstica da cordialidade, o cancelamento não apenas se tornará banal entre nós, mas se transformará diante dos nossos narizes em prata da casa.

Rafael do Nascimento é mestre e doutorando em antropologia social pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Trabalha, desde 2013, com temas relacionados a relações de gênero, relações raciais, identidade nacional e música popular.