Foto: Adriano Machado/Reuters

O antirracismo dos brancos: ‘colorindo o incolor’


Pessoas brancas precisam criar espaços de reflexão para lidar com as angústias que a consciência da branquitude provoca, deixando de agir de maneira defensiva, envergonhada e reativa diante do racismo

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Nas manifestações antirracistas que ocorrem nas ruas e nas redes sociais é comum ouvirmos que a “elite branca” seria a responsável pelo racismo. Não se nega o fato de que existe um maior número de pessoas negras no grupo de baixa renda e um número majoritário de pessoas brancas no grupo mais rico do país, porém não é verdade que o racismo se justifique pela diferença de renda. No Brasil, racismo tem relação com cor e se revela em todos os espaços, assim como a branquidade – o conjunto de elementos que formam a identidade branca – e a branquitude – o conjunto de privilégios acessados pelos brancos que estão implicados na reprodução do racismo.

O período colonial foi um episódio que trouxe aos povos europeus e aos membros dos povos africanos que habitaram a América novas identidades: a de brancos e a de negros, criadas para distinguir quem realizava o trabalho escravo não remunerado de quem realizava o trabalho remunerado. Surgiram, assim, as bases da distinção entre esses grupos, mediada pelos privilégios. Privilégios esses que hoje são associados ao acesso a direitos fundamentais tais como à saúde, educação, trabalho, habitação, vida, segurança, liberdade religiosa e tantos outros.

Contudo, o racismo que vivemos não é apenas fruto do passado escravagista, de um racismo que existiu, mas, fundamentalmente, de um racismo que é prática corrente nos nossos dias. A estrutura de distribuição desigual de privilégios se mantém e o critério utilizado para isso, a distinção entre brancos e negros, também. Trata-se do racismo estrutural, que se manifesta por conflitos explícitos e violentos como o genocídio dos jovens negros, e, implicitamente, nos olhares, nas ausências, nas rejeições nos espaços de trabalho onde só existem brancos, no enjeitamento dos espaços privados de consumo, ao desconsiderarmos a importância da fala preta, ao minimizarmos as nocivas consequências do racismo às crianças, adolescentes, mulheres e homens negros brasileiros.

É justamente a negação do conflito racial que alimenta a dinâmica violenta. Ao não tratarmos desse conflito, não reduziremos as desigualdades

A identidade branca enraizada em nossa cultura ocidental caracteriza-se justamente pela tendência do branco a universalizar um padrão que tem si mesmo como referência. Como consequências disso, os brancos racializam o outro, mas não a si mesmos, ou seja, impõem cor e características específicas ao negro, mas enxergam a si mesmos como indivíduos sem cor e, claro, tomam a cor como um elemento pejorativo. Assim, acreditam que políticas, ciências, ações, análises “neutras” são justas. Isso não é nada cordial!

Indo além, o que ocorre é a invisibilização das características reais inerentes aos indivíduos do grupo racializado e, no lugar do invisível, são colocadas as características fantasiosas consideradas negativas pelos próprios brancos: os estereótipos. Quando não há consciência do conflito racial, é comum que as pessoas brancas projetem na pessoa negra esses estereótipos incorporados pela cultura, ignorando de maneira automática as características individuais da pessoa negra que está à sua frente. O resultado é a reação de repulsa, de agressividade, de desconforto e de angústia ou ainda uma necessidade compulsiva de ajudar alguém supostamente inferior. Da mesma forma, as pessoas negras inseridas nessa cultura que lhes é violenta também sentem angústia e sofrimento diante de pessoas brancas, das manobras institucionais e no convívio público, como pronunciam os protestos, campanhas e falas do movimento negro.

Os aspectos do conflito racial são silenciados ou dissimulados por expressões como “não há racismo, há preconceito por classe social”, “alma não tem cor, somos iguais independentemente da cor” ou “são eles que discriminam”. É justamente a negação desse conflito que alimenta a dinâmica violenta. Ao não tratarmos desse conflito, não reduziremos as desigualdades, pois uma estrutura de sociedade fundada na hierarquização entre os seres humanos contradiz a organização democrática.

Diferenças sim, desigualdade não. Promover a diversidade racial está longe de ser uma atividade voltada somente à tolerância às diferenças, como aspectos morais a serem desenvolvidos. É necessário desconstruir essa hierarquia ao redor da qual orbita a distribuição de privilégios. Para tanto, são importantes políticas afirmativas, mas é preciso ir além. Considerando que a eliminação da conduta discriminatória não se atinge somente pela aceitação racional de que ela não é justa, é obrigatória a criação de espaços de reflexão para que as pessoas brancas possam “colorir o incolor” e, assim, se conscientizar da implicação de suas condutas discriminatórias interpessoais e institucionais atuais na perpetuação do racismo. E possam ainda lidar com as angústias que o tema provoca, deixando de agir de maneira defensiva, envergonhada e reativa, buscando outras formas mais assertivas para atuar contra o racismo. Farão bem também aos seus, por uma sociedade menos violenta e livre da engessada sina onde só parece existir duas alternativas: pertencer aos privilegiados ou aos desprovidos de qualquer acesso aos direitos.

Maria Leticia Puglisi Munhoz é formada em direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É mestre e doutora em direitos humanos pela USP (Universidade de São Paulo) e psicanalista.