Foto: Chris Pizzello/Pool via REUTERS - 25.abr.2021

O Oscar de Chloé Zhao e as relações entre cinema e política


O feito da cineasta chinesa não está sendo festejado em seu país natal. E isso diz muito sobre a tensão ideológica entre China e Estados Unidos

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Quem acompanhou a cerimônia do Oscar 2021 talvez tenha, como eu, se emocionado com o discurso de Chloé Zhao. Ao receber o prêmio de melhor direção, Chloé, nascida em Pequim, disse que quando era criança costumava brincar de memorizar e recitar poemas clássicos chineses com seu pai. Ela, então, declamou o seguinte trecho, em mandarim: “as pessoas, ao nascer, são inerentemente boas”. A diretora explicou que aquelas palavras tiveram impacto enorme na sua formação e que ainda hoje acredita nelas. “Mesmo que às vezes pareça que o oposto é verdadeiro, eu sempre encontrei bondade em pessoas que conheci em todas as partes do mundo”.

Ao receber o prêmio, Chloé Zhao tornou-se a primeira pessoa chinesa a ganhar um Oscar, além de ser a segunda mulher — e a primeira não branca — a receber a honraria de melhor diretora. O grande feito, no entanto, não está sendo festejado na China. Por quê? Para entender isso, é importante dar um passo atrás e analisar as dinâmicas envolvidas nessa questão.

Desde 2016, a China tem o maior número de salas de cinema do mundo e, em 2020, o país tornou-se o maior mercado cinematográfico do planeta. Mesmo assim, há na China uma percepção de que existiria um deficit cultural no país: ele é o destino de muitas produções internacionais — filmes hollywoodianos, músicas coreanas, animes japoneses —, mas as criações chinesas ainda não conseguem ter grande visibilidade no exterior. Devido a isso, tem ocorrido um empenho por parte do governo chinês em fomentar iniciativas que aumentem a presença internacional da cultura chinesa. Ou, nas palavras de Xi Jinping, fazer com que as histórias da China sejam bem contadas, as vozes da China bem divulgadas e as características da China bem explicadas.

As iniciativas para aumentar a presença internacional e o soft power da China se dão em diversas frentes — por exemplo, a expansão dos Institutos Confúcio e a internacionalização dos veículos de mídia chineses —, mas, até pelo tamanho do mercado, o cinema tem sido o campo mais notável dessas ações. São principalmente três as estratégias para fortalecer e internacionalizar o cinema chinês: o investimento em coproduções internacionais, a compra de estúdios em Hollywood e de cadeias de cinema nos EUA, e a aposta da indústria cinematográfica chinesa em criar seus blockbusters globais que falem mandarim e que tenham seus próprios heróis chineses. Com algumas exceções — como “A Caminho da Lua” (2020), a primeira coprodução China-EUA a ser indicada a um Oscar —, a China ainda não conseguiu criar filmes que ressoassem na audiência global. Entende-se que uma das razões para isso é que os filmes ainda são “muito chineses”: existiria a necessidade de dialogar com uma cultura mais global, transmitindo a cultura chinesa de forma mais universalmente atraente. E é nesse ponto que a história envolvendo Chloé Zhao é tão interessante.

Chloé Zhao nasceu em Pequim em 1983. Seu pai era um alto empresário de uma das maiores companhias metalúrgicas da China. Sua mãe trabalhava em um hospital e fazia parte de uma trupe de apresentações de dança e canto do Exército de Libertação Popular. Chloé teve uma infância tranquila, ouvindo Michael Jackson, lendo mangás e assistindo a filmes do diretor Wong Kar-wai. Aos 15 anos, Chloé se mudou com os pais para a Inglaterra e, depois, para os EUA, onde concluiu o ensino médio. Anos mais tarde, estudou cinema na prestigiosa New York University.

Se uma das dificuldades dos filmes chineses com pretensões globais tem sido justamente ressoar nas audiências internacionais, talvez a experiência de Chloé pudesse ajudar nessa empreitada

A partir disso, a carreira de Chloé Zhao foi meteórica. “Songs My Brothers Taught Me” (2015), seu primeiro filme, concorreu a um dos prêmios principais de Cannes e “Domando o Destino” (2017), seu segundo longa, foi premiado no festival. Seu terceiro filme, “Nomadland” (2020), ganhou prêmios em festivais como BAFTA, Globo de Ouro, Veneza, além, claro, do Oscar.

Trata-se, sob qualquer perspectiva, de uma história exitosa, digna de celebração. E, de fato, até o Globo de Ouro, Chloé Zhao estava sendo bastante festejada na China.

As coisas mudaram quando alguns internautas resgataram uma entrevista de 2013 na qual Chloé dizia que a China era um local onde havia mentiras por toda parte. Desde então, ela foi sujeita a muitas críticas nas redes sociais chinesas, bem como a um blecaute de notícias imposto pelo governo chinês, o qual fez desaparecer qualquer traço de debates sobre o Oscar no país (quem saiu ganhando foi um idol chinês chamado Oscar, resultado apontado por todas as pesquisas pelo termo “Oscar” na rede social Weibo nos últimos dias).

Em editorial, o jornal chinês Global Times afirmou que a mudança de comportamento do público com relação à Chloé Zhao é compreensível: a China e os EUA estão atualmente em uma relação tensa, o que deixa também as duas sociedades mais sensíveis. E ainda exemplificou: “se uma celebridade estadunidense falasse mal dos EUA enquanto estivesse na China, o público estadunidense também não ficaria feliz”. O editorial aparentemente não está mais online, mas pode ser lido usando sites como o Wayback Machine.

Para além das preocupantes questões de censura, é difícil observar todo o caso e não ficar com uma sensação de oportunidade perdida. O editorial do Global Times destacava que o filme de Chloé Zhao era “tipicamente estadunidense, muito distante da realidade do povo chinês”; ao mesmo tempo, também reconhecia que “ganhar o Oscar significava que o filme sensibilizou a sociedade estadunidense”. Mas se uma das dificuldades dos filmes chineses com pretensões globais tem sido justamente ressoar nas audiências internacionais, talvez a experiência de Chloé pudesse ajudar nessa empreitada.

Se a ideia é fazer com que as histórias da China sejam contadas e as vozes da China ouvidas, ter uma cineasta chinesa no palco da maior premiação de cinema do mundo narrando suas próprias histórias não parece algo a se desperdiçar. Talvez a história de Chloé Zhao, com sua vivência multicultural e sua capacidade de tocar pessoas em outras partes do mundo, seja justamente a história a ser divulgada.

Paulo Menechelli é doutorando e mestre em relações internacionais pela Universidade de Brasília e bacharel em direito pela Universidade de São Paulo. É secretário geral do Centro de Estudos Globais (UnB), editor da Revista Mundorama e diretor da área de pesquisa da rede Observa China.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que Songs My Brother Taught Me havia ganhado prêmios no Festival de Cannes. Na verdade, o filme foi apenas indicado. Nomadland também não foi premiado em Cannes, mas em Veneza.

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