Foto: Victor Moriyama/Getty Images

Fio da ‘boiada’: o saldo da crise ambiental no Brasil


Tudo indica que a devastação continuará se agravando ao longo de 2021. Enquanto as tentativas de ‘frentes amplas’ desconsideram o tema, Bolsonaro sabe que a pauta é decisiva para a sua governabilidade

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O ano começou com a segunda onda da pandemia do novo coronavírus agravada pelo terrorismo sanitário do governo federal. Da falta de testagem em massa à postura antivacina, da promoção de remédios que não funcionam aos passeios quebrando o isolamento e à problematização do uso de máscaras, o ostensivo jogo do contra do governo Bolsonaro e seu fã-clube sobrecarregou o sistema de saúde, levou o número de vítimas da doença a ultrapassar a marca de 210 mil mortes e aprofundou a crise econômica, provocando altos índices de desemprego e crescimento da miséria no país.

Enquanto o caos da pandemia e da economia domina as manchetes e pauta nosso senso de urgência, a devastação socioambiental — embora em segundo plano na agenda pública — segue turbinada pela grilagem de terras, desmatamento descontrolado e queimadas recordes na Amazônia, Pantanal e Cerrado, somada à violência contra indígenas, quilombolas e lideranças camponesas. Nesse contexto, ligar os pontos entre conjuntura política, problemas estruturais e crises contemporâneas parece ser o verdadeiro desafio de quem busca soluções democráticas para o país. Pensando nisso, um grupo de comunicadores se reuniu para desenvolver a ferramenta Sinal de Fumaça, um monitor da crise socioambiental brasileira que sistematiza os acontecimentos em forma de linha do tempo, distribuídos por editorias que relacionam as notícias a políticas públicas, economia, ciência e racismo ambiental. A ideia é ajudar a sociedade a não perder o fio da “boiada”, como verbalizou o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na infame reunião ministerial de abril de 2020.

Quem usa a ferramenta para pesquisar sobre queimadas e desmatamento, por exemplo, encontra uma teia complexa de eventos que explicam como e por que o fogo que consumiu os principais biomas do país, gerando nuvens de fumaça nos céus do Sudeste e imagens dramáticas de animais queimados, foi recorde nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro. Os dados de alta de 81% na média anual de desmatamento da Amazônia em 2019 em comparação a 2016-2018 já indicavam que 2020 seria um ano de explosão de incêndios florestais. Isto porque, no ciclo da destruição florestal, quanto maior o desmatamento acumulado, maior o volume de queimadas no ano seguinte. De fato, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), foram registrados 222.788 focos de incêndios em 2020, 12% a mais que em 2019 e maior índice da década de 2010.

O acumulado do desmatamento e o desmonte das instituições socioambientais devem proporcionar mais uma temporada sinistra de incêndios florestais

A leitura das notícias em sequência cronológica expõe como a criminalização das ONGs (Organizações Não Governamentais), os cortes de orçamento público e o enfraquecimento do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e da Funai (Fundação Nacional do índio) compõem um plano sofisticado de aparelhamento e uso indevido dessas instituições para beneficiar grupos de interesse do governo. A relação entre a pandemia e os povos tradicionais também figura com destaque na linha do tempo, expondo como o descaso do Executivo com a saúde básica e a negação do direito à terra impactaram desproporcionalmente populações indígenas e quilombolas, que registraram número de casos de covid-19 acima da média nacional. Finalmente, entende-se por que, mesmo com a presença das Forças Armadas, a reação indignada da sociedade civil organizada, denúncias na imprensa e na ONU (Organização das Nações Unidas) e seguidas ameaças comerciais por países e empresas compradoras do agronegócio brasileiro, tudo indica que a crise socioambiental continuará se agravando ao longo de 2021.

Neste cenário, é frustrante observar que as tentativas de organizar “frentes amplas” contra o bolsonarismo não colocam a crise socioambiental como pilar de suas articulações. Parecem desconsiderar que as políticas de Bolsonaro nessa área não apenas revelam os padrões autoritários e o cunho racista e negacionista de seu governo, mas mostram que ele está, de fato, governando e cumprindo o programa com o qual foi eleito. Os afagos a garimpeiros, as reuniões privadas com madeireiros ilegais, a aprovação célere de quase 1.000 novos agrotóxicos e a falta de controle fundiário não são fatos isolados, são a lenha que Bolsonaro usa para alimentar a fogueira de uma base de apoio específica e estratégica. O governo, ao contrário do que demonstra a oposição, sabe que a pauta é decisiva no jogo de forças do Congresso Nacional. A bancada ruralista conta com 280 parlamentares e soma poder com o lobby da mineração, operando como fiel da balança para a aprovação de reformas econômicas, eleição do comando das casas legislativas e eventuais processos de impeachment.

Se no plano nacional parece difícil segurar a boiada de Salles e Bolsonaro, internacionalmente a gestão Biden/Harris nos EUA promete se juntar à União Europeia para aumentar a pressão diplomática e econômica sobre o Brasil em função das queimadas e da emergência climática. O processo, porém, é lento e os impactos não serão sentidos imediatamente por aqui.

Assim, 2021 se inicia com o Brasil atrasado nos planos de vacinação da covid-19 e sem perspectiva de superar a situação de insegurança econômica. A única certeza é que o acumulado do desmatamento dos dois anos anteriores e o desmonte das instituições socioambientais devem proporcionar mais uma temporada sinistra de incêndios florestais.

Feliz ano velho.

Rebeca Lerer é jornalista, ativista de direitos humanos e coordenadora do Sinal de Fumaça – Monitor Socioambiental.

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