Foto: Dado Ruvic/Reuters

Era das fake news: o Brasil real e o Brasil do WhatsApp


Não existe no mundo uma tecnologia de comunicação com um potencial de difusão de (des)informação tão grande quanto essa rede social. O país que circula nela nada tem a ver com o país que vemos nos jornais

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Deve existir na sua família alguém que você costumava admirar pela sobriedade e equilíbrio nas opiniões, mas que ultimamente se tornou adepto de teorias conspiracionistas e defensor fervoroso da figura de Jair Bolsonaro. Essa mesma pessoa deve ter tentado te convencer que o STF (Supremo Tribunal Federal) impediu o governo federal de salvar vidas durante a pandemia e/ou que bastaria tomar um remédio para matar piolhos para se proteger da covid-19.

Tem uma coisa que o seu e o meu familiar têm em comum: a utilização do WhatsApp como principal meio de informação. Por ser fácil, rápido e barato, o aplicativo de mensagens caiu no gosto do brasileiro. O WhatsApp está instalado em 99% dos celulares ativos no Brasil. De acordo com o livro “A máquina do ódio”, ficamos atrás apenas da Índia em número de usuários. Das pessoas que você conhece, quantas não utilizam o WhatsApp? Provavelmente nenhuma. Não usar esse aplicativo de conversas virou quase um atestado de renúncia da vida social.

Como várias empresas oferecem planos e pacotes de internet que garantem uso ilimitado do WhatsApp, o aplicativo mudou a vida de muitos brasileiros que passaram a poder conversar com os amigos e fazer negócios pagando muito pouco por isso. Mas, como tudo na vida, tais benefícios vieram com um custo. Qualquer um pode fabricar em poucos minutos informação falsa ou enviesada, sob a forma de texto, áudio ou vídeo, e compartilhar entre amigos no WhatsApp. Como é fácil retransmitir tudo aquilo que é recebido, em poucas horas (às vezes minutos) um vídeo difamatório, montagens ou mesmo um áudio apocalíptico que revela uma nova teoria da conspiração podem atingir milhões de celulares.

Não existe no mundo uma tecnologia de comunicação com um potencial de difusão de (des)informação tão grande. E foi por isso que, em 2014, o Facebook investiu R$ 90 bilhões para adquirir os direitos desse aplicativo. Diferentemente de outras redes sociais, é praticamente impossível determinar a origem de notícias falsas que circulam entre os usuários do WhatsApp. Toda a informação dos usuários é criptografada e guardada a sete chaves. Isso significa que ninguém pode ser punido por viralizar mentiras ou meias verdades. Muito pelo contrário, o incentivo para desinformar é grande.

No Brasil do WhatsApp, só existe espaço para a verdade que é conveniente. Faltam dados e sobram teorias infundadas, sejam elas conspiratórias ou não

Segundo Pablo Barberá, notícias falsas tendem a ganhar mais repercussão entre aqueles já previamente inclinados a desafiar preceitos lógicos e mais propensos a acreditar em teorias com pouco (ou nenhum) embasamento científico. Por se tratar de uma plataforma mais difundida e com grande capilaridade em todos os segmentos da população, o WhatsApp funciona como um poderoso instrumento de confirmação de viés (confirmation bias). Por exemplo, se alguém já predisposto à xenofobia passa a ser bombardeado por mensagens que dizem que o vírus da covid-19 foi fabricado em um laboratório chinês com a intenção de quebrar as outras economias ao redor do planeta, o mais provável é que essa mesma pessoa que se identificou com tal teoria conspiratória a repasse imediatamente. Trabalhos científicos, como os de Natalia Aruguete e Ernesto Calvo, descobriram que as notícias repassadas por pessoas próximas tendem a ser lidas com mais credibilidade. E exatamente por isso é muito difícil reverter o efeito do ciclo de desinformação. No exemplo acima, mesmo se a pessoa que recebeu a fake news não fosse xenofóbica, a teoria conspiratória teria mais credibilidade (e, portanto, uma maior chance de ser repassada) se transmitida por um familiar próximo ou amigo de longa data.

Informados por experiências anteriores nos EUA, Reino Unido e Índia (para ficar apenas nas democracias), Bolsonaro e seus aliados decidiram que desinformar seria um aspecto central no projeto de vencer as eleições de 2018. Em um país pobre, com enorme desigualdade de acesso à informação de qualidade, a difusão de notícias falsas pode ser um trunfo para qualquer candidato com um arsenal limitado de propostas e ideias, como era (e continua sendo) Bolsonaro em 2018.

De acordo com os dados do Barômetro das Américas publicados em 2019, 88% dos brasileiros utilizam o WhatsApp diariamente. Desse total, 79% utilizam o aplicativo para consumir notícias sobre política. Dado o histórico de baixo interesse dos brasileiros por temas relacionados à política, essa seria uma boa notícia se não fosse o fato de que grande parte da informação consumida é enviesada ou completamente falsa. O Brasil que circula no WhatsApp nada tem a ver com o país que assistimos na TV ou lemos nos jornais. Houve um tempo em que a maioria dos brasileiros esperava a hora do Jornal Nacional para saber o que estava acontecendo no país. Para o bem e para o mal, esse país que confiava mais no William Bonner do que no Arthur do Val, o Mamãe Falei, não existe mais.

No Brasil do WhatsApp, não existe mais corrupção no governo federal e tudo que acontece de ruim no país é culpa do Congresso ou do STF. No Brasil do WhatsApp, todos que não concordam que mulheres merecem ganhar menos porque engravidam são comunistas, globalistas ou os dois juntos. No Brasil do WhatsApp, o governo Bolsonaro herdou um país quebrado e só não consegue fazer a economia crescer e gerar empregos porque tem muita gente torcendo contra.

Dentre os usuários assíduos do WhatsApp, 60% dos entrevistados pelo Lapop (Latin American Public Opinion Project) em 2019 declararam voto em Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. No grupo daqueles que declararam se informar sobre política por meio das mídias tradicionais, a adesão à candidatura de Bolsonaro foi consideravelmente menor, apenas 49%. Não surpreende, portanto, que a avaliação do governo Bolsonaro seja melhor no Brasil do WhatsApp. Também na pesquisa de 2019 do Lapop, Bolsonaro fazia um governo ótimo ou bom para 57% dos brasileiros que consumiam conteúdo político pelo aplicativo. Esse número era menor, 48%, entre os seguidores das mídias tradicionais.

O seu tio que passou a duvidar que a Terra é redonda provavelmente não é burro. A sua avó que defende com afinco a tese de que o Bill Gates quer implantar um chip para controlar toda a humanidade não é maluca. O seu irmão que não vai tomar a vacina do Butantan porque não quer ser contaminado pelo vírus do HIV não é suicida. Eles apenas estão presos em uma realidade paralela chamada WhatsApp. Nessa realidade paralela, dizer que a covid-19 já matou quase 270 mil brasileiros é quase um sacrilégio, coisa de comunista, socialista e antipatriota. “Vai pra Cuba!”

Também é proibido lembrar que o país poderá ficar sem insumos para produzir vacinas para a sua população por causa da política externa desastrosa do atual governo. Imagina então dizer que, no meio da maior crise sanitária da história, o atual presidente brasileiro baixou um decreto que reduziu a zero a alíquota para importação de armas ao mesmo tempo em que aumentou o imposto de importação sobre itens necessários para combater a covid-19, dentre eles os cilindros de oxigênio.

No Brasil do WhatsApp, só existe espaço para a verdade que é conveniente. No Brasil do WhatsApp, faltam dados e sobram teorias infundadas, sejam elas conspiratórias ou não. Afinal, a ciência e os fatos também estão a serviço do globalismo. No Brasil do WhatsApp, ainda resta a esperança de que, caso tudo dê errado, os militares “salvarão” o país mais uma vez, como fizeram em 1964.

Victor Araújo é doutor em ciência política e pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Zurique, na Suíça.

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