Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Entre memórias e afetos: o lugar do cinema na pandemia


Um projeto político que ignora a cultura como propositora de novas possibilidades de futuro está fadado ao fracasso. Diante do caos, é preciso se render ao poder do afeto

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O aclamado cineasta chileno Patricio Guzmán disse que “um país que carece de documentário é como uma família que carece de um álbum de fotografias”.

Minhas primeiras memórias são musicais. “Ovo de codorna”, de Luiz Gonzaga, era a trilha sonora daquela VW Brasília bem velha que passava nas primeiras horas do sábado vendendo os produtos da granja. O pequeno caminhão de gás tocava uma das melodias mais famosas de Ludwig van Beethoven: “Für Elise”. Quando criança não tinha a dimensão de quem eram os compositores dessas músicas, mas elas faziam parte dos meus afetos sonoros. “Saigon”, de Emílio Santiago, era a trilha sonora da praia. Meu pai tinha todos os discos de vinil de Santiago e, não bastasse isso, a música insistia em tocar nas rádios também. Lembro de quando minha prima comprou “East of the Sun, West of the Moon”, quarto álbum da banda norueguesa A-Ha. O disco vendeu mais de três milhões de cópias no mundo inteiro, mas a única que me importava era aquela que ela tinha. Passei a ceia de Natal importunando-a para que gentilmente cedesse aos meus apelos para emprestar aquele petardo. A persistência deu certo. Ela emprestou o disco em vinil e meu pai gravou para mim numa fita cassete que tenho até hoje. A última música não coube. Mas nem liguei. Tive a liberdade artística até para recriar a capa e desenhar, aos 8 anos de idade, aquilo que pra mim representava melhor a imagem do álbum.

Também possuo memórias olfativas. Lembro do cheiro de couro da poltrona em que minha bisavó Prisca me segurava num braço, aos 3 anos, e meu irmão, com pouco mais de um ano, no outro. Aliás, naquela casa em que ela morava com meu bisavô, que eu carinhosamente chamava de Vô José, vários cheiros se eternizaram na minha memória. O cheiro do hortelã que aflorava na pequena horta deles, dos sabonetes que faziam com banha de porco, do pequeno wafer crocante de chocolate que serviam com refrigerante de guaraná no fim da tarde. Nada disso está nos álbuns de fotografia da minha família.

A necessidade que temos de produzir memórias de nossa própria vida é compartilhada com a necessidade também de produzir memórias de nossa cultura. Principalmente neste Brasil em que a cultura sofre uma asfixia coordenada (ou descoordenada) por um governo que parece não entender a necessidade de preservação e manutenção do audiovisual. O descaso com a Cinemateca Brasileira é apenas a ponta do iceberg. Além de abrigar o maior acervo de filmes da América Latina com 30 mil títulos, aproximadamente 250 mil rolos de filmes e um milhão de documentos, a Cinemateca é importante para o trabalho de restauração de filmes, pesquisa de material histórico e defesa da memória. O fato de a instituição estar abrigada fisicamente num local onde funcionava até 1927 o Matadouro Municipal de São Paulo é de uma poesia só. Onde antes vidas eram ceifadas, hoje existe o inverso: a preservação da vida. A preservação do cinema brasileiro!

A mensagem do documentário Babenco precisa ser difundida aos quatro cantos do país: precisamos aprender a transformar destruição e morte em recomeço

E preservar significa produzir memória, o que me parece uma dificuldade histórica do Brasil. Estamos acostumados a jogar a sujeira pra debaixo do tapete, a esconder nos porões aquilo que nos incomoda ou que não deve ser visto. Por isso o documentário contemporâneo surge como parte importante nesse processo de resgate. Ainda somos incapazes de lidar com o horror da ditadura militar brasileira, que dizimou vidas e sonhos entre 1964 e 1985. Todos os nossos torturadores/assassinos foram perdoados pela Lei da Anistia. Ainda somos incapazes de lidar com o horror do desmatamento da Amazônia, principalmente em anos recentes. Orlando Senna e Jorge Bodanzky já haviam denunciado em “Iracema – Uma transa amazônica” os primeiros focos de incêndio para transformar a área verde em área devastada para a pecuária. O filme de 1975, que passou seis anos censurado pelos militares, só pôde ser exibido oficialmente no Brasil a partir de 1981. É impressionante como a obra continua atual! E triste!

Como também é triste perceber que o desmatamento da Amazônia também pressupõe o genocídio da população local, principalmente de indígenas e seus descendentes. “Segredos do Putumayo”, de Aurélio Michiles, que levou menção honrosa no É Tudo Verdade 2020, denuncia esse projeto de poder. Um projeto de poder baseado na exploração de mão-de-obra barata, quase análoga à escravidão, e na busca a qualquer custo pelo lucro. Não pensem vocês, leitores “farialimers”, trabalhadores PJ com parte do salário como percentual de mérito, que sejam muito diferentes daquela comunidade ribeirinha às margens do Rio Negro, mostrada no filme de Michiles. O projeto neoliberal, com sua ideologia pautada pelos Chicago Boys, sustenta-se pela precarização das relações de trabalho, das relações humanas e pela destruição. Seja a destruição das leis trabalhistas, seja a destruição da natureza e da vida, o importante é destruir! Como Stallone e Schwarzenegger faziam em seus filmes anabolizados e adorados pelo branco-macho-hétero-pseudo burguês.

Um projeto político que ignora o cinema como mantenedor da memória cultural e propositor de novas possibilidades de futuro está fadado ao fracasso. Na contramão da destruição, qual a função do documentário nesse cenário? Construir afetos! Como Bárbara Paz fez em “Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou”. Entre o factual e o ficcional, Bárbara reconstrói memórias para manter vivo um dos cineastas mais importantes do cinema brasileiro. O filme foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2021. Ser indicado ou ganhar o prêmio pouco importa. A mensagem da obra precisa ser difundida aos quatro cantos do país: precisamos aprender a transformar destruição e morte em recomeço.

O documentário de Bárbara Paz me parece ter a faísca necessária para um novo olhar sobre nossas memórias. Numa época em que muita gente grita, o silêncio é importante. Cabe a reflexão: como vamos sobreviver após a pandemia? Oficialmente, quase 250 mil pessoas morreram no Brasil por causa da covid-19. No mundo, quase 2,5 milhões! Bárbara lida com o fim e a perda, mas, essencialmente, propõe um belo resgate das memórias de Hector Babenco. Em certo momento ele diz que “estar filmando é estar vivendo um dia a mais”. É isso! Como os adictos, estamos vivendo um dia de cada vez. Só por hoje, quero um Brasil com mais afeto!

Piero Sbragia é jornalista, documentarista e mestre em educação, arte e história da cultura. Autor do livro “Novas fronteiras do documentário: entre a factualidade e a ficcionalidade”, lançado em 2020 pela Chiado Books.