Foto: Pilar Olivares/Reuters

Créditos de carbono e empresas com boas práticas de ESG


A expectativa é de que o ano de 2021 seja marcado por negociações entre corporações, novas iniciativas governamentais e modelos de negócios que apostam em inovação e sustentabilidade

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Um caminho sem volta: investidores e consumidores em todo o mundo têm sinalizado às corporações sobre como as boas práticas ambientais, sociais e de governança (do inglês, ESG: environmental, social and corporate governance) devem estar integradas a suas agendas. No Brasil, pesquisa da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) aponta que 87% dos clientes preferem empresas sustentáveis.

É um sinal que nenhuma das pontas da cadeia produtiva deve ignorar. Mais que um simples ato de vender, comprar e investir, hoje falamos na evolução e transformação do planeta, de nossa própria relação com os recursos naturais disponíveis, o equilíbrio do meio ambiente e a sobrevivência de nossa sociedade no médio e longo prazo. É preciso evitar o colapso ambiental e social, que em sua consequência também levará ao colapso econômico.

A ONU (Organização das Nações Unidas) lançou um relatório alertando sobre os grandes danos que podem ser causados até 2050 se todo o mundo não começar a fazer sua parte. São estimadas mais de 3 bilhões de pessoas vivendo em situação de extrema pobreza, das quais pelo menos 155 milhões estariam na América Latina e no Caribe. E essa condição demográfica e social seria motivada também pela degradação do meio ambiente e pela redução dos meios de subsistência, como a agricultura e o acesso à água potável. De acordo com a previsão de desastre apresentada pelo relatório, cerca de 2,7 bilhões de pessoas a mais viveriam em extrema pobreza em 2050 como consequência do problema ambiental. Desse total, 1,9 bilhão seria composto por indivíduos que entraram na miséria, e os outros 800 milhões seriam aqueles impedidos de sair dessa situação por causa das calamidades do meio ambiente. Dessa forma, a organização defende que desenvolvimento sustentável é aquele que “satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.

O ano de 2020, além da pandemia de covid-19, se mostrou um período de reflexões, alertas e mudanças. Empresas têm feito o dever de casa de mapear e rever seus processos de modo a minimizar os impactos causados no meio ambiente. E um de seus projetos é justamente a compensação por créditos de carbono.

Quando o assunto é crédito de carbono, as empresas terão um leque de opções para investir. E nunca é demais repetir: nos dias de hoje, práticas de sustentabilidade levam ao consumo

Não é nenhuma novidade. Esse mercado já existe há mais de 30 anos e faz parte das cláusulas do Acordo de Paris de 2015. Visa, numa explicação simples e objetiva, conter a emissão dos gases mais destacados do aquecimento global: o dióxido e o monóxido de carbono até 2030. Ou seja, é correr contra o tempo.

Já vemos a movimentação de grandes grupos. Foram anunciadas metas ou pela redução da emissão de gases poluentes na atmosfera; ou pela compra de créditos de carbono para equilibrar esses números. Mas ainda falta escala nesse processo. De 195 países que assinaram o Acordo de Paris, apenas 61 já estão com ações em andamento.

O valor da tonelada do CO2 mostra que esse mercado ainda pode ser aquecido. Há alguns anos, seu preço chegou a US$ 14. Hoje, beira US$ 2. No mundo, Alemanha, China, Austrália e Nova Zelândia são grandes compradores pelo mecanismo de Desenvolvimento Limpo da ONU. Compram, inclusive, créditos emitidos pelo Brasil.

E nós, o que fazemos? O ponto-chave agora é justamente o mercado interno. Para não ficar para trás, o Brasil precisa precificar o carbono, estabelecer uma regra local, uma regulamentação. Só assim terá uma administração e governabilidade mais sustentáveis. Ao trazer um exemplo de política pública, o país estimulará a mudança nas regras de gestão das empresas. Desta forma, teremos um fluxo de práticas ESG ligando todas as pontas do processo.

Também é recomendável nos tornarmos independentes dos mercados globais, apoiando projetos nacionais. Atualmente existem iniciativas como os créditos de descarbonização, mas que abrangem apenas o setor de biocombustíveis. Precisamos de um ambiente amplo, regulado e consequentemente seguro para estimular empresas a investirem em “tecnologias limpas”. É política de Estado e infraestrutura.

Este é um primeiro passo e uma grande oportunidade para nosso país avançar em uma agenda mais madura do desenvolvimento sustentável das cidades, refletindo no envolvimento também de pequenas e médias empresas e até na criação de parâmetros e metas que possam ser adequadas a setores específicos. A regulação trará, de todo modo, transparência, fixação de preços e, consequentemente, profissionalização do segmento e um nível maior de segurança a investidores.

O ano de 2021 será de negociações entre empresas, novas iniciativas governamentais e modelos de negócios que apostam em inovação. Quem hoje atua no setor de créditos de carbono investe em tecnologia de ponta para o processo de compensação/emissão. Há projetos nos mais variados nichos, entre eles, bancos, indústria de alimentos, administradoras de cartões, fabricantes de produtos de higiene pessoal e agronegócio.

Quando o assunto é crédito de carbono, as empresas terão um leque de opções para investir. E nunca é demais repetir: nos dias de hoje, práticas de sustentabilidade levam ao consumo – já que corporações ganham receita e destaque em sua imagem pública. Por trás deste movimento, há clientes. E eles estão atentos e podem, além de comprar, comemorar suas boas práticas.

Milton Pilão é presidente da Orizon Valorização de Resíduos.

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