Foto: Wikimedia Commons

Cientistas sociais agora reinventam potenciais da carreira


Para que servem as humanidades quando o planeta enfrenta tantos desafios relacionados ao desenvolvimento econômico e a conflitos armados?

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Nos anos 1980, a então primeira-ministra britânica Margareth Thatcher visitou uma universidade e ouviu de um estudante que ele estudava literatura nórdica. Ao saber disso, ela respondeu com ironia: “Que luxo!” Thatcher se referia a um questionamento que continua atual: para que servem as humanidades quando o planeta enfrenta tantos desafios relacionados ao desenvolvimento econômico e a conflitos armados?

As ciências sociais talvez seja o campo de atuação, dentro das humanidades, que tenha aplicações mais diretas e práticas para governos, empresas e para a própria sociedade entender sobre fenômenos sociais presentes - como desenvolvimento e conflitos. Mas, apesar disso, os cursos de ciências sociais treinam seus alunos para se tornarem pesquisadores e professores universitários, mesmo no cenário atual de falta de vagas acadêmicas.

Neste contexto, a maioria precisa descobrir sozinho como se inserir no mercado de trabalho ou pior renunciar ao treinamento para começar uma carreira nova, desperdiçando anos de formação. A maioria dos formados em ciências sociais hoje se identificaria com um dos três perfis indicados a seguir:

Mônica concluiu o doutorado em antropologia em um dos principais departamentos de ciências sociais do país. Mãe e desempregada, ela pensa em estudar Python e Machine Learning ou prestar concursos públicos para nível médio porque está “meio perdida nessa terra de ninguém que é o mercado de trabalho na era da tecnologia”.

Márcia se virou na “terra perdida” da tecnologia e hoje tem uma carreira estabelecida como designer de UX. Mas ela se lembra de ter saído “desolada da graduação porque ninguém quis me orientar no mestrado e achava que a vida de pesquisadora tinha acabado”.

Luíza precisou trabalhar durante a graduação para se manter, por isso, ela desde o início trabalhou como pesquisadora de mercado. Apesar de ter tido que aguentar as provocações dos colegas quando ela aparecia nas aulas, depois de reuniões com clientes, vestindo roupa formal, ela pôde renunciar a uma bolsa de pós-doutorado em nome de um emprego corporativo. O que pesou não foi o salário melhor, mas ver a situação dos colegas que insistiram na pós-graduação e agora “estão todos com crise de pânico achando que jogaram dez anos da vida no lixo”. “Eu me sinto muito insegura com os concursos, essa instabilidade de não ser nada se não for concursado, sabe?”.

Nos Estados Unidos e na Europa, o universitário que decide estudar disciplinas das humanidades também preocupa aqueles pais em relação ao futuro financeiro que a profissão oferece, mas lá a presença de cientistas sociais nas empresas, desde cargos juniores até posições de liderança, é algo mais comum, um pouco mais incentivado pela academia e desejado pelo mundo corporativo.

As ciências sociais talvez seja o campo de atuação, dentro das humanidades, que tenha aplicações mais diretas e práticas

E essa história não é recente. Acadêmicos importantes como Theodor Adorno (1903-1969) atuaram durante partes de suas vidas fazendo pesquisa de mercado. E pelo menos desde os anos 1970 existem oportunidades mesmo fora de institutos privados de pesquisa. Grandes empresas passaram a incorporar antropólogos e sociólogos em seus quadros. Por exemplo, a Xerox PARC, o centro de pesquisa creditado por muitas das tecnologias computacionais que hoje fazem parte do dia a dia das pessoas, tinha equipes multidisciplinares com antropólogos, filósofos, matemáticos e arquitetos, entre outros. Intel, Microsoft, Google e IBM são algumas das empresas nas quais cientistas sociais são protagonistas em iniciativas de sucesso.

A proposta do grupo Antena (Antropólogos Em Ação), que assina este artigo, está em linha com o que defende o filósofo, empresário e escritor Christian Madsbjerg, sócio da dinamarquesa Red Associates, uma das empresas mais bem-sucedidas internacionalmente na aplicação dos conhecimentos das ciências humanas e dos métodos qualitativos de pesquisa para finalidades corporativas.

Em vez de se contentar com um lugar periférico no mercado, Madsbjerg defende em seu livro mais recente – “Sensemaking” – que há limitações nos campos das ciências da informação, via machine learning, inteligência artificial e big data, no entendimento da sociedade. Ele argumenta que essas ferramentas têm sua utilidade, mas sua eficiência está superestimada; elas são apresentadas como oráculos para pessoas que não têm o conhecimento técnico para entender o que está comprando.

É no campo das humanidades que, segundo Madsbjerg, estão os profissionais treinados para perceber e registrar a essência subjetiva e em constante transformação dos seres humanos. Por isso, esses profissionais são necessários tanto para ajudar a criar os programas que interpretam dados humanos, como para examinar seus resultados de uma maneira informada. É por conta desse tipo de falha, por exemplo, que constantemente serviços baseados em inteligência artificial, em vez de solucionar problemas, reproduzem vieses interpretativos racistas ou que amplificam privilégios.

Tendo em vista esse contexto, criamos um espaço para cientistas sociais que não atuam ou não querem atuar no mundo acadêmico se conheçam e interajam, para trocar experiências e compartilhar artigos, oportunidades de vagas de trabalho, eventos e cursos – o Antena Antropólogos em Ação que também pode ser acessado nesta página.

Juliano Spyer é head de pesquisa qualitativa na Behup.

William Corbo é professor de antropologia cultural na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Maurício de Almeida Prado é sócio-diretor na Plano CDE consultoria e pesquisa.

Rachel Rua Batista é gerente de pesquisa no Instituto Locomotiva.

Beatriz Accioly é coordenadora de pesquisas no Instituto Avon.

Louise Pasteur de Faria é co-fundadora da Halo Ethnographic Bureau, plataforma global de divulgação e promoção da antropologia aplicada e do pensamento etnográfico.

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.