Foto: Fabrizio Bensch/Reuters - 16.set.2021

As eleições na Alemanha e o fim da era Merkel


Contrariando especialistas que veem a política democrática hoje reduzida a diferenças cosméticas na forma de gerir o deficit fiscal, projetos muito diversos encontram-se em disputa

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Quem caminha pelas ruas das cidades alemãs hoje, às vésperas das eleições parlamentares de 26 de setembro, se surpreende com a pluralidade dos slogans que cobrem postes e outdoors. Vê-se desde um cínico “seu carro nos escolheria. Pelo fim da ideologia no trânsito” do partido de direita AfD até o convite sedutor dos Verdes: “opte agora pelo futuro”.

A variedade de slogans é reveladora da busca de renovação política, depois de 16 anos da liderança conservadora de Angela Merkel. A eleição, muito competitiva, é indicativa também da multiplicidade de projetos em disputa. Dos 7 partidos na verdade 6, pois CDU e CSU formam, em conjunto, a união democrata-cristã representados no Parlamento, 3 têm chances de vencerem o pleito. Os SPD (socialdemocratas) lideram com 25% das intenções de voto, os democrata-cristãos vêm atrás com 22% e os Verdes, mais distantes, com 17%.

Contrariando especialistas que veem a política democrática hoje reduzida a diferenças cosméticas na forma de gerir o deficit fiscal, projetos muito diversos encontram-se em disputa. É verdade que os três partidos que lideram a corrida representam, no contexto alemão, o centro. Defendem, em linhas gerais, o estado de bem-estar social, a sustentabilidade ambiental, a convivência democrática com as diferenças e a política externa a serviço da paz e dos direitos humanos. As ênfases, contudo, variam muito. Os democrata-cristãos e os socialdemocratas apostam que uma intervenção estatal branda combinada com inovação tecnológica e a autorregulação do mercado levarão, num futuro próximo, à economia de impacto zero sobre o clima. Os Verdes, em contrapartida, propõem a justiça climática como referência para a regulação da economia e parâmetro transversal de avaliação das ações do Estado. Nesse modelo, um futuro Ministério da Proteção do Clima teria poder de veto sobre todas as ações do governo.

No campo da convivência, os democratas cristãos apostam na integração em torno da cultura nacional. Socialdemocratas e Verdes, por sua vez, reconhecem que a diversidade cultural é o fundamento da Alemanha contemporânea. Mas o fazem de maneiras muito distintas. Os socialdemocratas articulam, em torno do slogan da sociedade do respeito, demandas sociais (trabalho decente, moradia digna, etc.) e reivindicações por reconhecimento, embora a primazia conferida às questões sociais seja iniludível. Parecem acreditar que, havendo bons serviços públicos e emprego de qualidade, questões afeitas à diferença perdem sua relevância.

Os Verdes, em contrapartida, reconhecem que o sexismo e o racismo são tão estruturais e estruturantes da sociedade alemã quanto a educação formal, o trabalho e a renda. Defendem que as vítimas do racismo e do sexismo sejam não o alvo, mas os protagonistas das políticas de convivência.

Há uma busca por renovação política após 16 anos da liderança conservadora de Angela Merkel. A eleição, muito competitiva, é indicativa também da multiplicidade de projetos em disputa

Como em outros países, também na terra de Kant e Arendt não se ganha eleições só com boas ideias. Os nomes importam. Depois que os socialdemocratas escolheram o atual ministro das finanças Olaf Scholz como cabeça de chapa, as intenções de voto para o partido saltaram mais de 10 pontos percentuais. Scholz é o oposto do político sedutor e carismático, mas irradia ao eleitor médio solidez e competência. Recorde-se que, no sistema alemão, os eleitores não escolhem diretamente o chanceler. Quem o faz é o Parlamento e o cabeça de chapa é aquele que será submetido a escrutínio caso seu partido lidere a coalizão que irá governar o país.

Os democrata-cristãos vivem seu inferno astral: depois de chegarem a quase 40% das intenções de voto em 2020, começaram a despencar nas pesquisas logo que definiram o chefe de governo do estado da Renânia do Norte-Vestefália, Armin Laschet, como cabeça de chapa. Ele tem o aval de Merkel, mas os eleitores conservadores que garantiram os seguidos mandatos à chanceler avaliam que falta a Laschet pulso para governar o país.

Os Verdes, que chegaram a liderar a corrida, vêm caindo, depois que lançaram Annalena Baerbock, deputada de 40 anos e, portanto, ao menos 20 anos mais jovem que seus concorrentes, como cabeça de chapa. Considerada pouco experiente, Baerbock tem escorregado em todas as cascas de banana que aparecem em seu caminho. Um dos últimos deslizes se deu numa entrevista ao Conselho Central dos Judeus da Alemanha na qual pronunciou a palavra correspondente a negro no alemão, referindo-se a um caso de racismo no ambiente escolar. A palavra que, no alemão, como no inglês, tem conotação racista, foi praticamente banida do idioma. Pronunciá-la é um erro político grave.

Se nada de muito excepcional acontecer até as eleições, o futuro chefe do governo alemão se chamará Scholz, hipótese mais provável, Laschet ou Baerbock. Nem por isso os outros três partidos, hoje representados no Parlamento, são pouco importantes no xadrez eleitoral. Afinal, entre esses partidos, estão potenciais sócios da próxima coalizão governista. O partido de direita, AfD, Alternativa para a Alemanha, fica fora desta conta, já que nenhum outro partido aceita sua participação num futuro governo. Ainda assim, se confirmada suas atuais intenções de voto em torno de 11%, a AfD continuará contando com funcionários, fundos públicos e votos no Parlamento para tentar obstruir projetos mais progressistas do próximo governo.

Restam, ainda, a FDP, o partido liberal, com 12%, e Die Linke, a esquerda, com cerca de 7% nas pesquisas. Se Scholz for o vencedor, o mais provável é que componha seu governo com os Verdes e, caso necessário, com os liberais, ainda que a ala mais progressista do SPD prefira uma coalizão com a esquerda. A continuidade da atual coalizão com os democrata-cristãos está descartada, por enquanto. A escolha do terceiro sócio da coalizão pode fazer uma diferença enorme. Os liberais jamais aceitariam, por exemplo, aumentar impostos dos mais ricos ou submeter a economia ao primado da proteção do clima. Já uma coalizão com o partido de esquerda daria a Scholz fôlego para uma agenda mais ousada.

Se os democratas cristãos vencerem, a aliança preferida será com os Verdes, incluindo, se necessário, os liberais. Uma aliança com Die Linke não é aceita por eles. Por fim, na hipótese menos provável da candidata verde Baerbock vencer, ela deve buscar uma coalizão com a socialdemocracia e o partido de esquerda.

Seja como for, o jogo eleitoral e de alianças continua indefinido. Em algumas semanas saberemos se o novo governo trará continuidade, mudanças suaves ou até mesmo transformações substantivas.

Sérgio Costa é professor titular de sociologia, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Freie Universität Berlin e vota, pela primeira vez, na Alemanha.

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