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As cidades em um mundo pandêmico e os rumos da nova década


A pandemia aprofundou e expôs desigualdades urbanas há muito conhecidas. É o modo como nos recuperaremos desta crise que mostrará que tipo de lar queremos construir

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A crise sanitária mundial provocada pelo novo coronavírus em 2020 abalou profundamente a vida de toda sociedade e, em particular, do meio urbano, que reúne 95% dos casos de covid-19 no mundo. Vários dos problemas considerados como “globais” acabam por ser, na verdade, questões que recaem diretamente sobre a vida nas cidades, que estão na “linha de frente” das respostas à pandemia. Muitos têm argumentado que essa crise aprofundou mazelas e desigualdades estruturais já historicamente existentes na vida urbana, catalisando a necessidade de mudanças efetivas. Mas isso tudo não é novidade.

O grande paradoxo desse contexto atual é que iniciamos a década vivendo uma das maiores pandemias da contemporaneidade, que desafia nossa própria estrutura social, econômica e política, e vamos terminá-la, em 2030, tendo que cumprir os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável). Firmadas em 2015 pela ONU (Organização das Nações Unidas), essas metas visam o desenvolvimento global sustentável e mais justo, questões que estão colocadas atualmente. Entre as diversas reflexões que a pandemia colocou em xeque, relativas ao modo que pensamos e vivemos as/nas cidades, gostaria de me deter especificamente a três, esclarecendo aqui, desde logo, que obviamente não esgoto as inúmeras variáveis desse complexo amálgama urbano de problemáticas e possibilidades.

Em primeiro lugar, o local, o bairro e a comunidade, mais do que nunca, ganharam centralidade e protagonismo na vida dos cidadãos urbanos. Isso se traduz com a importância da solidariedade dentro das comunidades, com os esforços da atuação coletiva da vizinhança, com a valorização da economia local. Ainda que ficar em casa durante a pandemia tenha sido um privilégio de poucos, e a maioria não tenha conseguido restringir sua rotina exclusivamente ao seu entorno domiciliar direto, a vivência no bairro acabou ganhando outro peso e significado na vida dos cidadãos. Essa dinâmica estimula reflexões sobre como é possível fortalecer esse microcontexto urbano ou, ainda, sobre como é possível articular esse nível de cidadania e de organização social à participação direta na gestão da cidade.

Realço, ainda nesse ponto, a importância dos espaços públicos nos bairros, tão temidos por alguns ante o necessário distanciamento social, mas, ao mesmo tempo, almejados por tantos outros em razão do longo tempo de isolamento, já que o espaço público é reconhecidamente o espaço da convivência e da interação entre as pessoas. É interessante perceber como a falta de espaços públicos de qualidade em nossos bairros limita a nossa própria qualidade de vida em tempos de pandemia. E não falo apenas da ausência de espaços verdes, praças e parques — grandes aliados para nossa saúde física e mental —, mas também das próprias ruas e calçadas, por onde nos deslocamos, sem acessibilidade, estrutura e incentivos para a mobilidade ativa — a pé ou de bicicleta, meio altamente recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) durante a pandemia. Esse período nos faz repensar o papel e a importância do espaço público em nossas vidas.

A diversidade deve ser levada em consideração no planejamento urbano, já que essa característica é uma das grandes riquezas da vida nas cidades

Em segundo lugar, é necessário fortalecer os canais de cooperação internacional entre as cidades. O amplo debate, anterior à pandemia e aprofundado durante ela, a respeito da crise do multilateralismo internacional, traz consigo a possibilidade de renovar esse sistema, mobilizando-o de baixo para cima, por meio dos atores locais e regionais que ainda estão à margem. A principal rede internacional de cidades do mundo, a CGLU (Cidades e Governos Locais Unidos), afirma que serão os governos locais os verdadeiros “guardiões” da solidariedade internacional. A atuação de cidades em rede é antiga, já tendo se mostrado como um formato eficaz de unificar e potencializar vozes locais no âmbito internacional, mas como fortalecê-la em tempos de crises, tendo em vista todas suas potencialidades?

A pandemia, sem dúvidas, afetou rapidamente o nível local, demandando respostas igualmente rápidas. Alguns pesquisadores como Leslie Pal e Cecília Osório, especialistas da área de “difusão internacional de políticas públicas” (mais abrangente que a cooperação internacional em si), afirmam que, a partir desse contexto de emergência, a expectativa era que a difusão ou transferência internacional de políticas fosse intensificada. No entanto, o que ocorreu foi exatamente o oposto. Isso talvez se justifique pela agilidade demandada para a tomada de decisão e pelas características particulares de cada local, que criam condições específicas para lidar com a crise. E agora, após quase um ano de pandemia, qual deve ser o papel da comunidade internacional no fortalecimento de respostas às crises que afetam as cidades? O que pudemos aprender do acumulado de experiências?

Em terceiro lugar está a afirmação — que pode até parecer óbvia — de que é necessário construir cidades a partir da diversidade. Em artigo publicado no Nexo Políticas Públicas em dezembro de 2020, os pesquisadores Gilson Santiago Macedo Júnior e Jéssica Tavares apontam que as cidades foram pensadas a partir da ótica do “padrão” branco, cis gênero e masculino, o que consequentemente gera desigualdades estruturais — que só se aprofundam em períodos de crise. A pesquisadora Marina Harkot, vítima da brutal violência de trânsito urbana, já defendia que a cidade não incentiva mulheres a se deslocarem de bicicleta: elas não têm “suas necessidades verdadeiramente consideradas no planejamento e construção das cidades”, não sendo público-alvo dos “interesses hegemônicos” que as controlam.

Assim, é preciso fortalecer espaços de participação, que devem ser amplos e representativos, de acordo com a heterogeneidade da população urbana. A pandemia afetou de formas distintas mulheres, negros, indígenas, LGBTQI+, migrantes e refugiados, pessoas com deficiência, idosos, crianças e adolescentes, e muitos outros grupos. Esse desenho interseccional deve ser realizado para que as respostas não atinjam apenas um segmento específico da população. A cidade heterogênea — ou, melhor, diversa — deve ser levada em consideração no planejamento urbano, já que essa característica não é um problema, sendo, na verdade, uma das grandes riquezas da vida nas cidades. Então como consolidar canais e espaços de participação onde múltiplas vozes possam participar do desenho urbano? Como fortalecer a própria cultura participativa da cidade?

Termino este breve texto com mais perguntas do que respostas. Pautas como os desafios da governança metropolitana e multinível, a (in)sustentabilidade dos padrões de produção e consumo urbanos e a necessidade de democratização do acesso à tecnologia nas cidades também me parecem questões centrais, que merecem atenção nesse debate complexo da pandemia. Se 2020 serviu para abalar as estruturas que suportam e reproduzem o modelo (longe de ser) “normal” da cidade, vislumbro em 2021 e na próxima década de maneira geral um grande desafio pela frente.

As estruturas estão fragilizadas, mas continuam operando. Rompê-las, construindo algo novo que seja sólido e sustentável, parece ainda utópico, assim como o próprio cumprimento integral dos ODS. Mas, retomando Eduardo Galeano, é a utopia no fim do horizonte que nos faz caminhar. Não vejo outra alternativa, a não ser insistir em quebrar de uma vez por todas essas estruturas da “normalidade” para podermos construir um novo lar urbano que seja, de fato, para todas e todos. Um lar, como defende o Relatório Mundial das Cidades 2020 (da ONU Habitat), da igualdade para a equidade na produção urbana. Reinterpretando a obra seminal “O direito à cidade”, do geógrafo francês Henri Lefebvre, é necessário construir uma nova cidade, sobre novas bases, já que a “velha” cidade está morta.

Kelly Komatsu Agopyan é doutoranda e mestra pelo Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo). Graduada em relações internacionais pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Foi assessora para assuntos internacionais da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo.

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