Foto: Regis Duvignau/Reuters - 3.dez.2019

As big techs, o imposto de links e a crise no jornalismo


O alcance da nossa crítica a empresas como Google, Facebook, Apple, Amazon e Netflix deve ir além do véu da onda chamada de techlash

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Nos anos 2000, gostar de cinema iraniano era praticamente obrigatório se você quisesse ser descolado, diferente e intelectual. O cinema iraniano é ótimo, aliás. Mas havia um hype tão grande que muitas pessoas que diziam “adoro cinema iraniano” só queriam se enturmar, pois sequer tinham conseguido assistir a um desses filmes.

Em 2021, o novo cool é se dizer contra as big techs.

Se você não gostou de “O Dilema das Redes”, não acha que vivemos em um mundo orwelliano e nunca culpou as redes sociais pela eleição do Trump, você não é da turma. A diferença entre falar de filmes iranianos sem vê-los e falar mal de Google, Facebook, Apple, Amazon e Netflix sem estudar o problema a fundo é que você pode também estar sendo influenciado por interesses políticos e comerciais que passam longe de boas intenções culturais. Isso não significa dizer que não devemos avaliar criticamente o papel dessas empresas na sociedade. Mas o alcance da nossa crítica deve ir além do véu da onda chamada de techlash.

No Valor Econômico de 20 de março, o presidente da Associação Nacional de Jornais disse que “na era digital, marcada pela proliferação de ‘fake news’, discursos de ódio e incitação à violência, o jornalismo tem a chance de se firmar como a forma mais eficaz de combater esses problemas”. Concordo 100%.

No mesmo artigo, o autor afirma que entrou em vigor nos EUA a “Lei de Competição e Preservação do Jornalismo”, um exemplo de como a regulação está tentando equilibrar a promoção do jornalismo com a ameaça das grandes empresas de tecnologia. Mas a informação está errada: em 10 de março, o projeto de lei foi apresentado no Congresso americano – algo distante de ser aprovado e entrar em vigor.

Erros acontecem. Mas cada vez mais se atribui a responsabilidade pela crise das empresas de jornalismo à atuação das big techs. Há um movimento de indústrias querendo ganhar em cima do momento techlash.

Outro bom exemplo é uma lei australiana aprovada em março e que costuma ser citada como modelo de como a regulação pode ter um papel importante em fazer com que as big techs paguem por isso. Esse é um equívoco gigantesco.

Pela lei, Google e Facebook (nominalmente citados) são obrigados a negociar acordos de licenciamento com publishers para os artigos de notícias que aparecem na busca do Google e no feed do Facebook. Segundo o secretário do tesouro australiano, Josh Frydenberg, “a legislação ajudará a nivelar o campo de jogo e a ver as empresas de mídia de notícias australianas sendo pagas pela geração de conteúdo original.

Uma lei determinando que uma empresa não pode criar um link para outro site salvo se pagar uma espécie de “tributo” é problemática. Ponto. Se isso não convence, há mais dois argumentos: 1) a lei exige pagamento por tráfego. Com isso, estamos criando mecanismos que incentivam empresas a fazer com que as pessoas fiquem presas em seus sites e aplicativos, que vão se autorreferenciar. Se a ideia é combater o domínio de redes sociais e evitar os walled-gardens, essa regra pode fazer o inverso; 2) são os próprios portais de notícias que querem compartilhar seus artigos nas redes sociais e em sites de busca, ou permitir o compartilhamento por outras pessoas – isso gera tráfego e dinheiro. É por isso que as empresas colocam botões de compartilhamento, gastam milhões em otimização de código-fonte para melhorar o SEO (Search Engine Optimization) e investem em profissionais de gestão de mídias sociais.

Cada vez mais se atribui a responsabilidade pela crise das empresas de jornalismo à atuação das big techs. Há um movimento de indústrias querendo ganhar em cima do momento techlash

O processo de aprovação da lei australiana não só foi fortemente marcado pela influência de grupos multinacionais tradicionais, mas também por reações ambíguas e sem sentido de lobistas que defendiam a lei. Dias antes de negociar com o governo australiano, o Facebook parou de aceitar links para sites de notícias para usuários australianos. Imediatamente, a Australian Broadcasting Company, principal conglomerado local, viu o número de downloads de seu app subir exponencialmente, chegando ao topo da App Store. O acesso à página principal dos sites de notícias do grupo “subiu em mais de dois dígitos”. No entanto, o tráfego total (e não só da homepage) dos jornais caiu 93% em um único dia.

Parece que as empresas de mídia queriam que o Facebook “parasse de atrapalhar o negócio de imprensa e focasse no que faz de melhor (vídeos de gatinhos, por exemplo). Mas o próprio governo australiano, que apoiava a lei, foi o primeiro a reclamar.

É uma lógica perversa: o Facebook gera tráfego, mas mesmo assim tem que pagar mais. É como se eu fosse obrigado a dar meu produto de graça para o governo e ainda pagar o imposto sobre seu valor de mercado.

Claro que um número como 93% traz preocupações. É muito poder de influência para poucas companhias. Mas a conversa quando o tema é o papel das big techs na “indústria do jornalismo” deve ser muito mais honesta: as empresas querem mais dinheiro. Muitas não tiveram sucesso com a transformação digital e não conseguiram fazer virar os paywalls – que vão muito bem nos jornais que se posicionam com conteúdo diferenciado, como o New York Times. As receitas de publicidade não fazem verão – parte porque há um percentual grande indo para adtechs como o próprio Google, é verdade, mas também porque alguns publishers se esforçaram muito nos últimos anos para tornar a experiência de anúncios em seus sites irritante.

E a culpa de tudo isso... é das big techs? É dever dessas empresas proteger e assegurar a sobrevivência de determinados serviços ou modelos de negócios de empresas específicas?

Precisamos colocar as coisas certas no lugar certo.

Não deveria, nunca, estar em negociação criar uma taxa sobre links. Isso pode pôr a perder toda conquista social e econômica das últimas décadas. Facebook e Google merecem todo o crédito quando se colocam contra leis como essa. Estão defendendo seus interesses, e também estão defendendo a internet aberta.

Você pode acreditar que essas empresas são um desastre para a rede aberta em outras frentes, como também pode gostar de filmes iranianos e achar que as big techs são péssimas para a concorrência, para a proteção de dados pessoais... e ainda assim reconhecer que, nessa briga, elas estão do lado certo.

Pedro Henrique Ramos é advogado, mestre em direito pela Fundação Getúlio Vargas e doutorando em comunicação pela ESPM.

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