Foto: Lucas Landau/Reuters - 11.abr.2020

A importância de ações mais contundentes da sociedade civil


Os últimos anos deixaram mais clara a necessidade de transformações profundas, estruturais, para mitigar desigualdades e melhorar a qualidade de vida das pessoas

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Feita neste ano pelo Instituto Ipsos, uma pesquisa de opinião dá a medida do desânimo dos brasileiros com a situação do país. De um total de mil entrevistados, 69% afirmaram ter a sensação de viver numa nação em declínio – o maior índice entre os 25 países incluídos no trabalho e 12% superior à média mundial. Outro levantamento recente, feito pelo Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), constatou que o desconforto da população com a economia é o maior em quase 20 anos. Os achados não causam surpresa.

No acumulado de 12 meses até julho último, a inflação brasileira de 9% só não superou a argentina e a haitiana na América Latina. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego no país chegou a 14,6% no segundo trimestre, deixando quase 15 milhões de pessoas sem renda estável. Os investimentos em educação, ciência e cultura vêm diminuindo. A devastação ambiental tem se acentuado. O mal-estar coletivo tornou-se o nosso novo normal.

Os últimos anos deixaram mais clara a necessidade de transformações profundas, estruturais, para mitigar desigualdades e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os nossos grandes anseios e desafios são conhecidos – a diminuição da pobreza, uma educação e saúde públicas de qualidade, maior segurança, a preservação da Amazônia... No entanto, parece ter ficado mais complicado avançarmos nessas grandes agendas em prol do bem-estar coletivo.

A cena política não ajuda. Há tempos a política se afastou da sua finalidade precípua que é trazer resultados para as pessoas, tornando-se um palco de bravatas, ameaças ideológicas, falta de bom senso e outras práticas que não levam o país a lugar algum. Nesse show, que acompanhamos tristemente de longe, não são priorizadas metas concretas, entregas palpáveis e nem projetos para agir nas raízes de grandes problemas. Não à toa, 71% dos participantes da já citada pesquisa da Ipsos acreditam que a economia é manipulada para favorecer os ricos e poderosos. Mas nem toda a culpa nós podemos atribuir aos políticos. Precisamos nos perguntar qual a atuação da sociedade civil organizada.

Mudanças estruturais são possíveis, embora sejam complexas e não ocorram de um dia para outro – seja porque implicam alterações de mentalidade, seja porque mexem com um status quo que interessa a certos grupos e pessoas

Temos visto, felizmente, uma mobilização cada vez maior de investidores sociais, negócios de impacto, organizações, fundações, movimentos e coletivos dispostos a combater mazelas do Brasil. Mas será que nós estamos realmente provocando mudanças? A autocrítica não é fácil, inclusive para eu mesma, após anos de participação em projetos sociais de grande alcance e de estudos sobre advocacy – uma estratégia para a promoção de mudanças políticas, sistêmicas e comportamentais.

É inegável que temos obtido conquistas e avanços, mas a impressão é de que podemos ser mais efetivos. A sociedade brasileira tem uma grande história de financiamento de ações diretas para a caridade e o assistencialismo, extremamente relevantes para quem não conta com o amanhã. Mas também precisamos dirigir esforços para projetos que atuem nas causas-raízes, com escala e de longo prazo – mudanças na educação, na saúde, no sistema político brasileiro, na estrutura tributária e em tantas outras questões que travam o nosso desenvolvimento.

Mas como influenciar mudanças políticas, estruturais, sistêmicas de forma mais precisa? Esse será um tema central do Fórum de Advocacy e Impacto 2021, a ser realizado entre os dias 19 e 21 de outubro pela Impacta Advocacy e pelo Impact Hub Brasília. O evento tem a proposta de compartilhar experiências bem-sucedidas e discutir métodos de atuação para as organizações da sociedade civil – como pressionar tomadores de decisão, como articular, negociar e estabelecer coalizões e como trabalhar com metas de impacto, entre outros pontos. Advocacy Hub, Confluentes, GIFE, Grupo Mulheres do Brasil e Instituto Ethos participam da iniciativa. O Nexo será o parceiro oficial de mídia.

Muitos países desenvolvidos obtiveram progressos incríveis porque contaram com uma sociedade civil organizada, que batalhou incansavelmente pela garantia e também pela implementação de direitos, algo ainda mais desafiador. Não basta termos leis e políticas, elas precisam trazer resultados concretos e melhoria nos indicadores. Algumas dessas organizações estão em atividade há mais de 60 anos, impedindo retrocessos em suas causas, reivindicando melhorias e não deixando governos se acomodarem.

Mudanças estruturais são possíveis, embora sejam complexas e não ocorram de um dia para outro – seja porque implicam alterações de mentalidade, seja porque mexem com um status quo que interessa a certos grupos e pessoas. Na realidade brasileira, os beneficiários das atuais circunstâncias são muito poucos. Por isso, urge pensarmos em como fazer girar realmente a roda das transformações econômicas e socioambientais. Com mais união, estratégia e atuações mais contundentes, poderemos legar um cenário menos desalentador para as próximas gerações.

Daniela Castro é advogada, já atuou como Secretária Adjunta de Esportes e Lazer da cidade de São Paulo. É fundadora e diretora executiva da Impacta Advocacy.

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