Foto: Ricardo Moraes/Reuters

A educação política e a promessa da democracia


Um Estado que se mantém constantemente fechado, inibindo a criação de espaços de articulação, se transforma num ente distante e indecifrável. É a partir das escolas e das ruas que nossa cultura política finalmente será produzida

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Não precisamos ir ao dicionário para lembrar o significado da palavra “democracia”, que se mantém na ponta da língua desde os tempos de colégio: “governo do povo”. Mas saber de cor essa definição não nos deixa aptos a exercer a democracia — e política não costuma ser algo devidamente ensinado nas escolas brasileiras. Se todo governante deve estar preparado para ocupar seu cargo, um Estado que não prepara o povo para a política jamais será capaz de se consolidar como democracia.

O Índice de Democracia Local São Paulo, estudo realizado na capital paulista em 2019, mostrou que 60% dos paulistanos não sabem citar uma instituição política sequer — prefeitura, câmara de vereadores etc. Outra pesquisa, A Política pelo Olhar dos Brasileiros, desta vez realizada em 2020 pelo Instituto Locomotiva e o RenovaBR, revelou que 80% das pessoas não lembravam de seu candidato a vereador nas eleições anteriores. Quando a maior parte da população não faz ideia de em quem votou ou mesmo para que serve seu voto, os alicerces da participação e da representação ficam em falso e as bases da democracia, fragilizadas.

É por isso que precisamos falar sobre educação política. Desta vez o termo não está no dicionário: é um processo de debates, discussões e busca por informações que disponibiliza ao cidadão um repertório para capacitá-lo a participar da política de forma ativa, consciente e comprometida, tornando-o protagonista do processo democrático.

Mas participação ativa não se refere simplesmente à política institucional. Ainda que a atuação partidária ou associativa seja parte da democracia, entender as “regras do jogo” e suas nuances é, por si só, fundamental para que, direta ou indiretamente, todos possamos influenciar os rumos do país. Se podemos enxergar o país como o barco em que todos estamos, não há dúvidas de que a política é o remo. Quando não sabemos remar — ou seja, não temos educação política — somos incapazes de sair do lugar.

O Lationobarómetro informa que, entre as 82 democracias no mundo, apenas em sete a educação política não faz parte dos currículos escolares — o Brasil é uma delas. Já o Democracy Index mostra que, embora tenhamos subido duas posições no ranking de 2020, nossa cultura política segue muito baixa: numa escala de 0 a 10, a nota não chega a 6.

Quem muda a política não são apenas os políticos, mas, acima de tudo, quem vota, quem conversa com quem pensa diferente, quem vivencia a cidadania

Essa situação não está descolada de nossa história. O fato de termos vivido muitos períodos autoritários ao longo do tempo nos deixa mais resistentes a assimilar uma cultura política democrática. Um Estado que se mantém constantemente fechado, inibindo a criação de espaços de articulação, de conversa e de coprodução junto à sociedade, se transforma num ente distante e indecifrável. Gerações de brasileiros cresceram ouvindo que política é algo “sujo” de que devem se manter longe. Não é de se estranhar, portanto, que a educação política tenha sido deixada de lado.

Mas isso está mudando. Desde as manifestações de 2013 é perceptível que, de maneira geral, o interesse por temas políticos vem aumentando. A política passou a dominar o WhatsApp e as mídias sociais, tornando o debate constante — ainda que polarizado. Precisamos, entretanto, entender essa polarização como um sintoma da mudança, o ponto de inflexão que nos fez enxergar um complexo espectro político até então oculto. E, mais do que qualquer outra coisa, ao gerar essa enorme quantidade de notícias e informações falsas, compartilhadas como verdades por gente de todas as classes sociais e graus de escolaridade, a polarização e a internet escancararam a importância e a necessidade urgente da educação política.

Isso já foi percebido por educadores. Aprovada em 2017, a reforma do ensino médio prevê que 40% das grades curriculares sejam ocupadas por um conteúdo eletivo diversificado direcionado às áreas de conhecimento e formação profissional. Quando o Politize! lançou a Escola da Cidadania Ativa, iniciativa que tem como objetivo preparar os estudantes brasileiros para o exercício da cidadania em grande escala, oferecendo apoio às redes estaduais de educação na oferta de um itinerário formativo de 900 horas/aula voltado à liderança e à cidadania, a resposta foi rápida e entusiasmada: 21 secretarias estaduais de Educação já se interessaram em levar esse material às salas de aula.

Mas a educação política não precisa — ou melhor, não deve — ficar restrita ao ensino formal. Outro fruto das manifestações de 2013 foi a emergência de novas organizações da sociedade civil que, cada vez dialogando mais entre si, estão dedicadas a promover a experiência política e conhecimento para brasileiros e brasileiras de qualquer idade. Junto do Politize!, Pacto pela Democracia, Nossas, Engajamundo, Poder do Voto, Instituto Sivis e Delibera Brasil, entre muitas outras, vêm levando essa pauta a todas as regiões do país.

Cada vez encontramos mais pessoas com vontade de atuar, de maneira pública e plural, como agentes da transformação em suas comunidades. Luma Mattos, de 25 anos, é uma delas. Durante a campanha eleitoral de 2018, ao ver a violência tomar conta do debate, ela decidiu buscar uma maneira de estimular o diálogo e disseminar a cultura política na cidade de Alagoinhas, no interior da Bahia. Foi assim, na formação de Embaixadores Politize! de 2019, que a conhecemos. No ano seguinte, Luma se elegeu a mais jovem vereadora de seu município — mobilizando meninas que se identificaram com essa jovem mulher negra ocupando o espaço político.

Histórias incríveis não faltam. Poderíamos contar também as de Karla Susiane, Isaac Santos, Pedro Chaves e literalmente milhares de outros que, aos poucos, estão mudando a política brasileira. E quem muda a política não são apenas os políticos, mas, acima de tudo, quem vota, quem conversa com quem pensa diferente, quem vivencia a cidadania. É a partir das escolas e das ruas que nossa cultura política finalmente será produzida. É assim que, parafraseando Norberto Bobbio, a promessa da democracia finalmente poderá ser cumprida.

Gabriel Marmentini é doutorando e mestre em administração e bacharel em administração pública. É diretor executivo do Politize!

Kamila Nunes da Silva é professora e mestre em história. É gestora do Núcleo Escolas do Politize!

Mariana Fernandes é jornalista e gestora do Núcleo de Comunicação e Conteúdo do Politize!

Vinícius Zunino é engenheiro de produção elétrica e gestor do Núcleo de Líderes do Politize!

O Politize! é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos com a missão de formar uma geração de cidadãos conscientes e comprometidos com a democracia.

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.