Foto: Ueslei Marcelino/Reuters - 11.abr.2021

A covid-19 acabou com o ‘efeito mandante’ no Brasileirão?


Sem público nos estádios, times de futebol encontraram dificuldades para manter o mesmo rendimento que tinham com a presença e o apoio da torcida

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Alguns dizem “o Flamengo não perde no Maracanã”. Outros falam “na Arena, ninguém tem chance contra o Grêmio”. Deve haver uma frase dessas para cada time no Brasil porque é sabedoria popular que o time mandante tem vantagem no futebol. E isso por vários motivos: a equipe visitante enfrenta a torcida adversária, precisa viajar por horas e viver em hotel, joga em campo diferente — onde não conhece os “atalhos” —, enfrentam altitudes elevadas, climas adversos e muito mais.

Há vários estudos acadêmicos sobre o tema para o Brasil. Por exemplo, Pollard et al. (2008) e Shikida et al. (2018) concluem que equipes mandantes marcam mais gols e ganham mais pontos. Ambos tentaram entender por que isso acontece e argumentaram que o deslocamento de times visitantes importa muito no Brasil, afinal, trata-se de um país de tamanho continental.

Mas o que aconteceu no Brasileirão 2020-2021 durante uma pandemia inédita que abalou o mundo? Esse ano teve de tudo no campeonato: desde técnicos e times inteiros contaminados até a ausência da torcida nos estádios em todos os jogos. Se o efeito mandante era forte antes, pode ser que tenha acabado sem torcedores para dar força aos times?

Até 2019, os times paulistas e do Sul tinham uma vantagem maior de jogar em casa. Quem parecia não ter nenhuma vantagem eram o Atlético-GO, o Bahia, o Sport Recife

Neste artigo, vamos explorar essa pergunta com os dados do Brasileirão disponibilizados na plataforma Base dos Dados. A BD mantém um repositório de dados públicos com mais de 30 conjuntos de dados limpos, integrados e atualizados. No repositório, é possível encontrar microdados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), SIM (Sistema de Informações de Mortalidade), do Censo Demográfico, dentre muitos outros, inclusive os dados históricos atualizados do Brasileirão.

Com dados de todas as partidas de 2003 a 2021 — número de gols, estádio, árbitro —, conseguimos testar empiricamente algo que está na cabeça dos fãs do esporte em todo o Brasil. Fizemos três perguntas: 1) qual é a probabilidade de vitória de mandantes?; 2) qual é a relação entre tamanho da torcida presente e a probabilidade de vitória de mandantes?; e 3) houve mudanças no efeito mandante entre 2003-2019 e 2020-2021?

Neste gráfico, respondemos a primeira pergunta. Fica claro que a probabilidade de vitória do mandante gira sempre ao redor de 50%, um pouco mais ou um pouco menos com o passar dos anos. Nada muito diferente do que jogar uma moeda para cima — um resultado basicamente aleatório.

Gráfico mostra a tendência de probabilidade de vitória do time mandante no Brasileirão, no período de 2003 a 2020

E será que, na média, ter torcida maiores é positivamente correlacionado com a probabilidade de vitória do mandante? É bem fácil responder a essa pergunta com os dados na mão. No gráfico abaixo, encontramos uma relação positiva. Há um efeito não muito grande e que ainda diminui quanto maior é a torcida. Não é algo muito surpreendente. Mas essa é uma comparação que esconde ainda muita informação. Por exemplo, pode ser que times melhores tenham torcidas maiores e uma chance incondicional maior de vitória. Para solucionar essa dúvida, usamos os dados detalhados completos e fizemos uma análise multivariada.

Gráfico mostra a relação de probabilidade de vitória do time mandante e tamanho do público, no contexto do Brasileirão

Para estimar o efeito mandante na probabilidade de vitória da partida, realizamos os seguintes passos: rodamos uma regressão linear a nível da partida onde regredimos a variável indicadora de vitória do mandante em indicadoras para cada time, além de indicadoras para ano, mês e horário. Ou seja, nossos resultados já levam em conta o fato de que certos times têm probabilidades maiores ou menores de vitória. Uma ressalva importante, claro, é que só temos dados do Brasileirão sob covid-19 para um campeonato. Isso diminui a precisão das estimativas.

Nossos resultados estão resumidos neste último gráfico. Basicamente, o efeito mandante, que até 2019 era positivo para quase todos os times, desapareceu no Brasileirão 2020-2021. Até 2019, os times paulistas e do Sul tinham uma vantagem maior de jogar em casa. Logo depois vem alguns cariocas e outros mineiros. Quem parecia não ter nenhuma vantagem eram, por exemplo, o Atlético-GO, o Bahia e o Sport Recife.

Gráfico mostra dados do "efeito mandante", que ocorre no campeonato Brasileirão, antes e durante a pandemia de covid-19

O mais interessante é que isso tudo praticamente desaparece em 2020-2021. Quase todos os coeficientes ficam estatisticamente indistinguíveis de zero (e é tudo mais impreciso, claro). Ou seja, sob covid-19, o efeito mandante parece nulo. Não dá para afirmar com certeza, mas o mais provável é que isso seja explicado pela ausência de torcida, dado que outros fatores ainda se mantiveram constantes, como o deslocamento dos times e hotéis.

Nosso código de captura e análise dos dados está inteiramente disponível nos repositórios da Base dos Dados. O objetivo do projeto é universalizar o acesso a dados no Brasil e, por isso, convidamos todos a explorar esses dados de futebol e todos os outros disponíveis no catálogo.

Ricardo Dahis é economista, aluno de PhD na Northwestern University e cofundador da Base dos Dados.

Eduardo Bartholomay é aluno do mestrado em economia aplicada na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e graduado em Ciências Econômicas pela UFPEL (Universidade Federal de Pelotas).

Colaborou com gráficos Lucas Gomes.

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