Foto: Gil Leonardi/Divulgação

Sobre ausências e a vã construção de um esquecimento nacional


A ausência de monumentos que retratam a difícil história da sociedade brasileira não apaga a dificuldade; pelo contrário, essa ausência transmite a mensagem de que a injustiça continua

“Fui para cama e quando dormi, tive um pesadelo como nunca antes. Era como se meu espírito estivesse preso na mina e houvesse pessoas lá me batendo, e tentei sair, mas não pude. Senti aquela aflição. De repente, quando eu menos esperava, um Preto Velho aparece dizendo ‘você vai deixar este lugar e eu vou ajudá-lo’. E ele me ajudou a sair, mas ele estava me xingando todo o caminho. Quando saímos, vi muita gente trabalhando dentro da mina e meu espírito saindo. Você sabe por que eu tive esse sonho? Grupos inimigos do século 18, inimigos ali e inimigos aqui, e os negros não se davam bem, é por isso que nunca houve uma rebelião. A maioria dos afrodescendentes aqui de Ouro Preto, eles não gostam de entrar nas minas. Na maioria das vezes o problema não é você, você é branca, é com outro preto como eu.”

Esse sonho, que contei no livro “The Politics of Memory: Urban Cultural Heritage in Brazil” me foi relatado por um guia turístico em Ouro Preto. Negro, descendente de escravizados, ele oferece roteiros para explorar antigas minas de ouro, onde muitos morreram no século 18. Esse sonho é uma forma de explicar aquilo que não está nos livros: como em uma população em que mais de 80% dos moradores eram escravizados não houve rebeliões bem-sucedidas contra os senhores escravistas? A violência perpetrada, embora muito explorada em museus que sobre a escravidão somente exibem instrumentos de tortura, não dá conta de explicar o dia a dia dos escravizados. Em um contexto de completa ausência de biografias e relatos escritos por escravizados no período, sonhos, ou melhor, pesadelos, assombrações, barulhos sem explicação, e a presença do espírito dos escravizados em territórios por eles antes ocupados dão conta desse vazio.

É muito comum em lugares como Ouro Preto, maior exportador de ouro da América Latina para a Europa em tempos coloniais, ouvir relatos de pessoas que têm sonhos perturbadores com escravizados. Ouvir passos, ver figuras estranhas e a presença de espíritos são formas de contar o passado tão ignorado na historiografia dessa cidade patrimônio histórico da humanidade.

As minas de ouro revelam hoje o retrato da história contada por aqueles que herdaram esse passado. Os guias turísticos de Ouro Preto, principalmente os guias de minas, são em sua maioria negros e descendentes de escravizados. Antes de entrar na mina com eles, é preciso pedir permissão para saber se sua presença é bem-vinda. Nesse caso, quem autoriza não é o antigo dono da mina, o senhor branco, mas os antigos escravizados. Você sabe se está autorizado se, ao entrar na mina, não passar mal com dor de cabeça ou falta de ar, não cair e não bater a cabeça nos corredores baixos e estreitos. A ocorrência desses pequenos acidentes simboliza que sua presença não foi aceita.

O passado segue latente pela ausência do Estado em reconhecer que, para vítimas de racismo, não existe a possibilidade de distanciamento da história

Essa é uma inversão de poder. Espaços antes controlados por senhores brancos, espaços de extrema violência contra escravizados, onde antes havia mutilação, estupro e morte, são hoje espaços controlados pelos escravizados. Mas a história de empoderamento dos antigos escravizados nas minas não chega à tona, literalmente. Acima desses contos subterrâneos, as estátuas são brancas, os nomes das ruas lembram uma outra história, a dos inconfidentes.

O Brasil republicano, principalmente durante o governo de Getúlio Vargas, definiu uma memória coletiva nacional. Divisões de classe, gênero, regiões, e raça foram suprimidas por meio de um enfoque em um inimigo externo, os colonizadores. Dessa forma, movimentos de independência ganharam proeminência na formação de uma memória nacional, e que, por essa razão, foi principalmente barroca.

Dos movimentos de independência, foi a Inconfidência Mineira que ganhou maior destaque. Aquele movimento no final dos anos 1700 nos deixou um herói nacional, Tiradentes. Sendo o menos afortunado dentre os ricos conspiradores, foi ele quem assumiu a maior culpa e, em vez de preso ou exilado como os demais, foi enforcado e esquartejado, com sua cabeça exibida em praça pública em Ouro Preto, hoje, praça Tiradentes em sua homenagem.

Contudo, em vez de olhar Tiradentes como um herói nacional e exemplo de coragem e bravura, muitos ouro-pretanos veem nessa estátua o retrato de mais uma injustiça dos mais fortes contra os mais fracos e se solidarizam com Tiradentes, mas não como o Estado antecipou, pois governantes ficam mais uma vez reconhecidos como promotores da violência.

Criar uma história hegemônica em uma sociedade heterogênea é simplesmente impossível. As tentativas do Estado fracassaram. Nunca houve uma dicotomia perfeita entre colonizados e colonizadores. Entre os daqui, havia mulheres, escravizados, indígenas, cada qual com sua luta em uma sociedade desigual. Os bandeirantes expressam essa complexidade. Enfrentando os colonizadores na Guerra dos Emboabas, e por isso muitas vezes celebrados, esses mesmos bandeirantes destruíram florestas e escravizaram, tal qual os colonizadores, na busca por riquezas e terras. Por mais desconfortável que seja para o Estado, enquanto ator de violência, o passado precisa ser exibido sob o risco de perpetuar essa mesma violência. Até porque a ausência também transmite uma mensagem, do apagamento de outras figuras da história local.

Em meu livro, conto um desses relatos que perduram nas minas, mas que não têm fontes oficiais: a história de Chico Rei. “Chico era rei de uma tribo no Congo antes de ter sido vendido como escravo e traficado para o Brasil. Grande conhecedor de geologia, ele sabia achar a veia da mina e seu ouro como poucos. Seu antigo dono, doente, tinha uma mina que não dava ouro, e ofereceu a ele a chance de herdar essa mina. A proposta era arriscada. Se não houvesse ouro, ele ganhava uma dívida. Se achasse ouro, poderia pagar a mina e sua liberdade. Essa mina então infértil, nas mãos de Chico, deu ouro. Ele comprou sua alforria e a de outros companheiros. Ficou então conhecido em Ouro Preto como Chico Rei. Logo essa história causou indignação ao império, como um escravizado pode virar rei em Ouro Preto? Incomodados com o exemplo que Chico poderia causar entre seus antigos pares, lhe ofereceram voltar à África e levar consigo seu povo e fortuna. Chico aceitou. Ele tinha acumulado riquezas no Brasil e era rei, mas como negro, ele não era ninguém. Era sempre visto como uma ameaça ou inferior aos olhos dos brancos.”

Como Chico, que virou rei, mas não achava seu lugar no Brasil, hoje, negros na sociedade brasileira não conseguem o reconhecimento que deveriam ter. Ainda que com dinheiro, ao entrar em lojas e bancos, são imediatamente vistos por seguranças, preteridos em ofertas de emprego e alvo de ações policiais. A ausência de monumentos que retratam a difícil história da sociedade brasileira não apaga essa dificuldade; pelo contrário, essa ausência transmite a mensagem de que a injustiça continua.

É preciso deixar vir à tona esse passado; ele foi enterrado, mas segue vivo na história oral, em traumas, e nas interpretações de monumentos. Mais ainda, esse passado segue latente exatamente pela ausência do Estado em reconhecer que, para vítimas de racismo, não existe a possibilidade de distanciamento da história. Evitar o choque com um passado de violência apenas significa que essa violência já virou rotina.

Andreza Aruska de Souza Santos é professora na Universidade de Oxford e diretora do Centro de Estudos sobre o Brasil na mesma instituição. Ela é autora de “The Politics of Memory: Urban Cultural Heritage in Brazil”. @Andreza_Aruska, para segui-la no Twitter.

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