Foto: Divulgação/Tenondé_Porã

Saberes tradicionais guarani e o último rio vivo de São Paulo


Localizadas em regiões periféricas da capital paulista, comunidades Guarani Mbya estão oferecendo soluções para a crise ambiental e fortalecendo suas próprias formas de preservar a Mata Atlântica

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A pandemia causada pela covid-19 não é tempestade passageira. Esse período de profundas adversidades não faz mais que refletir o modo de produção capitalista sobre a sociedade e a natureza. São cada vez mais destrutivas as consequências que essa forma de acumulação impõe sobre comunidades e territórios.

Segundo a cosmologia Guarani Mbya, tudo o que se faz na terra tem um retorno. Assim, a atual crise sanitária poderia ser uma oportunidade para uma transformação social em direção a hábitos mais saudáveis e sustentáveis. Entretanto, a vigência dos modelos neoliberal e autoritário na gestão da pandemia tem colocado na berlinda a vida de grupos vulneráveis e do próprio ecossistema.

Na tentativa de garantir a segurança do seu povo, os Guarani Mbya optaram por redobrar os cuidados de isolamento em relação à entrada de pessoas de fora. É um momento de fortalecimento da coletividade das aldeias e dos costumes tradicionais, em uma relação não-mercadológica com a terra.

Em uma área antiga de ocupação guarani, que se estende desde o centro-oeste brasileiro até o sul do Paraguai, São Paulo abriga duas terras indígenas, que somam 14 aldeias e mais de 2 mil habitantes. A TI Jaraguá, na zona noroeste, teve seu território reconhecido em 2015, com 532 hectares, e a TI Tenondé Porã, localizada em Parelheiros, no extremo-sul da capital, em 2016, com 16 mil hectares de áreas oficialmente declaradas pelo governo federal.

Se ainda existe água limpa na capital paulista é porque houve muita luta indígena. O rio Capivari, por exemplo, é o último grande rio limpo do município, passando por dentro da TI Tenondé Porã e abastecendo os reservatórios do Sistema Guarapiranga. Além de ser essencial para o povo guarani, o rio tem seus benefícios estendidos para fora das aldeias.

A situação decadente dos sistemas hídricos de São Paulo evidencia problemas estruturais que a urbanização impôs, sobretudo, às populações tradicionais e periféricas

Dentro das comunidades, jovens e crianças participam da recuperação e manutenção de nascentes, açudes, olhos d’água e córregos. É ensinado de geração em geração que não se deve poluir a natureza, desperdiçar água ou sabão, e que o lixo inorgânico demora para decompor, agredindo o solo.

Essa preservação ambiental só é possível porque os povos tradicionais estabelecem uma relação com o território completamente diferente da lógica extrativista e especulativa que predomina no espaço urbano.

O trabalho na terra indígena tem como finalidade a manutenção das comunidades e não a geração de lucro. Portanto, na relação entre os parentes, cada qual assume o papel de autoria das condições de sua realidade.

Em entrevista conosco, o engenheiro agrônomo Merci Pereira Fardin, doutorando no programa de pós-graduação em política social da Universidade Federal do Espírito Santo, afirmou que a situação decadente dos sistemas hídricos de São Paulo evidencia problemas estruturais que a urbanização impôs, sobretudo, às populações tradicionais e periféricas.

Segundo Merci, a impermeabilização do solo e a canalização dos rios, que são técnicas da sociedade moderna, trazem sérios problemas ao ciclo hidrológico, prejudicando a manutenção dos volumes de água em níveis demandados para a cidade. Isso resulta da transformação da natureza em propriedade privada e fonte de acumulação de riqueza.

No modo de vida guarani, ou Nhandereko, não faz sentido pagar ou gerar lucro a partir de um benefício que Nhanderu (divindade) oferece gratuitamente a todas as pessoas. Há o entendimento de que os juruá (não-indígenas) precisam criar consciência de que a natureza não é propriedade individual, mas, sim, coletiva.

A sociedade capitalista impõe uma série de limites aos povos indígenas e outras comunidades tradicionais. Coexistindo com a urbanização voraz e com as determinações da modernidade, as conquistas políticas passam a representar uma via imprescindível para garantir estratégias de proteção desses povos, que, na maior parte das vezes, são negligenciados ou marginalizados.

A título de exemplo, para abastecer novas aldeias, integrantes de algumas aldeias guarani transportavam água de duas nascentes próximas com ajuda de baldes e garrafas. Uma água barrenta que causava diarreia nas crianças. A Secretaria Especial de Saúde Indígena, órgão do Ministério da Saúde, não realizava os devidos aportes de infraestrutura para o abastecimento adequado.

Atualmente, com cooperação técnica e suporte financeiro do Programa Aldeias, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, foram implantados em algumas aldeias sistemas de captação, aquecimento e filtragem da água, tornando-a potável e seu descarte ecológico.

O programa, que é uma conquista das comunidades junto ao governo, tem sido uma alternativa para o fortalecimento da cultura indígena guarani. Criado em 2014, é executado, atualmente, em parceria com o CTI (Centro de Trabalho Indigenista). Sua atuação consiste, principalmente, no incentivo a um trabalho que os guarani já realizavam de preservação da Mata Atlântica, a partir de práticas de conservação ambiental.

Assegurar a continuidade das ações implantadas nas TIs é uma forma de ampliar a restauração da biodiversidade das áreas degradadas da floresta. O plantio tradicional e as técnicas agroecológicas ajudam no cuidado com a terra, bem como as obras sustentáveis de engenharia hídrica asseguram o fluxo natural de rios e nascentes.

Em 2016, junto aos órgãos públicos do município, as comunidades guarani, articuladas através da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), iniciaram uma nova luta através da elaboração do PL 181/16. O projeto tem objetivo de garantir a continuidade dos trabalhos de gestão territorial e ambiental das terras indígenas. Esse PL, que defende o cinturão verde guarani, está sendo debatido na Câmara Municipal. A aprovação ainda depende de uma segunda votação, além da sanção do prefeito Bruno Covas.

Franciani Bernardes é jornalista, doutora em ciências da comunicação e militante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação.

Tiago Karai é indígena, membro da coordenação geral da comissão Guarani Yvyrupa e compõe a liderança da TI Tenondé Porã, em São Paulo-SP.

Verá Mirim Marcio M. Boggarim é indígena, compõe a liderança da TI Jaraguá, em São Paulo-SP.

Este texto foi elaborado a partir de um diálogo entre integrantes do Intervozes e lideranças indígenas guarani, como parte da campanha pela aprovação do Projeto de Lei do #CinturãoVerdeGuarani, que busca fortalecer as terras indígenas e a cultura do povo guarani na cidade de São Paulo. A campanha é uma realização da CGY (Comissão Guarani Yvyrupa), em parceria com o CTI (Centro de Trabalho Indigenista) e o Intervozes, apoiado pela Fundação Rosa Luxemburgo.

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