Foto: Nacho Doce/Reuters

Rumo das coisas: a política para a cultura no governo Bolsonaro


Que o atual governo — inteiramente parasitário em sua incultura — irá passar, isso é um dado. O que está em jogo é o seu grau de destruição

Lembro de ter ouvido numa das aulas-espetáculo de Ariano Suassuna ele contar que, quando trabalhou como secretário da Cultura de Pernambuco, de 1994 a 1998, no governo de Miguel Arraes, este o chamou logo no início e disse: “O que vocês fazem é muito importante. Aos políticos cabe administrar e executar as coisas, mas os rumos para onde se deve ir são vocês da Cultura que apontam”.

Quando penso nessa frase, entendo a obsessão estratégica do atual governo em demolir qualquer incentivo à produção de arte e de cultura no país. Os exemplos de descaso intencional são tantos, os atos e as declarações dos responsáveis pelo setor são tão desprovidos de fundamento, que não merecem ser mencionados. O fato é que tudo o que constitui a produção intelectual, técnica, estética e sensível de um país ameaça este governo. Por quê?

Uma das funções da arte é propor perguntas de longo alcance. Para isso, ela escava a realidade e a imaginação e, nesse processo, acaba trazendo à tona o que estava oculto, de modo que um poema, um filme, uma peça, uma canção, compostos noutro tempo e lugar, podem de forma repentina iluminar o presente.

Na edição dos poemas de Brecht traduzida e organizada por André Vallias, que saiu há pouco pela editora Perspectiva, encontro um dos poemas que o autor alemão escreveu em 1941 quando soube da morte de seu amigo Walter Benjamin, ocorrida um ano antes, na fronteira da França com a Espanha.

Reproduzo aqui “Ao suicídio do fugitivo W.B.”:

No Brasil de 2020, alguns versos soam como que talhados sob medida. Refiro-me expressamente à estrofe central: “Os chefes de quadrilha/ Avançam como homens de Estado” — aqui a verdade do poema é tão evidente que dispensa comentários.

É justamente isto que esse governo, enamorado da morte e ocupado em distribuir armas à população, é incapaz de compreender e produzir: força da arte, alegria de viver

“Não/ se vê mais os povos sob os armamentos” — penso no empenho doentio do atual governo em liberar o uso de armas de fogo para a população, que resultou — conforme reportagem de Gil Alessi no El País em 27 de julho de 2020 — num crescimento inédito do “número de registros de novas armas de fogo concedidos pela Polícia Federal em todo o país”; crescimento que se deve, “de acordo com pesquisadores, às portarias e decretos assinados pelo presidente Bolsonaro”. Em termos comparativos, esse número aumentou 205% em relação ao mesmo período no ano passado; no Distrito Federal, próximo ao centro do poder, o aumento foi de 1.429%. Vale lembrar que, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) citados na matéria por uma especialista, “de um ponto de vista amplo, pesquisas apontam que a cada 1% a mais de armas na população temos um aumento de 2% dos homicídios”.

O resultado da “quadrilha” no comando do Estado e da liberação indiscriminada às armas se estampa na abertura da terceira estrofe: “Assim o futuro jaz na escuridão” — milhões e milhões de brasileiros assinariam hoje esse verso de Brecht.

Outra das funções da arte consiste em, ao revolver as múltiplas camadas da história, arejar o tecido social e assim nutrir, proteger, expandir e fazer acontecer as energias criativas de um país. É significativo o recente episódio envolvendo a apropriação indébita por parte da deputada federal Carla Zambelli da composição “Xiquexique” de Tom Zé e José Miguel Wisnik, feita para o espetáculo “Parabelo” — a pedido do Grupo Corpo, de Minas Gerais, desviada dos valores de seu contexto para servir a uma peça de propaganda do presidente em exercício —, e a resposta de José Miguel, em vídeo tornado público, ajuda a compreendê-lo.

Após denunciar a operação “de alavancagem de Jair Bolsonaro no Nordeste”, declara que o uso da música naquela peça de propaganda “vai contra tudo aquilo que acreditamos e tudo aquilo que essa música representa como alegria de viver, como força da cultura popular nordestina e como força da arte”.

O episódio e a resposta não devem ser esquecidos porque expõem com clareza justamente aquilo que esse governo, enamorado da morte e ocupado em distribuir armas à população, é incapaz de compreender e produzir: força da arte, alegria de viver.

Às vezes me pego ouvindo Jorge Ben Jor e me perguntando o que aconteceu; onde está o país que era capaz de fabricar uma alegria rítmica e poética do tamanho dessa música? Parece que caímos num buraco negro e fomos parar noutra galáxia.

Mas o poema de Brecht, a resposta de José Miguel (o primeiro porque me diz em que momento da história estamos, o segundo porque recorda quem somos e o que fazemos), me dão alguma esperança. Que o atual governo inteiramente parasitário em sua incultura irá passar, isso é um dado. O que está em jogo é o seu grau de destruição.

Alberto Martins é escritor e artista plástico, e trabalha como editor na Editora 34, em São Paulo.

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