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Por que um programa de trainee está gerando tanta controvérsia


Estatísticas evidenciam as desigualdades raciais e têm alicerçado a adoção de ações afirmativas em muitos países, inclusive nas empresas. Não deveria ser diferente no Brasil

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No dia 18 de setembro, o Magazine Luiza anunciou um programa de trainee exclusivo para profissionais negros. Imediatamente, criou-se uma enorme polêmica nas redes sociais. Entre os argumentos usados por alguns críticos, havia um velho conhecido dos estudiosos de relações raciais e da luta antirracista: a acusação de racismo reverso. Nas redes proliferaram perguntas como “e se o programa fosse voltado unicamente para jovens brancos?”.

Nossa posição é inequívoca: o Programa de Trainee 2021 do Magazine Luíza não é racista. Uma pesquisa do Instituto Ethos, de 2016, mostrava que os negros ocupam apenas 6,3% dos cargos de gerência e 4,7% dos postos de direção nas 500 maiores empresas do Brasil. Na época do levantamento, pretos e pardos correspondiam a 54,9% da população brasileira.

Os afro-americanos constituem cerca de 13% da população dos EUA e ocupam 9,4% dos cargos de direção nas 100 maiores companhias listadas pela revista Fortune, de acordo com informe do The Executive Leadership Council. Assim, para atingir uma representação de negros no mundo empresarial proporcionalmente próxima daquela encontrada nos Estados Unidos, o Brasil deveria contar com cerca de 40% de negros em postos de liderança empresarial, um percentual 8,5 vezes superior aos atuais 4,7%.

A julgar pelos dados do mundo empresarial, a desigualdade racial presente na nação que foi imaginada como uma democracia racial, um paraíso da convivência entre negros e brancos, é substancialmente maior do que a encontrada no país que, juntamente com a África do Sul, representaria o exemplo mais bem-acabado de sociedade racista. Eis uma verdade inconveniente para nós, brasileiros.

Estatísticas como essas evidenciam as desigualdades raciais e têm alicerçado a adoção de ações afirmativas em muitos países, inclusive nas empresas. Não deveria ser diferente no Brasil, país no qual o racismo se entranhou estruturalmente desde a origem colonial escravista e tem se reproduzido com permanências e mutações.

Racismo reverso? Só se nossa formação histórica tivesse sido diferente. Só se os negros tivessem, em algum período, controlado os aparatos político-militares e socioculturais, que os levassem a produzir uma economia baseada no trabalho não-remunerado de pessoas brancas, vendidas como mercadorias no tráfico transatlântico. E se, além de toda a brutalidade física, esses mesmos negros tivessem impetrado aos brancos, por meio de um sistema ideológico, uma violência simbólica equivalente àquela do racismo antinegro, que tentou incutir na população de pretos e pardos um sentimento de inferioridade intelectual e estética.

Há outro velho argumento que se articula à acusação de racismo reverso nesse imbróglio. A alegação de que não existem raças entre os seres humanos e que, portanto, programas como o do Magalu não têm cabimento.

Sabemos que a ideia de raça não possui fundamento científico desde os anos 1960, quando a biologia molecular e a genética das populações desmontaram as bases da raciologia, a pseudociência das raças fundada no século 18. Mas, as descobertas científicas não alteram necessária e imediatamente o imaginário social. “Não, a raça não existe. Sim, a raça existe. Certamente ela não é o que dizem que ela é, mas ela é, contudo, a mais tangível, real, brutal das realidades”, afirmou, em 1972, a socióloga francesa Colette Guillaumin.

Já o racismo moderno se esconde por detrás de noções como etnia, cultura e identidade. Mas a complexidade não se encerra aí. A ideia de racialização tem sido utilizada nos debates socioantropológicos para fazer referência ao que está em disputa em torno da ideia de raça.

Racismo reverso? Só se nossa formação histórica tivesse sido diferente

Nesse movimento procura-se enfrentar questões como: toda vez que essa ideia é mobilizada, o racismo está presente? E quando é acionada por um grupo que visa não inferiorizar um outro, mas se constituir como força política, reivindicar direitos que lhe foram negados, justamente por terem sido inferiorizados como uma raça? É adequado combater o racismo recorrendo ao vocabulário racial?

Elas não têm uma resposta simples. Mas, se todo racismo é uma forma de racialização, uma vez que recorre ao vocabulário racial, nem toda racialização pode ser taxada de racista simplesmente por lançar mão desse léxico.

Essa complexidade está na base da controvérsia em torno do Programa de Trainee do Magalu, que não é a única companhia a criar um programa desse tipo voltado para jovens negros. No mesmo dia em que seu programa foi anunciado, a multinacional Bayer divulgou uma ação muito semelhante. Tais iniciativas remontam ao início dos anos 2000, quando os principais bancos que operavam no Brasil, em razão de um complexo jogo político, iniciaram esse processo, conforme documentado no livro “Executivos negros: racismo e diversidade no mundo empresarial”.

Desde então, tal prática se disseminou para outros segmentos econômicos, como o da publicidade e o dos grandes escritórios de advocacia. Entre outros fatores, isso se deveu ao ativismo antirracista e aos Termos de Ajustamento de Conduta que vêm sendo pactuados entre empresas e o Ministério Público do Trabalho.

Gestores e lideranças empresariais não podem mais ignorar essa agenda. Ela não tem a abrangência das políticas públicas na promoção da equidade racial, mas são um alento. Permite-nos imaginar novos tempos, muito mais prósperos e justos.

Pedro Jaime, pardo, é antropólogo, professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e do Centro Universitário FEI (Fundação Educacional Inaciana) e autor do livro “Executivos negros: racismo e diversidade no mundo empresarial” (Edusp, 2016).

Danilo Cardoso, preto, é administrador formado pela FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo) e profissional da área comercial da Magazine Luiza, empresa na qual ingressou pelo Programa de Trainee 2019.

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