Foto: Damis Sagojl/Reuters

Por que é importante repensar o lugar dos pobres no jornalismo


Imprensa brasileira desumaniza as classes populares ao limitá-las à lamentação de suas vivências em detrimento de seus saberes e ações propositivas

Entre as várias finalidades historicamente atribuídas ao jornalismo, muitas delas possuem uma forte dimensão social. Cito rapidamente pelo menos três: “fortalecer a democracia”, “estimular a cidadania” e “visibilizar as diferenças”. Reconhecendo a relevância desses papéis e valores, parece-me extremamente oportuno compartilhar uma reflexão sobre como as pessoas em situação de pobreza são representadas no jornalismo brasileiro. Meu convite à crítica não parte de um olhar totalizante, pois compreendo que a atividade jornalística é plural e comporta um grande universo de formas de narrar.

Penso ser pertinente, como ponto de partida, ressaltar que toda representação se ancora na linguagem e nas suas complexas relações de poder. É sempre com base num conjunto de discursos e imaginários que o jornalismo reporta acontecimentos, temas e questões. Incluem-se aí as representações das populações periféricas dos grandes centros urbanos e das comunidades rurais empobrecidas do nosso país. Imagens e sentidos, vale ponderar, nunca são uma criação absoluta do discurso jornalístico, uma vez que já circulam em outros ambientes e instituições como, por exemplo, a família, a escola, a igreja e o Estado.

Assim como ocorre em outros produtos midiático-culturais, muitas vezes, em suas construções noticiosas, o jornalismo demarca lugares questionáveis para os sujeitos pobres. Há um investimento constante na ideia de que a ascensão social depende única e exclusivamente do esforço individual, bem como o pensamento de que as pessoas pobres — “apesar de tudo” — são os seres mais felizes do mundo. Nesse combo das representações problemáticas, ainda temos aquelas que reduzem os sujeitos pobres a uma irreversível subalternidade social, à criminalidade e ao grotesco. Sem dúvidas, são narrativas que estigmatizam vidas, desconsideram a dignidade humana e, assim, violentam as experiências e as realidades colocadas em pauta.

É preciso que os profissionais da área tenham o desejo de aprimorar seus conhecimentos sobre direitos humanos, democracia e cidadania

A visibilidade das chamadas classes populares é quase sempre controlada, tendo em vista que por elas nem tudo pode ser dito e mostrado. Por esse motivo, no jornalismo predominam os recortes de fala que limitam os sujeitos pobres à ilustração e lamentação de suas vivências em detrimento de seus saberes e ações propositivas. Não é acessório dizer que, nesses modos de narrar permeados por condições e interdições, outros marcadores identitários como raça e gênero também configuram o lugar reservado para os indivíduos pobres no discurso jornalístico. Isso é brutalmente evidente num país que naturaliza as causas das suas várias desigualdades.

Se o jornalismo almeja ser efetivamente inclusivo e acolhedor das diferenças sociais para além do seu discurso de autolegitimação, é indispensável que veículos e jornalistas repensem as maneiras como constroem as suas representações dos sujeitos pobres. Isso vale não apenas para o chamado jornalismo convencional, mas também para as mídias alternativas e independentes, que muitas vezes acabam reproduzindo lógicas e vícios habituais dos veículos tradicionais. Uma redação mais diversa que inclua membros de regiões e comunidades periféricas é um bom começo. Mas certamente isso não basta.

É preciso que os profissionais da área tenham a possibilidade e o desejo de aprimorar seus conhecimentos sobre direitos humanos, democracia e cidadania. Esses são alguns eixos temáticos que, ao meu ver, podem orientar outros modos de representação dos indivíduos pobres no jornalismo. Ademais, a percepção de que os pobres não se reduzem às suas ausências — e de que a pobreza não é um fenômeno natural — só será alcançada por aqueles e aquelas jornalistas que perceberem criticamente as marcas que o Brasil carrega do colonialismo, da escravidão, do autoritarismo e dos vários golpes que o país vem sofrendo ao longo da sua história.

Por fim, considero que outros campos, como o artístico e o literário, podem inspirar o jornalismo a pluralizar as representações das pessoas de classes populares, sejam aqueles indivíduos que estão em pobreza absoluta ou relativa. Nesse aspecto, vale aqui citar o livro “Pobres, resistência e criação: personagens no encontro da arte com a vida”, escrito por Monique Borba Cerqueira, que demonstra como as narrativas em torno de personagens da literatura e do cinema rompem com alguns lugares previamente estabelecidos para as pessoas pobres. As figuras analisadas são Gabriela, de Jorge Amado; Carlitos, de Charlie Chaplin; e Macabéa, de Clarice Lispector. Como bem observa a autora, essas personagens, cada qual à sua maneira, são atravessadas por uma desobediência sem limites em que desconhecem qualquer enquadramento soberano. Diante de perspectivas assim instigantes, o jornalismo pode repensar as representações impostas aos pobres, reconhecendo-os como seres políticos, sensíveis, complexos e vitais.

Rafael Rangel Winch é jornalista, doutorando em jornalismo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Membro do Transverso - Estudos em Jornalismo, Interesse Público e Crítica (UFSC/CNPq).

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.