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Foto: Adriano Machado/Reuters

Pilares do voto: atalhos, estereótipos e fake news


É fora do período eleitoral que o cidadão está mais suscetível a mudar de opinião, indicando assim a importância da construção de uma presença permanente do candidato à vista do eleitor

O comportamento eleitoral é um dos campos de maior debate na ciência política. Não é à toa que existem diversas escolas de pensamento que tentam explicar os motivadores do voto. O resultado da última eleição, entretanto, trouxe à tona diversas discussões sobre a polarização e as fake news, escondendo uma questão ainda mais antiga. O que define o voto?

Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2002, ajuda-nos a entender essa questão com seu livro “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, publicado no Brasil em 2012. Ele descreve duas estruturas de pensamento humano: o Sistema 1 e o Sistema 2. O primeiro é intuitivo, rápido, associativo, automático, muitas vezes emocional e não requer esforço. O segundo é analítico, lento, deliberativo, racional e requer esforço mental.

Esse esforço mental, como o esforço físico, exige disposição e concentração, e pode ser igualmente cansativo. Nesse âmbito, o Sistema 2 funciona como um burocrata, controlando e filtrando as intuições enviadas simultaneamente pelo Sistema 1. Dessa forma, geralmente, o Sistema 1 será mais utilizado do que o Sistema 2, não apenas para evitar o cansaço mental, mas também para agilizar a tomada de decisão e possibilitar a dedicação a outras tarefas.

No contexto político, o Sistema 1 é amplamente utilizado, principalmente por aqueles que já possuem preferências ideológicas e/ou partidárias. Isso ocorre porque ideologias e partidos políticos funcionam como atalhos mentais associados a candidatos e posicionamentos, facilitando a escolha do voto e a construção de discursos.

Um estudo realizado nos Estados Unidos, que investigou a variação do desemprego no país entre 2008 e 2010, exemplifica como atalhos mentais produzem perspectivas distintas. A pesquisa indicou reações diferenciadas ao questionamento sobre o índice de desemprego, a depender do apoio ou não dos entrevistados ao governo de Barack Obama. Apesar do índice ter permanecido razoavelmente estável no período, partidários do presidente afirmavam que a geração de emprego cresceu, enquanto opositores diziam que o desemprego piorou — mostrando como as preferências políticas produziam diferentes respostas para a mesma situação.

Mas não é apenas na política que o cérebro busca “soluções práticas” para o Sistema 1. Nós ativamente usamos a categorização para construção de estereótipos que ajudam a simplificar a compreensão da realidade, juntando pessoas, ideias, entidades, etc., em grupos, enfatizando quem são os “nossos” e quem são os “outros”.

As fake news não possuem forte influência sobre o voto, como se especula, mas são artifícios que justificam a decisão do eleitor e imunizam sua opinião contra posições divergentes

A estabilidade ou a instabilidade das situações, assim, seria um dos principais responsáveis pela continuidade ou descontinuidade do comportamento eleitoral, uma vez que os estereótipos podem variar em função dos contextos, expectativas, necessidades, valores e objetivos do indivíduo. Dessa forma, o realinhamento eleitoral está essencialmente relacionado às alterações nas conjunturas sociais que podem variar desde a entrada na universidade e a mudança de emprego até crises econômicas, guerras, etc., dado que essas variações ativam diferentes identidades dos sujeitos para criar harmonia com as novas relações sociais.

A identidade política é fundamental para entender o efeito que as pesquisas eleitorais têm na votação. Essas sondagens, ao mostrarem o possível vencedor das eleições, mobilizam eleitores a reconsiderar seu voto por sentirem que sua identidade política está ameaçada. Por conseguinte, as pesquisas eleitorais podem ter potencial para mobilizar eleitores a votar na candidatura, em tese, mais apta a vencer seus “adversários sociais”.

Essa concepção é essencial para estabelecer um elo entre os fatores psicológicos e sociais que influenciam o voto, dado que fatores de instabilidade, como crises econômicas e políticas, aumentam a tensão entre os grupos e causam impactos emocionais e avaliativos no entendimento do eleitor. Todavia, quando não há disputa eleitoral, os grupos tendem a ser menos preconceituosos e evitar o uso de estereótipos, estando assim mais vulneráveis à modificação de suas opiniões. Ou seja, é fora do período eleitoral que o cidadão está mais suscetível a mudar de opinião, indicando assim a importância da construção de uma presença permanente do candidato à vista do eleitor e da realização de pré-campanhas.

Sem surpresas, o eleitor normalmente buscará o uso do Sistema 1 para definir seu voto. Nossas afinidades, sejam pessoais, partidárias ou ideológicas, são experiências que formam atalhos mentais ao provocarem sensações de familiaridade, facilidade, conveniência e até veracidade — efeito conhecido como conforto cognitivo. Nesse cenário, as fake news não possuem forte influência sobre o voto, como se especula, mas são artifícios que justificam a decisão do eleitor e imunizam sua opinião contra posições divergentes: elas não formam seu voto, mas reforçam tendências previamente concebidas. Em suma, o Sistema 2 usa as fake news como fonte de informações e argumentos que reforçam as crenças formadas pelo Sistema 1.

Podemos dizer que os atalhos mentais e os estereótipos possuem forte influência sobre a definição do voto, mas não podemos nos esquecer que as informações, sejam verdadeiras ou falsas, são essenciais para justificar a decisão. O eleitor ao viver em sociedade está preso numa caixa de espelhos que, apesar de refleti-lo sobre diversos ângulos, pode não reproduzir seus fiéis desejos. Sufocante, mas ainda confortável, cabe ao indivíduo se singularizar ou conformar. Como um terrível álcool, a vida em sociedade provoca uma formidável alucinação coletiva.

Alan Gabriel Teixeira é gestor de políticas públicas, líder RenovaBR Cidades e coordenador de núcleos do Livres.

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