Foto: Peter Dazeley/Getty Images

Palhaços nos corredores dos tribunais de justiça


O que o palhaço faz, naquele breve instante, é olhar para aquela criança não como vítima, mas como sujeito. Não como alguém que está ali porque sofreu uma violência, mas como alguém que está no mundo e merece ser visto com um olhar amoroso

“Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos.” (W. Shakespeare)

Em seu artigo “O direito à literatura”, Antonio Candido procura nos mostrar a importância das criações poéticas e ficcionais — das mais simples às mais sofisticadas — para a formação integral do indivíduo. Um direito que ele, com ressalvas, equipara a outros facilmente identificáveis como não compressíveis — o direito à alimentação, à educação, à saúde e à moradia. A ficção, ressalta Candido, teria a função de ordenar o nosso caos, de organizar nossa mente e sentimentos e a visão que temos do mundo.

Viktor Chklóvski, teórico da literatura russa do começo do século 20, afirmou que a função da arte poética seria tornar estranho o objeto descrito. É a mudança de perspectiva, como quando uma história é narrada por uma raposa ou por um ser fantástico, que nos permite um novo olhar sobre fatos corriqueiros. Isso porque, segundo nos ensina o filósofo austríaco Wittgenstein, os aspectos mais importantes das coisas nos escapam pela sua familiaridade. Ao tornar estranho, recriar, distorcer, desconstruir aquilo que nos é óbvio, ordinário, costumeiro, a arte chega mais perto do real.

O sonho também tem esse papel. Para muitos, sua linguagem é considerada de revelação, por trazer à tona não necessariamente o mistério, mas aquilo que deixamos de perceber, embriagados que estamos de cotidiano. A psicologia diz que o sonho é a linguagem do inconsciente que traz respostas às experiências de vida consciente. Fisiologicamente, o sonho tem a capacidade de restaurar o equilíbrio cerebral, processar, codificar e armazenar conteúdos.

Tudo aquilo que pertence ao universo da fabulação, que nos permite sonhar acordados — Candido diz também que a literatura é o sonho acordado das civilizações —, nos humaniza, nos torna mais próximos da nossa essência. Como negar, então, a essencialidade da arte e de suas diversas expressões, uma vez reconhecida sua função humanizadora e ordenadora do caos?

E como ordenar o caos natural do viver em situações complexas e adversas? Imaginemos uma criança vítima de abuso sexual, num espaço tão árido quando o de um fórum criminal, tendo de prestar um depoimento, de contar a estranhos algo dolorido e potencialmente não inteiramente por ela assimilado. É nesse contexto que se insere a ação dos Palhaços Sem Juízo, iniciativa que idealizamos e que já há um ano percorre as salas de depoimento especial do Judiciário da capital paulista.

A aposta é de que é possível, mesmo naquele caos, um instante de riso, de encantamento, um átimo poético, uma quebra da perspectiva

Valendo-nos da linguagem da palhaçaria e tendo como instrumento primordial justamente a fabulação, a construção de pequenas narrativas a partir de coisas aparentemente banais, nos imiscuímos nesse universo, buscando nos tornar cúmplices daquela criança num breve instante. O breve instante em que aguarda sua vez, em que se descobre num lugar que não é seu, em que espera a hora de falar e, assim, tentar organizar, mais para os outros do que para si, um caos maior que o que se pode daquele momento apreender. Um caos que a angustia, mas que certamente não a define.

O foco dessa intervenção é comunicar, acessar a criança e quem mais queira entrar no “jogo”, a partir de sua permissão — um trabalho gentil que demanda sutileza, que requer a construção de um sentimento de confiança. A aposta é de que é possível, mesmo naquele caos, um instante de riso, de encantamento, um átimo poético, uma quebra da perspectiva.

O porquê do palhaço é uma pergunta que sempre nos cerca. Escolhemos essa máscara pois o palhaço, enquanto figura teatral, está relacionado com a vulnerabilidade e o erro, encarnando muitas vezes o perdedor. Pode ser perverso, covarde, mentiroso, sem compromisso, enfim, humano. O palhaço, como linguagem, está muito próximo do brincar no sentido de um fluxo. Ele está no limite entre a ficção e a realidade. Ele se mostra com roupas e adereços incomuns — uma primeira etapa da ficção —, mas não está num palco, não faz parte de uma apresentação, mas, sim, de um jogo que estabelece com o outro — e esse outro não é mero espectador, pois, sem ele, sem essa relação implicitamente acordada, o palhaço fica sozinho. Sem cumplicidade, a narrativa não se sustenta.

Essas narrativas vão se construindo a partir do esgarçamento delicado de coisas retiradas do real. Sem julgamentos, o palhaço entrelaça ficção e realidade e transpõe um mundo sensível e lúdico para um ambiente que pode ser percebido como hostil. Quando o palhaço oferece café imaginário numa minúscula xícara de plástico, quando carimba florzinhas em pilhas de processos ou “despacha” uma galinha preta, propõe fabulações que atravessam as circunstâncias daquela situação específica e, pelo estranhamento, descortinam outras dimensões daquela realidade.

Essas dimensões podem ser reconhecidas pela criança. A ficção, naquele momento, é sua aliada para enxergar aquele lugar, aquelas pessoas, aqueles trâmites e procedimentos e, a partir disso, ampliar e/ou organizar seu entendimento, ordenar o seu caos. O impacto disso pode ser conectá-la a algo que facilite sua expressão, que favoreça sua narrativa — seu depoimento — de uma realidade muitas vezes castigada.

O que o palhaço faz, naquele breve instante, é olhar para aquela criança não como vítima, mas como sujeito. Não como alguém que está ali porque sofreu uma violência, mas como alguém que está no mundo e merece ser visto com um olhar amoroso. O que levou aquela criança a um fórum criminal não importa para o palhaço. O palhaço não está ali pela vítima, mas pelo ser humano que tem um passado e um futuro e que pode ver e rever o mundo de diferentes formas, sob diferentes olhares — e que pode, para isso, contar com a arte, o sonho e a fabulação. O palhaço está ali refletindo humanidade e lembrando que aquela criança não será eternamente vítima. Acreditamos que a arte cria espaço para mudanças.

Soraya Saide é atriz e criadora do Palhaços Sem Juízo, grupo que atua junto a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, no contexto do depoimento especial, em fóruns criminais de São Paulo.

Roberta Calza é atriz e criadora do Palhaços Sem Juízo.

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