Foto: Carlos Barria/Reuters

Os 4 erros de Trump que lhe custaram a reeleição


O presidente americano minou as próprias chances de vitória com uma resposta desastrosa à pandemia e com estratégias pouco eficazes contra seu adversário, Joe Biden

No rastro da apuração das eleições americanas, que se desenrolou ao longo de vários dias em um ambiente de elevada polarização partidária e ideológica, resta o esforço de entender o sentido dos resultados. As circunstâncias extraordinárias ampliaram a incerteza: esta será lembrada como a eleição da covid-19, e a pandemia representou o maior desafio às chances de um segundo turno de Donald Trump.

Seu adversário, Joe Biden, era tão somente o candidato anti-Trump — ele não apresentou propostas claras para uma alternativa ao governo atual. Pode-se argumentar que Biden está mais próximo de um conservador do que da imagem de democrata moderado a que costumam associá-lo. Deixando de lado as fragilidades do candidato democrático, esta análise se concentrará em como Trump complicou sua própria reeleição.

A pandemia de covid-19 alterou substancialmente os prognósticos. Trouxe consigo uma dificuldade significativa de avaliar a campanha dos presidenciáveis, tendo em vista que nos privou de qualquer referência do comportamento de eleitores em uma situação tão atípica. Além disso, a crise econômica que se sucedeu às medidas de distanciamento social adotadas para conter o alastramento do novo coronavírus acertou em cheio uma das bases do apoio a Trump.

À medida que se consolidaram as expectativas de que as eleições ocorreriam nas condições impostas pela pandemia, uma série de ajustes foram implementados pelas unidades federativas. A ampliação do período de votação por correspondência e a multiplicação de locais para recolhimento das cédulas, combinadas com a mobilização para registro de eleitores, resultaram em participação recorde. Adversamente, a atuação do partido republicano sob Trump colaborou ainda mais com o panorama de incerteza ao lançar suspeitas infundadas sobre a legitimidade e legalidade dos votos enviados pelo correio, ameaçando invalidá-los por meio do poder Judiciário. O destino selou a derrota justamente com a contagem dos votos não-presenciais.

Um eleitorado altamente polarizado e mais mobilizado impôs dificuldades impensadas à atuação dos institutos de pesquisas. Em que pese o quadro excepcional, houve surpreendente constância ao longo dos levantamentos e entre os resultados das diferentes pesquisas de opinião. Foram condições insuficientes, no entanto, para qualquer prognóstico razoavelmente seguro — os institutos de pesquisa que previram vitória contundente de Biden fracassaram em seu ofício, e terão dificuldades expressivas em reconquistar a confiança de outrora.

No que diz respeito ao presidente em exercício, o comportamento errático e heterodoxo de Trump foi talvez o maior responsável por uma disputa tão apertada. Esta era possivelmente a reeleição mais fácil de se conquistar, mas se tornou desafiadora graças aos esforços ou omissão do presidente. Trump foi seu próprio pior aliado.

É precipitado supor que Trump foi derrotado de forma definitiva. Mais que a derrota em si, sua mais dura lição será reconhecer que foi vencido pelos próprios erros

Seu primeiro grande equívoco, e o de maior repercussão, foi a inacreditavelmente inepta resposta à pandemia. Segundo pesquisas do instituto Gallup, Trump sofreu ao longo do seu mandato com os mais baixos índices de aprovação — jamais chegou sequer a 50%, feito inédito para um presidente americano. Em março, quando conseguiu ao menos projetar a imagem de liderança empenhada no combate à pandemia, sua aprovação atingiu 49%. Em seguida, minimizou os efeitos do coronavírus, politizou e desdenhou das medidas recomendadas por médicos e cientistas para a contenção da doença. Foi uma tentativa de evitar a erosão das condições econômicas, que vinham melhorando e lhe eram tão favoráveis, atitude que inspirou o esforço negacionista de outros chefes de Estado.

Sua estratégia de desviar a culpa lhe trouxe os piores resultados possíveis. A omissão na formulação de políticas de contenção do vírus e a falta de uma resposta coordenada no nível da União comprometeram a capacidade de mitigar os efeitos da covid-19. A catástrofe humana se consolidou, com os Estados Unidos apresentando o maior número de fatalidades em um único país — já são mais de 230 mil mortes —, em números absolutos e proporcionais. É difícil negar a contundência da crise em saúde pública diante da tragédia dos números. Trump travou uma disputa contra a covid-19 e perdeu.

O segundo erro crucial de Trump foi sua incapacidade de fornecer apoio econômico contínuo na forma de assistência governamental, em meio à maior recessão desde a Grande Depressão dos anos 1930. A culpa recai igualmente sobre os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, Mitch McConnell (republicano) e Nancy Pelosi (democrata), respectivamente. Os três são responsáveis pelas prolongadas dificuldades econômicas que dezenas de milhões de americanos enfrentam há meses, sem perspectiva de alívio antes do ano novo. No entanto, a falta de habilidade de negociação política do presidente estava em evidência, pois era do interesse de sua reeleição minimizar os efeitos econômicos da pandemia.

A insistência de Trump em focar nas alegações não comprovadas de negócios sombrios entre Joe Biden e seu filho, Hunter, tampouco rendeu dividendos, além de representar seu terceiro erro. Essa estratégia se assemelhou ao seu manual da campanha de 2016, quando denunciou o uso de um servidor de e-mail privado por Hillary Clinton, fato explorado incansavelmente e com grande efeito pelo partido republicano. Em 2020, o eleitorado recusou-se a se importar com as acusações duvidosas.

Por outro lado, Biden era muito mais suscetível a ataques a suas posições políticas anteriores sobre questões que foram essenciais à vitória de Trump em 2016. Seu retrospecto sobre o apoio ao Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, na sigla em inglês) e outros acordos comerciais, uma série de políticas que permitiram a transição para uma economia pós-industrial nos EUA, deveria ter sido mais explorado. A falta de um plano coerente para as regiões mais afetadas pela perda de empregos industriais resultou em queda econômica. O quarto e último equívoco foi não ter sido esse o foco da estratégia de Trump.

Enquanto a apuração nos estados mais disputados elevava a tensão no país e no mundo, Trump demonstrava dificuldades em aceitar a derrota. Sua mais recente aparição pública em coletiva de imprensa, na noite do dia 5 de novembro, dias antes da decretação da vitória de Biden, encerrou-se de forma melancólica, com as principais redes de telecomunicação se recusando a continuar a transmissão de suas acusações de fraude eleitoral, tão infundadas quanto delirantes. Ainda que esse episódio possa vir a ser lembrado como seu triste réquiem, o expressivo número de votos que recebeu — o segundo maior em números absolutos da história, só perdendo para Biden — indica que é precipitado supor que Trump e o trumpismo foram derrotados de forma definitiva. Mais que a derrota em si, sua mais dura lição será reconhecer que foi vencido pelos próprios erros.

Marco Meneses é cientista político e coordenador do curso de relações internacionais do Centro Universitário Iesb (Instituto de Educação Superior de Brasília).

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