Foto: Stephane Mahe/Reuters

O tempo passa: sobre paternidade, escolas e racismo no Brasil


Minha tarefa, hoje, enquanto pai, é fazer com que os meus filhos, a partir desse lugar em que estudam, convivam com e sejam ensinados, coordenados e dirigidos por pessoas negras e brancas

Perdoe-me a obviedade, mas, quando se tem filhos, o que é inexorável torna-se muito evidente. Laura chegou ao mundo em 2006, Pedro chegou em 2010. Num passe de mágica, Ursula e eu temos uma filha de 14 anos e outro chegando aos 10. Em muito pouco tempo, eles estarão dialogando mais com o mundo do que conosco. Cronos me avisa diariamente: se quiser ser responsável direto por algo a mais no cotidiano de seus filhos, faça o quanto antes!

Há cinco anos, quando Laura tinha 9, me dei conta de que a qualidade da minha conversa com ela estava diminuindo. Como todas as crianças, ela crescia demonstrando suas vontades e analisando com rigor o que era ofertado para ela. Eu sabia que a adolescência chegaria e que, naquele ritmo, eu corria o risco de estarmos menos conectados.

Por dever de ofício, mas profundamente impulsionado para evitar relações conflituosas no futuro próximo, me dediquei quase um ano aperfeiçoando as minhas competências conversacionais. Saber escutá-la era uma das minhas maiores motivações. Evidentemente, nem tudo são flores, mas compreender que uma boa conversa também é tarefa do pai, sobretudo porque ele fala de um lugar distinto na relação, foi fundamental para que, hoje, a relação entre pai, filha e filho seja saudável. Saber escutar os meus filhos é o meu maior trunfo neste momento.

Se, de certa forma, consegui lidar com o medo da desconexão, tenho sido aplacado para não perder tempo com outro tema central na relação com os meus filhos: o dever histórico de que eles sejam ativistas antirracistas. Ainda que eles sejam fruto de uma família inter-racial, ainda não estou satisfeito com o que eles sabem sobre o tema, porque a questão nem é apenas saber, mas praticar.

A escola tem centralidade na formação das crianças e adolescentes. Uma escola com concepção e prática antirracista é potencialmente um instrumento de inflexão da lógica que segrega negros e brancos no Brasil. O racismo vem sendo ensinado, direta e indiretamente, há séculos. Essa perversidade, por outro lado, evidencia que também é possível ensinar a não ser racista. A tarefa não será fácil, uma vez que o racismo se perpetua com a prática diária das microagressões, mas ela é possível. Para isso, além de ensinar, deve-se praticar o antirracismo.

Laura e Pedro estudam em uma ótima escola privada da cidade de São Paulo, porém, a formação cidadã deles ainda é insuficiente. Infelizmente, o que eu busco para eles tampouco é encontrado nas escolas públicas, pois não se trata apenas de aumentar a quantidade de negros e negras nas escolas. Diversidade é fundamental, mas o que eu busco é ter um ambiente escolar antirracista, isto é, uma escola de práticas e de projeto político-pedagógico antirracista.

Uma escola antirracista não se resume simplesmente a ter mais alunos negros. A intervenção deve ser sistêmica

Dos meus 12 anos de estudos frequentados no ensino fundamental e médio, oito se deram em escolas públicas localizadas em regiões não-centrais da cidade. A convivência cotidiana com colegas diferentes de mim, mais pobres, mais ricos, de peles mais escuras e de peles mais claras, formou um mosaico de possibilidades de convivência e, sobretudo, de respeito ao outro.

A partir do momento em que você convive e elabora com outra pessoa que tem uma história diferente da sua do ponto de vista racial, seu mundo se agiganta, cresce em possibilidades e cresce em respeito. Essa oportunidade que tive na minha vida foi fundamental. Porém, as escolas públicas tampouco estão necessariamente preparadas para serem antirracistas, apesar de sua diversidade racial. Presenciei inúmeras cenas de racismo entre brancos e negros e entre negros retintos e de pele clara, além de observar o pouco preparo dos profissionais da educação na mediação e resolução de conflitos raciais, fruto de a escola não ter um projeto antirracista.

Minha tarefa, hoje, enquanto pai, é fazer com que os meus filhos, a partir desse lugar em que estudam, convivam com e sejam ensinados, coordenados e dirigidos por pessoas negras e brancas. As escolas particulares construtivistas da zona oeste da cidade de São Paulo há anos têm como princípios a diversidade racial, mas ainda não conseguiram promover mudanças estruturais em sua prática. Reconheço que há um processo em curso, inclusive na escola dos meus filhos, mas será de longo prazo.

Mas qual é o impacto de escolas privadas não terem projetos estruturantes antirracistas para promover equidade racial? Basicamente, as escolas privadas perdem a chance de contribuir com a desconstrução do racismo estrutural brasileiro. Na prática, parte da elite deste país cresce sem sequer ter tido a oportunidade de criar um mero trabalho escolar com colegas negras, sem vivenciar o prazeroso momento de ver um colega de outra raça como igual do ponto de vista cognitivo. A não-convivência harmoniosa e equânime de pessoas negras e brancas durante os anos escolares tem implicações segregacionistas ao longo da vida laboral, como vemos hoje no Brasil.

Escolas privadas antirracistas trazem a possibilidade de proporcionar um ganho em cascata, que, além de social, é também econômico: proporcionará a mudança de mentalidade de gerações que tendem a projetar parcerias produtivas no futuro. Por si só, a diversidade nos anos escolares, aumentará as chances de ter diversidade no setor produtivo na idade adulta.

Certamente, há muitas famílias que querem que seus filhos estudem em escolas antirracistas. Uma escola antirracista não se resume a simplesmente ter mais alunos negros. A intervenção deve ser sistêmica e passa pela revisão das diretrizes curriculares, letramento de toda a comunidade escolar e revisão das práticas pedagógicas. Principalmente, deve-se honrar o saber de educadores e intelectuais negros e negras, além de disponibilizar, de forma orientada, livros, materiais e elementos lúdicos de valorização e cultura afro-brasileira.

Independentemente do seu pertencimento racial, convido todas as famílias que leram este ensaio a se engajarem para que a escola de seus filhos seja antirracista. Além de promover justiça social, estaremos construindo um projeto de nação que estará à altura da riqueza cultural que temos neste país.

Se Cronos nos mostra que não temos tempo a perder, Kairós, o outro deus grego responsável pelo tempo, mas agora pelo tempo oportuno, isto é, o tempo certo para fazer as coisas, também me avisa diariamente: há mais de 500 anos, este país deveria ter escolas antirracistas, não desperdicemos mais uma oportunidade!

Cassio França é cientista político, doutor em administração pública e governo e membro do coletivo antirracista do Colégio Oswald de Andrade.

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