Foto: Rahel Patrasso/Reuters

O futuro do campo brasileiro na economia do conhecimento


A capacidade de imaginação institucional do agro nacional poderá promover a formação de classe média rural forte no interior e incentivar um modelo produtivo de acordo com o novo paradigma de desenvolvimento que floresce no mundo

Os incêndios ocorridos nos dois anos anteriores na Amazônia são um fator de desgaste para a imagem do Brasil no exterior, cujos efeitos também atingem a agropecuária exportadora brasileira.

A repercussão internacional negativa recente ocorre por aspectos diversos, como o forte consenso global a respeito da necessidade de construção de novo paradigma de desenvolvimento centrado na busca de soluções para os problemas ambientais. O Brasil, por conta de sua rara biodiversidade, bem como de seus recursos naturais, é visto como ator-chave.

As eleições mais recentes para o Parlamento Europeu, por exemplo, resultaram em crescimento dos partidos verdes e daqueles que tratam de temáticas ambientais. Por essa razão, atualmente, a Comissão Europeia trabalha em plano de proteção para as florestas tropicais, cujo objetivo central é alertar os consumidores sobre produtos oriundos de empresas envolvidas em casos de desmatamento na Amazônia. Inicialmente, estarão no radar europeu a soja, o gado, o milho, o café, o cacau e a borracha importados da Amazônia. O projeto incluirá informações aos consumidores em rótulos dos produtos e novas exigências de certificação.

Em tal contexto, a agropecuária brasileira, vista internacionalmente como uma das vilãs do desmatamento, pode ser encorajada a transformar o desgaste em oportunidade de superação de dois de seus dualismos mais marcantes. O primeiro deles: a fictícia oposição entre produção agro e preservação ambiental. O segundo: as diferentes políticas públicas que favorecem a grande propriedade exportadora e as políticas públicas que amparam o restante do mundo agro. Caso consiga suplantá-los, logrará êxito em formar uma classe média rural forte e apontará a direção tanto para reorganizar a produção nacional quanto para construir, em larga escala, um modelo agro que não seja associado à degradação ambiental.

É fundamental estruturar mecanismos para que os pequenos e médios proprietários acessem os instrumentos já assegurados à vanguarda produtiva agrícola

Durante os anos 1980, o agronegócio brasileiro contou com investimentos estatais em ciência e tecnologia (especialmente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que permitiram o cultivo em solos com grau de acidez mais elevado, o que fomentou a expansão agrícola para o cerrado. Intensivo em capital, tal perfil de cultivo tornou-se extremamente tecnificado, passando a utilizar máquinas de última geração em áreas amplas e com os olhos voltados ao mercado internacional. O seu sucesso mitigou os efeitos de crises internacionais no país, já que o setor contribuía fortemente com o ingresso de dólares. Do cerrado, expandiu-se para a Amazônia.

A despeito do seu êxito econômico, o agronegócio exportador ainda é visto com desconfiança por conformar-se em grupo de beneficiários bastante restritos e com acesso privilegiado ao poder central, por haver mantido intactos ou reforçado aspectos profundamente conservadores da estrutura agrária brasileira e por possuir visões tidas como temerárias do ponto de vista da saúde pública, como a militância pela liberação de defensivos agrícolas proibidos em dezenas de outros países.

Em todo o mundo, o agronegócio é marcado pelo seu alto grau de experimentalismo institucional, que dá seus passos para ingressar na economia do conhecimento. Não se trata apenas de maquinário, mas de um conjunto de práticas e inovações com potencial de reorganizar a cadeia produtiva: cultivo de precisão, produção de proteína animal em laboratório, identificação do rebanho por microchips controlados por dispositivo de GPS, exigências de sustentabilidade e justiça social no processo produtivo, entre outros.

O agronegócio do futuro não será mais marcado pelo cultivo e comercialização de produtos de baixo valor agregado. Ao contrário, poderá incorporar tanto valor agregado quanto um produto industrial. A sua associação com instituições de pesquisa e inovação são práticas cada vez mais disseminadas no mundo. Essa associação é fundamental para que o agronegócio brasileiro não perca as suas vantagens comparativas e, diversamente, possa ampliá-las.

A resolução dos seus dualismos é condição sine qua non para o aproveitamento das oportunidades emergentes. O primeiro deles é a anacrônica e falsa oposição entre conservação do meio ambiente e produção agrícola. Algumas iniciativas destacam-se, mas não esgotam o leque de possibilidade: recuperação de pastagens degradadas; domesticação de espécies promissoras hoje encontradas apenas em meio à mata para cultivo comercial; expansão das florestas plantadas associada à melhoria genética e aprimoramento das políticas de certificação; pagamento por serviços ambientais em áreas preservadas em fazendas; paulatina valorização da pecuária intensiva em detrimento da extensiva associada a sistemas pastoris e técnicas que permitam a redução da emissão de metano por parte do rebanho, bem como inovações que permitam o seu monitoramento; expansão de estímulos financeiros para a bioeconomia e para a agricultura de baixo carbono, entre outras.

O segundo dualismo localiza-se na divergência de políticas públicas entre a grande propriedade exportadora e o resto das propriedades agrícolas. Não é possível conceber o desenvolvimento sustentável na presença de políticas públicas distintas para o agronegócio e para as pequenas e médias propriedades. É fundamental estruturar mecanismos para que os pequenos e médios proprietários acessem os instrumentos já assegurados à vanguarda produtiva agrícola: sistema de extensionismo eficiente e disseminado, sistema de seguro capaz de resguardá-los contra a volatilidade do clima e dos preços, políticas de fomento à industrialização rural, generalização do conhecimento desenvolvido pelas startups agro, políticas de democratização do acesso à propriedade rural.

O pressuposto para superar os seus dualismos é avançar na regularização fundiária. Embora o Programa Terra Legal tenha representado avanço institucional decisivo na organização fundiária da Amazônia ao definir quem possui o quê, essa tarefa ainda está longe de ser finalizada.

O método mais bem-sucedido para a integração da agricultura aos cânones da economia do conhecimento constitui-se em: (1) coordenação estratégica entre o Estado brasileiro e os produtores e (2) concorrência cooperativa entre os produtores, havendo competição nos preços de venda, mas cooperação e parceria em busca de soluções para problemas comuns.

A capacidade de imaginação institucional do agro nacional poderá promover a formação de classe média rural forte no interior e incentivar um modelo produtivo de acordo com o novo paradigma de desenvolvimento que floresce no mundo. É um projeto que poderá renovar a imagem do país no exterior, elevar o padrão de vida de milhões de brasileiros, mostrar aos concidadãos a capacidade de nossa própria rebeldia criadora e dar os passos iniciais de um novo projeto nacional.

Felipe Iraldo de Oliveira Biasoli é doutor e mestre em ciência política pela UFF (Universidade Federal Fluminense).

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