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Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

O carnaval como espaço de ocupação dos corpos marginalizados


Se as escolas hoje têm verba pública e exposição massiva na grande mídia, elas também sofrem muitos preconceitos e ainda se mantêm nas margens

“Falo dessa gente que transa pelos estreitos, escamosos, esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. Falo desse povão que, apesar de tudo, é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente numa existência melhor na paz de oxalá”.

A frase é de Plínio Marcos, dramaturgo brasileiro, que produziu, em 1974, um disco chamado “Plínio Marcos em Prosa e Verso - Nas quebradas do Mundaréu”. Um álbum com canções e histórias contadas na forma de prosa, com os sambistas Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde. Nesse disco, Plínio e os três grandes sambistas contam em prosa e versos musicais um pouco da história das sociedades sambísticas paulistanas. Há nele, além de músicas incríveis costuradas com histórias contadas na a voz peculiar de Plínio, um indicativo absoluto que resume muito bem o que é o samba: o título “Quebradas do Mundaréu”.

O Brasil tem uma constituição única no mundo. A formação social, cultural, econômica e política do país deu-se, sobretudo, com a vinda de povos capturados e feitos escravos vindos de África. Esses povos, ou muitos deles, jamais se encontraram em África. Etnias soberanas e independentes, cada qual com seus costumes, cultura, música, religiosidade e política, foram trazidas para o Brasil e juntadas em fazendas espalhadas pelo país durante cerca de 350 anos. A miscigenação desses grupos nos trouxe uma forte e singular característica sociocultural.

Após o fim da escravidão, o povo negro se viu completamente excluído do projeto de Estado do país. Restou a ele a ocupação das margens. Se durante a escravidão os negros sofreram os maiores horrores que a humanidade foi capaz de produzir, com o fim dela, eles foram marginalizados. Restaram as quebradas. E foi nas quebradas que esse povo achou meios de organizar e constituir seus locais de existência. As sociedades negras criaram clubes, times de futebol, terreiros, formas de produzir seu sustento e se organizar politicamente. E não foi fácil, nunca.

O jogo político entre sociedades carnavalescas e o Estado sempre foi um emaranhado de interesses e disputas de ambos

“Eu conto histórias das quebradas do mundaréu. Lá de onde o vento encosta os lixos e as pragas botam os ovos”, assim abre o disco com a voz de Plínio. É nesse lugar que essa gente “que mora à beira do rio e quase morre afogada quando chove” cristalizou uma sociedade (se assim podemos chamar) vinda já dos quilombos. Também nessas sociedades nasceu o samba. O samba nem sempre ocupou o carnaval. Não era nele que os grupos negros apresentavam sua arte e sua cultura. O início do carnaval em São Paulo, sobretudo na cidade de São Paulo no começo do século 20, era essencialmente feito pelas e para as sociedades brancas. Nas brincadeiras de rua, como os Entrudos vindos de Portugal, ou nos bailes de salão ao estilo veneziano, a música negra não era ouvida e o cortejo negro não era visto. As manifestações culturais afro-brasileiras aconteciam, sobretudo, durante festas religiosas. Não é por outro motivo que grandes manifestações ainda hoje têm forte cunho religioso, como as congadas, Folias de Reis, entre outros. Mas a Igreja não era assim tão permissiva com essas culturas e houve sempre muitos episódios de proibições.

Foi por conta dessas proibições da Igreja que o samba encontrou no carnaval o espaço ideal para se manter existindo. Não sem, claro, muita disputa e resistência. São muitos os relatos que contam como a polícia perseguia os grupos negros mesmo durante o carnaval. Tomavam instrumentos, rasgavam o couro dos bumbos, prendiam os batuqueiros e só soltavam depois que a festa do Momo terminasse. De tempos em tempos, havia normas que pipocavam aqui e ali para dificultar a vida dessas comunidades. Mas a resistência e a organização delas fizeram o samba perpetuar.

Desde o surgimento dos cordões (primeiras sociedades negras carnavalescas de São Paulo) na década de 1910, até o surgimento das escolas de samba a partir da década de 1930, o carnaval de São Paulo cresceu muito. E o crescimento dessas manifestações despertou também a preocupação do Estado, que buscou sempre uma forma de controle sobre elas. A exemplo do que aconteceu no Rio de Janeiro na década de 1930, em São Paulo a oficialização do carnaval em 1968, também foi uma maneira eficaz de o Estado ter o controle sobre as escolas de samba. Não é por acaso que ambas as oficializações dos dois maiores carnavais do país deu-se durante ditaduras. Se antes da oficialização os cordões ocupavam ruas e mais ruas da cidade, desfilando e encantando pessoas de todas as classes sociais (e incomodando as elites) com sua força, após a oficialização teve início a era das avenidas, e o carnaval desses grupos começou a sofrer um confinamento cada vez maior até chegar aos dias de hoje, onde essa parte dele está fortemente isolada no Sambódromo do Anhembi. O jogo político entre essas sociedades carnavalescas e o Estado sempre foi um emaranhado de interesses e disputas de ambos.

Se as escolas hoje têm verba pública e exposição massiva na grande mídia, elas também sofrem muitos preconceitos e ainda se mantêm nas margens. Longe dos olhos da elite e da grande mídia durante o ano todo, a exposição que interessa é apenas a fetichização dos corpos e a glamourização das fantasias. Pouco se sabe o que são de fato essas sociedades, seus valores, suas tradições. E não há interesse em saber, sobretudo porque as sociedades sambísticas são, ainda hoje, espaços sociais que funcionam em uma outra chave política. Talvez seja justamente por ser um local onde a igualdade é muito maior, o respeito às diferenças é absoluto, onde a força da comunidade está justamente na diversidade e o conceito de hierarquia e comando passa muito mais pelas raízes das culturas africanas do que das culturas europeias, é que esse mundaréu se mantém nas quebradas ainda hoje.

Fernando Baggio é músico, educador, diretor da escola de samba Acadêmicos do Tatuapé e autor do livro “Samba de bateria - a linguagem do samba para bateristas e percussionistas” (Editora Tipografia Musical).

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