Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O Brasil precisa dar um enterro digno ao colonialismo


Se precisamos preservar os monumentos como objeto de estudo e reflexão, é urgente que a memória racista celebrativa deles seja reescrita em uma linguagem comprometida com a descolonização

Em meio às disputas de narrativas e às manifestações mundiais em torno dos monumentos, pequenas mobilizações, por ora, no campo das ideias, têm buscado refletir sobre os monumentos que compõem a história e a memória do Brasil. O estopim foi a retirada da estátua do traficante de negros escravizados Edward Colston pela sociedade civil britânica. A partir dessa ação, manifestações na Europa e nos Estados Unidos em torno da reavaliação de seus monumentos, se alastraram e, por aqui, não está sendo diferente.

O enterro da estátua de Colston no Rio Avon, porto que foi maior entreposto comercial da empresa escravocrata na Inglaterra, representa o enterro simbólico de uma determinada memória. O que se enterra nesta imagem é a memória colonial, restituindo tantas outras memórias soterradas à força do colonialismo e de uma de suas facetas mais cruéis, a escravidão.

Mas para que servem os monumentos, afinal? Há sociedades que festejam em torno de seus monumentos, sacralizam o espaço, colocam flores, comidas e bebidas, fazem lavagens, brindam em torno daquele território e, assim, atualizam no presente tudo que aquele monumento representou.

No Brasil, fazemos isso no dia 20 de novembro em torno da imagem do líder quilombola Zumbi dos Palmares, monumento erguido por força do movimento negro, em 1986, no Rio de Janeiro. Ainda nessa cidade, temos um Gandhi monumental na Praça da Cinelândia, inspirando a luta pacífica. Fazemos lavagens e samba na Pedra do Sal, para lembrar daquele espaço enquanto local que foi de trabalho escravo e resistência do povo negro. No Largo da Prainha, onde havia um pelourinho para os castigos dos negros escravizados, foi erguida a estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Teatro Municipal.

Fizemos lavagens e festas nas escadarias da igreja da Penha, que já foi reduto do samba carioca. Há lavagens ainda hoje e outras festas no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, que, só entre 1779 e 1831, segundo a historiadora Mary Karash, recebeu cerca de 1 milhão de homens, mulheres e crianças escravizadas, muitos comercializados, inclusive, pela Royal African Company, a mesma empresa em que Colston fez fortuna.

Monumentos servem para a gente celebrar, rememorar sua história e atualizar sua memória no espaço-tempo. Na lavagem do Cais do Valongo, se busca celebrar a memória das milhares de vidas desumanizadas desembarcadas naquele espaço e não a memória do tráfico ou do traficante. Mas esses eventos são engendrados pelos movimentos negros locais e não partem das instituições formais do Estado.

No Brasil, a história das instituições e de suas ideologias subestimou as experiências individuais e coletivas do povo negro, afinal, “o Brasil é uma história de sucesso colonial”, como aponta Grada Kilomba. Por aqui, temos uma cultura institucional produzida no âmbito de oligarquias locais, que, desinteressada na partilha do comum, vive projetando “cortinas de fumaça”, quando, por exemplo, impulsiona uma incipiente promoção de políticas públicas de ação afirmativa que objetiva mais encobrir a sua própria dominação, enquanto grupo estabelecido, sobre outros e sobre tudo aquilo que deveria ser um bem comum, do que uma real partilha.

Analisando a insistência colonial na história das instituições no país e na organização dos espaços de memória, vemos que devem partir da sociedade civil as pressões por reavaliar monumentos, renomear instituições e nomes de rua e impulsionar a descolonização nos espaços de memória.

Ao colocarmos o dedo nessa ferida, pressionamos para que as histórias sejam reescritas por um outro ângulo

No Rio de Janeiro, ainda temos uma estátua de Princesa Isabel em frente ao mar de Copacabana, lembrando o discurso de que a abolição teria vindo das mãos de uma princesa branca, soterrando toda a agência negra na luta pelo fim da escravidão no país. Também nessa cidade, temos o monumento a Duque de Caxias na parte mais popular do Centro, a famosa Central do Brasil. Ali passam milhares de pessoas por dia, trabalhadores indo pegar seus trens para suas casas nos subúrbios da cidade, que não sabem a história de extermínio perpetrada por esse militar durante o período das regências, momento turbulento e sangrento entre os Impérios dos Pedros portugueses no país. Aliás, monumentos a militares fascistas temos aos montes!

Em Salvador, a estátua do traficante de escravizados Joaquim Pereira Marinho está sendo contestada pelos movimentos. O português que fez fortuna com o tráfico ilegal, porque foi um dos muitos homens que entrou na empresa escravocrata após as primeiras leis de proibição desse comércio, teve sua memória construída a partir das obras da filantropia. Se o traficante inglês Colston fundou asilos, escolas e foi financiador da obra cristã, o traficante português no Brasil também apoiou obras de caridade de cunho religioso, principalmente.

Em São Paulo, a memória dos bandeirantes tão solidificada na cidade começa a ser questionada a partir dos monumentos. A estátua de Borba Gato, — erguida em 1963 para esse que foi um dos maiores exploradores de indígenas e escravizados no século 19 — já havia sido questionada no carnaval da Mangueira de 2019. O carnavalesco Leandro Vieira marcou o desfile da campeã levando a estátua suja de sangue para a avenida do carnaval. Outro bandeirante responsável por matar, estuprar e escravizar indígenas: Anhanguera, que, na língua dos índios Goia, quer dizer “espírito do mal”, além de monumento, é nome de universidade no país.

Por todo o Brasil, temos estátuas, monumentos, instituições, nomes de ruas que evocam a memória colonial e racista. Recentemente, no município de Araruama no Rio de Janeiro, uma escola que se chamava Darcy Ribeiro, que foi um antropólogo e político brasileiro comprometido com a educação e com a ideia de uma identidade latino-americana, foi renomeada para Sargento PM Antônio Carlos de Oliveira Moura, denotando um aspecto forte neste país, a militarização.

O fato é que na arquitetura, nos monumentos, na educação, na organização das instituições, enfim, somos um país extremamente colonizado e racista. Entretanto, entendemos o racismo também na organização da vida social e de pensamento, e, por isso, estamos trabalhando para ampliar a responsabilização por uma postura e ação antirracista de fato. É importante que se encontrem soluções diferentes para a presença dos monumentos e de cada uma das problemáticas, mas, ao colocarmos o dedo nessa ferida, pressionamos para que as histórias sejam reescritas por um outro ângulo.

Um país de proporções continentais, que participou tão ativamente na empresa escravocrata, até hoje não tem um museu que conte essa história. As instituições de memória também devem se responsabilizar. E se precisamos preservar os monumentos como objeto de estudo e reflexão, é urgente que a memória racista celebrativa deles seja reescrita em uma linguagem comprometida com a descolonização.

Reclassificar, renomear, reerguer outros monumentos são dispositivos de poder e reivindicação do direito de contar histórias negras em primeira pessoa, deslocando as gastas imagens do sujeito “universal” e refundando universos a partir da legitimidade de nossa existência na história.

Angélica Ferrarez de Almeida é historiadora, feminista negra, doutora em história pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Pesquisa gênero, raça, memória, patrimônio, museus e história social do samba no período do pós-abolição.

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