Foto: Rudja Santos/Amazônia Real

Majoritariamente negro, o Amapá foi apagado, não esquecido


Ao noticiar o apagão no estado sem mencionar a composição étnico-racial da região, a imprensa demonstrou o seu descaso com o ocorrido

Apagões tomaram conta do Amapá, estado com mais de 65% da população declarada negra (preta ou parda, em termos usados por institutos de pesquisa brasileiros), até o restabelecimento da energia elétrica no último dia 25. Se a situação já seria preocupante em outros tempos, agora torna-se ainda mais cruel em plena pandemia, aumentando a exposição ao vírus e prejudicando a segurança alimentar, a renda e a sobrevivência de pessoas que, longe de terem sido esquecidas, foram — e seguem sendo — deliberadamente ignoradas.

Por que usar “esquecer”, e não “apagar” ou “ignorar”, pode trazer à tona sentidos múltiplos que não correspondem à realidade? Esquecer geralmente presume deixar de lembrar de algo; uma memória que nos escapa, que se esvai. É possível querer esquecer e fazê-lo intencionalmente, mas não parece ser esse o caso de governantes, em níveis estadual e federal, que sabem da existência do problema e não intercedem como necessário, nem mesmo para não permitir que outros apagões, como os de dados sobre covid-19, tomem conta. O caso amapaense parece ser mais um exemplo de populações que podem ser apagadas e ignoradas, e não simplesmente esquecidas, ainda que seus gritos de socorro ecoem, sobretudo por meio das redes e de algumas mídias, e cheguem aos ouvidos dos tomadores de decisão.

Seria ingênuo desconsiderar componentes raciais e sociais nesse fenômeno — tão recorrente neste país — de apagar e ignorar, por vontade própria, os pedidos de socorro de “alguns” em meio ao caos. E é inegável que o Amapá, longe do centro econômico e das atenções geralmente voltadas ao Sul e ao Sudeste, já vem enfrentando um descaso institucional de longa data. Das 258 comunidades quilombolas existentes no estado, somente quatro foram certificadas pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) até 2014, e outras 33 seguem, atualmente, em processo de regularização. Além disso, as comunidades quilombolas concentram 41% dos óbitos por covid-19, segundo a Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas).

Fala-se, sim, sobre o Amapá, o que demonstra que ele não foi esquecido; mas não se fala sobre as desigualdades e sua composição étnico-racial com os mesmos esforços

Por outro lado, quando a população atingida pelos apagões e pelo descaso institucional protesta, suas manifestações são caracterizadas como “vandalismo”, sendo resumidas a depredações por jornais e portais de notícias. O mesmo aconteceu na cobertura dos protestos em resposta à morte de João Alberto Silveira Freitas (Beto Farias), homem negro assassinado brutalmente durante abordagem em uma das unidades da rede de hipermercados Carrefour, às vésperas do Dia da Consciência Negra (20).

Talvez pior do que o silêncio midiático e governamental sobre mortes majoritariamente negras — decorrentes de apagões, abordagens violentas ou covid-19 —, sejam as sistemáticas tentativas de categorizar atos de resistência contra tais opressões como vandalismo, ou de simplesmente não oferecer o mesmo esforço jornalístico para matérias sobre desigualdades no contexto dos apagões. Pior do que não dizer nada, é dizer algo que reforça um histórico de racismo já enraizado em todos os meios. Ou, então, noticiar, mas minimizar a questão — seja alocando o conteúdo jornalístico em espaços menores, notas de rodapé, em textos curtos e quase sem fotos, vídeos e dados, seja culpabilizando as vítimas pelo problema que motivou as manifestações.

Nesse sentido, é possível resgatar o conceito de “jornalismo máximo”, muito trabalhado por Suzana Varjão em “Micropoderes, macroviolências” (2008), e que surgiu, enquanto categoria, a partir da expressão de Tânia Cordeiro (2005). Este se refere ao esforço para valorizar, em termos práticos, determinadas reportagens, utilizando-se dos recursos de edição e reportagem ao máximo. Mesmo notícias que denominam manifestantes de “vândalos” podem ser fruto de um jornalismo máximo, que se inquieta com tal esforço de narrativa por algum motivo.

Por sua vez, o “jornalismo mínimo”, também trabalhado por Varjão, corresponde a tudo aquilo em que não é atribuída uma atenção primária, e cujo esforço empreendido na elaboração das matérias é ínfimo. Com poucos recursos de edição e reportagem, textos curtos e/ou sem fontes e dados suficientes, só resta às vítimas do jornalismo mínimo aquilo que já sofrem em outras esferas: atenção mínima aos seus pedidos de socorro e às suas necessidades, sem qualquer empatia.

No caso dos apagões no Amapá, foram analisadas qualitativamente e quantitativamente (em relação à frequência de temas) 27 matérias. As que se utilizam de recursos de edição e reportagem variados — textos longos, dados, hiperlinks, fotos e, por vezes, vídeos — são sobre decisões políticas: discursos ou visitas do presidente Jair Bolsonaro ao Amapá e medidas governamentais — estaduais e federais, bem como sobre a possibilidade de novos pagamentos do auxílio emergencial de R$ 600 no estado e a derrubada dessa decisão. Este foi, aliás, o tema mais recorrente dentre todas as matérias analisadas, correspondendo a 19 das 27 notícias totais.

Por fim, aquelas que enfatizam as desigualdades pré-existentes e decorrentes do apagão são, sobretudo, colunas, ensaios e artigos de opinião, com pouquíssimos dados, links e fotos (com exceção de uma coluna publicada no Estado de S. Paulo), e geralmente sem vídeos. Há apenas quatro notícias sobre o enfrentamento desigual da população no estado com maior esforço de edição e reportagem — e que incluem, além de referências variadas, vídeo (exceto em duas delas) e/ou fotos. Entre as 27 matérias analisadas, uma se utiliza de todos os referidos recursos para tratar das manifestações decorrentes da situação caótica, mas usa termos como “vandalismo” e “depredação”. E apenas uma dessas reportagens menciona a situação da população quilombola no Amapá, que tem perdido polpas de frutas, peixes e outras carnes. No entanto, em absolutamente nenhuma, nem mesmo na que se refere às comunidades quilombolas, há menção direta à composição racial da população do estado. Ou seja: fala-se, sim, sobre o Amapá, o que demonstra que ele não foi esquecido; mas não se fala sobre as desigualdades, a situação da população e sua composição étnico-racial com os mesmos esforços, contribuindo para a minimização e o apagamento do debate.

Racializar a questão importa para muito além do mês de novembro e de empreendimentos em torno do Dia da Consciência Negra. Importa, pois, sendo majoritariamente negro e situado fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, escolheu-se ignorar e apagar, em algumas narrativas midiáticas, o Amapá. Importa, pois, mesmo em notícias sobre decisões políticas, e até quando são mencionadas políticas públicas, não há nenhuma informação sobre a composição racial da população do estado. Noticiar sobre o Amapá com esforços mínimos, inclusive sem essa informação sobre sua realidade, demonstra que não se trata de esquecimento; é apagamento.

Thayla Bicalho Bertolozzi é mestranda em humanidades, direitos e outras legitimidades pela USP (Universidade de São Paulo), graduada em relações internacionais pela mesma instituição e assistente de pesquisa no Afro/Cebrap (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial).

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